a favela existe

273 Words
Em 1897, depois de massacrar a comunidade do líder religioso Antônio Conselheiro na Guerra de Canudos, muitos soldados vieram ao Rio. Buscavam recompensa por sua atuação no conflito – dinheiro e moradia, segundo havia sido prometido. Enquanto esperavam uma atitude do governo, os ex-combatentes foram se estabelecendo nas encostas do morro da Providência. Não demorou para que eles passassem a chamar o local de morro da Favela, homenageando um monte de mesmo nome situado próximo a Canudos (o morro baiano, por sua vez, ganhara esse nome por causa de um tipo de arbusto – chamado “favela” – que crescia nele). A história dos veteranos de Canudos acabou se transformando no “mito de origem” das favelas, embora elas já existissem antes. Esse descompasso entre o que é real e o que é imaginário não é novidade nenhuma quando o pessoal do “asfalto” (a parte da cidade dotada de boa infra-estrutura) pensa sobre o “morro” (sinônimo de favela, apesar de hoje muitas ficarem em terreno plano). Segundo Lícia do Prado Valladares, professora de Sociologia da Universidade de Lille, na França, a visão que temos da favela foi, desde o começo, “inventada”. Em vez de serem encaradas apenas como locais em que pessoas humildes viviam de modo precário, as favelas logo foram tidas como espaços nos quais predominavam o atraso, a marginalidade, a má higiene e a ausência de moral. “A pobreza era, naquela época, associada à vadiagem. E os vadios, por sua vez, eram associados ao crime e à imoralidade”, afirma Lícia, que estuda as favelas há mais de 20 anos.
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