Em vez de buscar a integração do morro com o asfalto, as autoridades se recusavam a aceitar a existência das favelas. Quando possível, arrasavam habitações populares e expulsavam seus moradores. O resultado dessas políticas foi, em geral, o contrário do desejado. No início do século 20, uma nova onda de demolições de cortiços impulsionou o crescimento das favelas:o célebre “bota-abaixo” promovido pelo prefeito Pereira Passos a partir de 1904. Para que grandes avenidas fossem traçadas, cortiços e casebres foram derrubados. O objetivo era transformar o Rio em uma capital nos moldes de Paris, sem pobreza à vista.
Os pobres, de fato, se afastaram das casas destruídas. Mas se estabeleceram logo ali ao lado. “Precisava-se de trabalhadores para realizar as obras de alargamento de avenidas, e eles eram exatamente os moradores dos cortiços derrubados. Eles então ocuparam o bairro da Saúde e o morro da Providência”, afirma o historiador Edmílson Martins Rodrigues, professor da Pontifícia Universidade Católica e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). “Desde o início, o morador das favelas queria estar perto do Centro, das oportunidades de trabalho. E a cidade continuou a precisar dessa mão-de-obra.”Se hoje é comum se referir ao Rio como uma cidade dividida, essa impressão já existia no início do século passado. “Vê-se bem que a principal preocupação do atual governador do Rio de Janeiro é dividi-lo em duas cidades: uma será européia, a outra, indígena”, escreveu Lima Barreto sobre as reformas do prefeito Pereira Passos. Com o passar dos anos e o crescimento da ocupação dos morros, o preconceito ajudou a difundir políticas que visavam à extinção das favelas, principalmente a partir dos anos 20. “As favelas eram, sim, um problema sanitário, como ainda o são as que não têm rede de esgoto e água encanada. Mas não eram um problema moral ou criminal até os anos 70”, diz Martins Rodrigues, lembrando que as prostitutas, por exemplo, não ficavam nas favelas (mas na zona do Mangue) e que os moradores de morro mais próximos do crime eram meros capoeiristas e “malandros” – que se envolviam em confusões e contravenções leves.
Em 1922, o poder público removeu grande parte das pessoas que viviam nos morros da Providência, Santo Antônio e Gávea-Leblon. No fim dos anos 20, o francês Alfred Agache propôs um projeto urbanístico para o Rio. Nele não havia espaço para as favelas, consideradas um problema “sob o ponto de vista da ordem social, da segurança, da higiene, sem falar da estética”. A impressão se manteve na década seguinte. Em 1937, o Código de Obras da cidade citou as favelas como uma “aberração urbana” e propôs sua eliminação, proibindo a construção de novos barracos. Mais do que isso, o Código proibia melhorias nos morros já ocupados. Em vez de encarar a questão das favelas, mais uma vez os governantes resolviam apenas tentar fazer com que elas desaparecessem.