a favela é feliz

537 Words
A experiência de morar no lugar e conviver com os moradores despertou meu interesse pela favela como um todo. Entendi que, para compreender coisas como acesso (distribuição), consumo (modos de uso, práticas, hábitos etc) e compartilhamentos de bens e serviços públicos e privados (água, energia elétrica, TV a cabo e internet) eu deveria entender essa dinâmica sob vários aspectos e pontos de vista. Especialmente, a partir das lideranças, das estruturas políticas de organização, dos modos de resolução de conflitos, até chegar à interface da favela com o Estado, ou seja, as instituições e autoridades municipais e estaduais, entre outras. Eu não fazia ideia que ali começava uma relação empática onde, através da convivência contínua e aprofundada, desenvolvi vínculos sólidos verdadeiros.Deparei-me com uma favela dotada de profundidade temporal (surgiu por volta de 1930) e com uma organização política própria. Como em tantos outros agrupamentos sociais, também na Barreira do Vasco (que fica em São Cristóvão, na região portuária do Rio de Janeiro, e tem cerca de 8 mil domicílios) foi possível observar o sistema de crenças e valores, o sistema de parentesco, as redes sociais e uma rica cultura material, movimentada por lógicas próprias de compartilhamento, consumo, dotadas de moralidades, formas de provisão e hierarquias de necessidades. Todos esses aspectos marcam o que é viver e morar em uma favela. Importante frisar que uso o termo “favela” porque os moradores usam o tempo todo. Mas preciso dizer o quanto a palavra “favela” assumiu outros contornos para mim ao longo dessa experiência etnográfica. Antes da pesquisa de campo, eu era uma estudante de Antropologia convencida de que o problema da favela se resolvia plenamente no âmbito dos estudos urbanos, das teorias antropológicas voltadas para as sociedades complexas, geralmente vinculadas à questão da pobreza em contextos de desigualdade. Acreditava que eram aglomerados que, apesar de complexos e urbanizados, sofriam com os estigmas relacionados às falhas do “desenvolvimento e progresso”. Sem desmerecer esta abordagem e todos os frutos que ela produziu no âmbito dos estudos urbanos recentes, não pude deixar de observar, como “moradora de favela”, que a exclusividade desta perspectiva obscurecia aspectos cruciais que diziam respeito ao vigor, à riqueza e à singularidade positiva das relações sociais que ocorrem ali. Sob vários aspectos que pude constar, a favela apresenta expressões sociais que, apesar de informais ou ainda não legitimadas pelas instituições estatais, estão cada vez mais afinadas com a vanguarda do pensamento social e econômico contemporâneo. Ou seja, de muitas maneiras, sem mesmo ter consciência do seu estilo de vida calcado nas “sustentabilidades” — social, econômica, ambiental etc — os moradores da favela já ultrapassaram e superaram dilemas da própria sociedade. Assim, em determinado momento, passei a perceber a favela não mais como “problema social”, mas como um tipo de produção de localidade que possui um “enraizamento” sociocultural próprio. Não são, portanto, espaços e populações que precisam ser beneficiadas por regimes de ordenamento ou mesmo “pacificadas”, “civilizadas”, mas, antes de tudo, compreendidas em suas capacidades transformadoras e regeneradoras do próprio tecido social urbano em contextos metropolitanos de países como o Brasil, China, Índia e, sobretudo, países africanos.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD