Capítulo 4

1150 Words
Capítulo 4 JOÃO LUCAS NARRANDO A caminho de casa estava um silêncio que doía. Liz estava no banco de trás com Valentina nos braços e quando descemos do carro observei melhor ela . Minha filha parecia um corpo sem alma, os olhos vazios, os passos lentos, como se cada movimento fosse um peso. Lachelle e Imperador vinham logo atrás, com a preocupação estampada nos rostos . E eu? Eu era o responsável por tudo isso . Sentia o chão me engolindo a cada passo . Quando entramos, a Liz levou Valentina para o sofá, tirou os sapatos dela, ajeitou o cabelo com um carinho desesperado, tentando acalmar o que não se acalma com toque . — Traz um copo d’água, João. — a voz da Liz veio baixa, firme, mas cansada . Fui até a cozinha como um robô, com a cabeça explodindo e o peito afundado . Quando voltei, Valentina não chorava . Ela não fazia nada. Só encarava o chão como se o mundo tivesse desabado nos pés dela . Sentei no chão, bem na frente dela . Queria que ela me visse . Queria que ela olhasse no fundo dos meus olhos e entendesse a única coisa que eu precisava que ela soubesse: eu nunca venderia minha filha . — Filha… — comecei, com a voz falhando. — Me escuta, por favor . Eu sei que você tá com raiva, com dor, sentindo que o chão sumiu . Mas me dá essa chance de explicar . Porque você precisa saber da verdade . Ela não respondeu . Continuou olhando o vazio . Liz se sentou do lado dela, pegou a mão da nossa filha entre as dela. Lachelle ficou em pé, encostada na parede, e Imperador cruzou os braços, o olhar firme sobre mim. Eu sentia o peso da merdä que eu tinha feito, mas era o olhar da minha filha que me matava . — Aquilo… aquele acordo… eu nunca soube que o Velho ia cobrar assim. Nunca . Valentina piscou devagar, como se tentasse processar . — Foi numa época de guerra, filha . A sua mãe e sua avó tinham sido sequestradas . Eu tava desesperado, sem pista, sem saída e ele foi o único que atendeu . O único que usou as conexões dele, que moveu satélite, drone, homem até debaixo da terra pra achar elas. Eu aceitei a ajuda porque era isso ou perder quem eu amava . Ela ergueu os olhos, enfim. Mas os olhos dela não eram mais os mesmos . — E a dívida, pai? Engoli em seco . — Eu sabia que teria um preço. Mas eu pensei que fosse dinheiro, território, aliança. Eu pensei em tudo, menos em você. Ele nunca falou de casamento . Nunca . As lágrimas finalmente vieram. Devagar. Quentes. E silenciosas . — Eu sou sua filha, pai. Sua… sua única filha… — ela disse, a voz quebrada — E ele acha que pode me comprar como se eu fosse uma moeda. — Você não é moeda, Valentina. — me ajoelhei, segurando as mãos dela. — Você é meu coração fora do peito. Eu juro por tudo que me mantém de pé: se eu soubesse que isso ia cair sobre você, eu nunca teria aceitado. Eu teria entrado no infernö com um fuzil e saído com sua mãe e sua avó na bala. Mas eu não sabia. Ela me olhou. E pela primeira vez, o olhar não era de raiva. Era de dor. Então o Imperador falou: — Valentina, se eu tivesse aceitado desde o começo o amor dos seus pais, muita coisa teria sido evitada, principalmente toda essa situação, seu pai sempre tentou fazer o certo e nunca em hipótese alguma ele te venderia, nunca! Ela assentiu, me olhou e falou: — Eu achei que você tinha me vendido… que… que a minha vida não valia nada perto do nome da família. — Não, meu amor. Nunca. — apertei as mãos dela contra o peito. — O seu nome é o mais importante pra mim. Seu sorriso é meu maior império. Eu não sou patrão quando você chora. Eu sou só um homem tentando proteger quem ama. E hoje eu falhei com você. Ela desabou no meu colo. O choro veio forte, doído, e cada lágrima dela era como se cravasse uma lâmina em mim. — Me desculpa, pai… — ela soluçou. — Eu te julguei. Eu te odiei por uns minutos e doeu demais. — Você tinha todo direito. — acariciei o cabelo dela. — Eu também me odiei. Por não ter visto isso vindo. Por não ter previsto. Por não ter protegido você de tudo, até do passado. Lachelle se aproximou, pousando a mão no ombro da neta. — O mundo que a gente vive não é justo, minha neta. E o Velho… ele é mais crüel do que você imagina. Mas o seu pai ele é o homem mais leal que eu já conheci. Imperador assentiu com o queixo. — Ele se tornou maior que eu, maior que qualquer nome do tráfico. Ele virou lenda. E sabe por quê? Porque ele lutou por vocês. Sempre. Valentina ergueu o rosto, ainda com os olhos inchados. — O que vai acontecer agora? Suspirei, passando a mão na barba, tentando encontrar uma resposta que eu mesmo não tinha. — Eu vou resolver. — falei, com firmeza. — Nem que eu tenha que entregar tudo, acabar com os acordos, com os impérios, com o tráfico. Mas você não vai se casar com ninguém por dívida. A tua vida é tua. E só tua. Ela me abraçou com força, e nesse momento, eu entendi que ainda tinha chance de consertar. Liz se aproximou e se juntou ao abraço. Lachelle também. Até o Imperador se curvou e colocou a mão na minha cabeça. Éramos uma família. Machucada, marcada, mas unida. E quando você mexe com o amor de uma família como a nossa… Você declara guerra. — Valentina… — falei depois de alguns minutos, olhando nos olhos dela. — Eu preciso que você confie em mim mais uma vez. Me dá essa chance de te proteger como pai, não como Rei. Ela respirou fundo, limpou o rosto com a manga do vestido e respondeu: — Eu confio. Mas pai, me deixa lutar também. Eu não sou mais criança. Eu quero fazer parte disso. Engoli em seco. Ela tava virando mulher diante dos meus olhos. Forte como a mãe, corajosa como a avó. Mas ainda minha menina. — Vai lutar, sim. Mas ao meu lado. Nunca sozinha. Ela sorriu fraco, e eu beijei sua testa. O mundo lá fora podia estar prestes a ruir. Mas aqui, nesse abraço, a gente reconstruiu o que importa. E agora era a hora de traçar o próximo passo. Porque a guerra ainda não acabou. E se o Velho pensa que vai controlar a minha filha… Ele esqueceu quem eu sou.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD