Capítulo 3

1009 Words
Capítulo 3 VALENTINA NARRANDO O silêncio após a partida do Don Velásquez, que todos mais conheciam como Velho e do tal filho dele era ensurdecedor. Cada passo deles para fora da festa parecia ecoar na minha cabeça como o estalar de um chicote . O salão ainda estava cheio, mas tudo parecia vazio. As vozes se tornaram sussurros distantes, os rostos borrões, e o bolo, o malditö bolo branco com dourado, ainda brilhava como se alguma coisa ainda valesse a pena nesse dia . Mas não valia . Eu estava simplesmente arrasada . — A festa acabou! — ouvi a voz da minha mãe, firme, trêmula, quebrada . Ela subiu no pequeno palco e, com os olhos cheios d’água, tentou manter a compostura. Minha vó Lachelle veio logo atrás, imponente como sempre . — Por favor, agradecemos a presença de todos. Mas agora, precisamos de um tempo em família . As pessoas começaram a sair como formigas assustadas . Algumas cochichavam, outras olhavam pra mim com pena. Odeio pena. Odeio olhares que dizem “coitada”. Eu não sou coitada . Sou filha do João Lucas. Do Rei. A filha da Liz. A neta do Imperador . Eu fui criada entre muralhas invisíveis, cercada por soldados, protegida como uma joia . E, ainda assim fui vendida . O mundo girava, mas minhas pernas pareciam presas no chão. Eu mäl sentia meu corpo. Só o sangue borbulhando de raiva, só a alma se partindo em pedaços . Olhei para o meu pai . Eu não conseguia acreditar no que estava acompanhando, essa porrä toda não podia ser verdade . — Pai, você vai me explicar ou vou ter que quebrar tudo aqui dentro para conseguir uma resposta?! — minha voz saiu mais alta do que imaginei, mais rasgada do que eu esperava . Ele olhou pra mim. Mas não era o homem forte, destemido, o Rei do morro . Era só um pai. Um homem cansado . Com o rosto mais envelhecido do que eu lembrava . Minha mãe correu pra mim . — Filha, calma… por favor… — CALMA, MÃE?! — gritei, afastando o abraço. — Aquele homem, aquele monstro, falou na frente de todo mundo que EU sou o pagamento de uma dívida! Que EU sou a moeda de troca! Meu pai abriu a boca, mas logo fechou de novo . — FALA! — gritei. As lágrimas escorriam agora . E não era de tristeza. Era de dor. De traição . Minha vó se aproximou, tentando controlar a situação . — Valent… — Não! Não é a senhora que me deve explicação! É ELE! — apontei com o dedo tremendo para o homem que eu mais admirei na vida inteira. — É você, pai. Você que sempre disse que morreria por mim. Que me protegeria de tudo. Que eu era seu maior amor . E agora… agora você me VENDEU! A palavra cortou o ar. “Vendeu”. Ele cambaleou como se tivesse tomado um soco. — NÃO É ASSIM! FALA DIREITO COMIGO PORRÄ! EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ NERVOSA, CHATEADA, DECEPCIONADA E COM DIREITO, MAS EU AINDA SOU SEU PAI PORRÄ E VOCÊ NÃO VEM QUERER FALAR MAIS ALTO COMIGO, ACIMA DE QUALQUER COISA EU EXIJO RESPEITO! — ele respondeu gritando, finalmente. A voz rouca, o peito arfando. Respirou fundo e abaixou o tom — Eu nunca… nunca pensei que isso chegaria tão longe. — ENTÃO POR QUE FEZ O ACORDO? — gritei, a garganta em carne viva. — Por que não me perguntou? Por que não confiou em mim? Ele se aproximou. Eu dei um passo pra trás. — Valentina, essa situação aconteceu em um momento de desespero. Era outra época. Eu era outro homem. Eu estava sem saída, eu precisava de ajuda, eu nunca imaginei que iria ser assim filha. — E resolveu pagar com a minha?! O silêncio caiu como uma pedra. Minha mãe chorava. Meu avô continuava imóvel, os braços cruzados, o maxilar tenso. Mas não disse nada. Isso me doía mais. Ele sempre falou por mim. Sempre me defendeu. Hoje, ele só olhava como se soubesse que já era tarde demais. — O que ele quer, pai? Hein? — perguntei, a voz falhando. — Um corpo pra parir herdeiros? Uma medalha de poder? Uma esposa submissa pra brincar de realeza? — Ele quer a garantia de que o trono dele vai durar mais uma geração… — Meu pai respondeu com amargura. — E que o sangue da sua linhagem, da nossa linhagem, nunca mais será inimigö do dele. Ou que se junte com algum inimigö. — Então era isso? Você selou a paz com meu corpo?! Ele deu um passo. Eu dei dois pra trás. — FILHA, ME ESCUTA! — ele gritou, desesperado. — Eu vou resolver isso. Eu juro. Não vai acontecer se você não quiser. Mas você não pode me julgar antes de saber o que realmente aconteceu porrä! Você acha mesmo que eu sou esse monstro que seria capaz de vender a própria filha? — EU QUERO UMA EXPLICAÇÃO AGORA! — gritei novamente. — Eu quero saber tudo. Desde o começo. Desde quando você decidiu que a sua filha era o pagamento da sua dívida. Minha mãe tentou me abraçar. Eu permiti, dessa vez. E chorei. Chorei como nunca. Mas a dor não me impedia de ver. Eu vi o desespero no olhar do meu pai. A vergonha. A culpa. — Valentina... — Meu avô finalmente resolveu falar. Eu não disse nada apenas olhei para ele que continuou. — Não trate seu pai assim, eu tive até mais culpa que ele, pois o que aconteceu foi consequências de atitudes minhas, vamos para casa, vamos todos sentar e conversar e eu e seu pai vamos achar uma solução. Vi o prenúncio de guerra nos olhos do meu avô. E vi, dentro de mim, a certeza. Eu não sou de ninguém. Nem do Velho. Nem do filho dele. Nem do meu pai. Eu sou Valentina. E a partir de agora, quem vai cobrar a verdade dessa história sou eu.
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