A ferro e fogo

825 Words
No mesmo ano em que o Código de Obras condenou as favelas, o cantor e compositor Nelson Sargento se mudou para o morro da Mangueira. Chegou aos 13 anos e permaneceu lá até 1960, consolidando-se como um dos grandes nomes do samba. Hoje, aos 83 anos, Sargento não concorda que os morros representassem um problema: “A favela da época tinha outro charme. As pessoas eram mais unidas, tinham mais pudor. Mas não adianta ter saudade do que já se foi”. Em pesquisas de campo feitas nas favelas do Rio de Janeiro, a antropóloga Alba Zaluar percebeu que os antigos habitantes do morro sentem falta da vida que levavam no passado. “É uma tristeza, uma melancolia enorme o que eles têm. A favela piorou muito por causa da tragédia do tráfico”, diz. “A imagem da favela como problema criminal, que antes não era verdadeira, passou a ter muito de verdade quando os traficantes armados se encastelaram nelas, a partir dos anos 70.” Muito antes de o tráfico mudar o cotidiano das favelas, a ditadura de Getúlio Vargas arrumou um jeito um tanto autoritário de lidar com o problema habitacional. Nos anos 40, foram criados os “parques proletários”, conjuntos para onde eram levados moradores dos morros – os primeiros foram erguidos nos bairros da Gávea, do Caju e na praia do Pinto, próxima ao Leblon. A promessa era a de que as pessoas poderiam retornar a seus locais de origem assim que as favelas ganhassem infra-estrutura. Mas, na prática, ninguém era autorizado a voltar. A política de Vargas motivou o aparecimento das primeiras associações de moradores das favelas: elas nasceram com o objetivo de evitar a remoção para os parques proletários. Em vez de ser transferidos, os moradores associados passaram a exigir que os serviços públicos fossem estendidos às favelas. Em 1946, a Arquidiocese do Rio promoveu a criação da Fundação Leão XIII, que, atuando em conjunto com os habitantes dos morros, conseguiu levar água, luz e esgoto para algumas comunidades. Dez anos depois, a Igreja carioca fundou a Cruzada São Sebastião, com o então bispo dom Hélder Câmara à frente. Agora o objetivo não era apenas lutar por infra-estrutura, mas exigir respeito aos direitos dos habitantes das favelas. Com o tempo, as associações de moradores se multiplicaram. Nos anos 50, surgiram entidades como a União dos Trabalhadores Favelados. Em 1963, a Federação das Associações de Favelas reunia nada menos que 100 grupos na cidade. Eles não foram capazes, contudo, de impedir novas remoções de moradores. Vargas já tinha morrido, mas seu antigo desafeto Carlos Lacerda, governador do então estado da Guanabara (que tinha como única cidade o Rio de Janeiro), manteve a política de tirar pessoas das favelas e colocá-las em conjuntos habitacionais – agora bem mais distantes. O mais famoso deles é a Cidade de Deus, erguida por Lacerda no bairro de Jacarepaguá a partir de 1960. Nos anos seguintes, favelas inteiras foram eliminadas. Entre elas a da Catacumba, que deu lugar a um parque próximo à lagoa Rodrigo de Freitas, e a do Esqueleto, que ficava no espaço hoje ocupado pela UERJ, perto do Maracanã. Em 1968, a ditadura militar criou a Coordenação de Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana do Grande Rio. Em documentos oficiais, descrevia a favela como um “espaço urbano deformado”. Os moradores resistiam como podiam às remoções. Na praia do Pinto, onde o antigo parque proletário de Vargas tinha dado lugar a uma favela, a resistência acabou em 1969, quando a comunidade foi destruída por um incêndio cujas causas permanecem um mistério. No mesmo local foi erguido um condomínio – nada proletário – chamado Selva de Pedra. A repressão levada a cabo pelo regime militar desencorajava os movimentos de moradores das favelas. Em vez de exigir seus direitos, boa parte deles passou a se contentar com pequenos favores. Da metade dos anos 70 até o início da década seguinte, pouco se fez para melhorar as condições de vida nos morros. No mesmo período, o crescimento do narcotráfico transformou as favelas na principal sede do crime organizado no Rio de Janeiro. “As favelas foram se tornando, aos poucos, santuários de bandidos”, diz Alba Zaluar. Para a antropóloga, a ausência de políticas habitacionais consistentes durante a redemocratização do país, nos anos 80, contribuiu para que o problema se agravasse. Apenas quando quase 1 milhão de pessoas morava nas favelas – já dominadas pelos traficantes – os morros ganharam vez na política municipal. O Plano Diretor carioca de 1992 defendeu que as favelas não fossem extintas, mas urbanizadas e integradas à cidade. Um ano depois, surgiu o programa Favela-Bairro, com o objetivo de oferecer saneamento e infra-estrutura às comunidades, transformando-as, enfim, em bairros. Desde então, segundo a prefeitura do Rio, mais de 550 mil pessoas, em 143 favelas, foram beneficiadas pelo programa – com água encanada, coleta de lixo, redes de esgoto ou luz elétrica.
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