— E o que seria? — Estou ficando curiosa.
— Quero que vá a uma joalheria comigo.
— Uma joalheria?
— Sim, foi o que eu disse.
— Desculpe, senhor Kim, mas para quê exatamente? — ajeitei meus óculos.
— Vamos comprar um coelho.
— VAMOS TER UM COELHO? — Soobin pergunta eufórico, com os olhos brilhando e arregalados.
"Fofo."
— Santa Mãe! — Ji-hoon passa as mãos no rosto. — Não, Soobin, não vamos ter um coelho... — Ele responde, olhando sério para o garoto de cabelos loiros, que baixa o olhar e se deita novamente.
— Anne... — Ele volta a atenção para mim, que estou tão quieta e parada quanto uma estátua. — Nós vamos a uma joalheria comprar uma joia. Um presente, para ser exato. — Ele levanta o indicador direito.
— Bem, eu sei... desculpe, eu apenas quis saber o que vai comprar.
— Bingo! — Ele arqueia o corpo, vindo para perto de mim, e eu ponho as mãos no estofado, me afastando por impulso e vergonha.
Confesso que, às vezes, ficar perto de Ji-hoon me deixa desconfortável. Ele tem essa mania de chegar muito perto das pessoas. Aqui na Coreia, isso não é algo comum; a sociedade é bem rigorosa quanto a proximidade física. Entretanto, Ji é um ser raro, cheio de peculiaridades. Por isso, chamam-no de "4D", o que ele odeia. Ele é apenas ele mesmo, sem tirar nem pôr, mas ser considerado estranho o magoa.
— O quê? — Perguntei, sem jeito, já sabendo que estou vermelha.
"Alguém diga a ele que vai acabar me fazendo ter um infarto?"
— É aí que você entra. Você vai escolher o que mais lhe chamar a atenção.
— E-eu? Mas por quê eu?
— Ora, primeiro porque confio em você; segundo, estou pedindo; e terceiro, você é minha assistente, não? — Ele arqueia uma sobrancelha.
— E-eu sei, senhor Kim... — Ele revira os olhos, fazendo uma careta. — Mas... eu... não sou boa com essas coisas. Além do mais... — Ele está com os lábios torcidos, me encarando. — O Soobin pode ir no meu lugar...
— Eu não irei! — Soobin protesta, olhando em nossa direção.
— A ele você chama pelo nome?
— Sim... é que... — Desvio o olhar.
— Tá, isso não vem ao caso agora. Bom, ele já disse que não vai, e eu quero que você...
— Eu só vou se for comprar o coelho... — Soobin resmunga, e Ji fecha os olhos com força antes de abri-los na direção de Soobin.
— Como eu ia dizendo, Anne... — Ele me olha. — O fato é que quero que seja você.
— Seria melhor um coelho...
Ji olha novamente para Soobin, que está concentrado encaixando uma peça.
— Temos compromisso agora? — Ele volta sua atenção para mim, e eu não digo nada. — A agenda...pode conferir? — Ele aponta para o objeto em meu colo.
— Ah, sim... claro! Desculpe. — Sorrio sem graça, voltando à posição de antes e abrindo na página de hoje. Só há um problema: Kim Ji-hoon está tão próximo que posso sentir sua respiração contra minha bochecha esquerda.
— Ah... não. Só às 17h, que será o ensaio.
— Ótimo! — Ele diz, batendo palmas e se levantando. Eu sobressalto, pondo as mãos nos óculos, quase uma mania.
— Então vamos! — Ele diz, colocando o boné e abaixando a aba da frente.
— Mas...
— Anne, já foi decidido. — Ele apalpa os bolsos traseiros da calça.
— E se o Jung-Sik for? — Ele me olha de repente, e eu baixo o olhar.
"Merda!"
Ele põe as mãos nos bolsos e se curva, ficando próximo do meu rosto. Recuei, mas mantive o olhar no dele.
— Certamente vou querer ter uma conversa com você sobre isso. — Ele estreita os olhos, sorrindo logo em seguida. — Agora vamos! — Ele se endireita. — Temos algo importante para fazer.
— Mas, senh...digo, Kim... — Ele me olha de lado. — É que eu tenho uma dúvida... — Levanto, pegando os objetos e indo até ele, que está agachado em frente ao frigobar.
— Hum?
— Se vamos a uma joalheria, não seria meio estranho se eu aparecesse com você? E se algum stalker, jornalista ou fã nos vir?
— ISSO É REALMENTE UM ABSURDO! — Ele grita, se levantando de repente.
"Realmente..."
— Isso é inadmissível! — Ele fala e me encara. — E quanto à situação hipotética, pensei nisso. — Ele pegou o telefone do bolso e discou um número.
"Do que ele estava falando?"
— Alô? Senji? Meu suco de maçã verde acabou. Pode pedir para reabastecer? Ah, sim... obrigado, hyung! — Ele desliga o telefone e o coloca no bolso novamente. — Agora vamos, honey.
“Suco? Ele estava falando do suco de caixa."
O acompanhei pelos corredores até o elevador. Ele está sempre à frente, digitando no celular. Descemos até o estacionamento subterrâneo, onde um motorista nos esperava. Um segurança sentou na frente e outro no banco de trás, à nossa frente. Ji-hoon, ao meu lado, parecia imerso em uma conversa no Line .Ele sorria às vezes, e seus olhos brilhavam como os de uma criança.
"Deve ser a namorada."
Torci os lábios e ajeitei os óculos enquanto observava, pela janela fumê, as ruas de Seul no bairro nobre onde estávamos. Lojas de grife, restaurantes cinco estrelas, danceterias onde uma taça de vinho custaria o preço de um iPhone, e condomínios luxuosos desfilavam à nossa volta. Nunca sonhei tão alto a ponto de desejar tamanha riqueza, mas ter o suficiente para não me preocupar com nada material não seria nada m*l. Suspirei, desviando o olhar para o lado, e dei de cara com Ji-hoon me observando. Tomei um pequeno susto.
— Ah... Algo errado? — perguntei, um tanto desconfortável.
— Você estava tão distraída que nem me ouviu te chamar. — Ele sorriu de leve, comprimindo os lábios.
— Desculpe, senhor.
— Hum. — Ele olhou pela janela. — Sabe, sinto falta da liberdade que tinha para fazer coisas simples.
"É muito simples ir a uma joalheria."
— E você deve estar pensando: "Não tem nada de simples em ir a uma joalheria." — Ele riu, sem humor, e me pegou de surpresa, como se lesse minha mente. — Mas me refiro a andar por aí sem precisar de um segurança colado em mim o tempo todo. Sem ofensas, Jinhon! — Ele acenou para o segurança, que retribuiu com um breve movimento de cabeça. — Só queria ser uma pessoa normal, sair para tomar um sorvete, ir ao parque... ser amado de verdade, intensamente.
Meu coração disparou, e, sem pensar, as palavras escaparam da minha boca:
— Mas você é amado. Talvez não da forma ou por quem espera, mas sim, você é.
Ji-hoon manteve os olhos fixos nos meus e, por um instante, talvez por ilusão minha, pareceu olhar para minha boca.
— Uhrumm! — Um dos seguranças pigarreou nos interrompeu. — Senhor Kim, chegamos.
— Oh, que rápido! — Ji-hoon pegou sua máscara, ajustou o boné e vestiu um longo sobretudo preto. — Vamos lá.
O segurança abriu a porta, e Ji desceu primeiro, comigo logo atrás. Instintivamente, escondi meu rosto o máximo possível enquanto percebia que estávamos entrando por uma entrada discreta, afastada da fachada principal da loja.
— Está vendo? Cuidei de tudo. Pedi para Senji ligar para o gerente da loja. Como já sou cliente daqui, foi fácil. — Ele explicou enquanto caminhávamos por um corredor estreito, que dava acesso à área principal da joalheria.
O lugar era discreto, com algumas salas ao longo do corredor. Mulheres jovens e elegantes passavam por nós, vestidas com terninhos bem ajustados, ocasionalmente lançando olhares curiosos para Ji, que seguia digitando algo em seu celular. No final do corredor, um homem alto e careca, possivelmente o segurança local, abriu uma porta preta que nos levou a uma escada de emergência. Subimos até o segundo andar e entramos em um elevador de carga. Um dos seguranças apertou o botão para o sétimo andar.
Ao chegarmos, o cenário mudou. O corredor agora era mais luxuoso e decorado. Seguimos por ele até uma grande porta de madeira lustrosa, onde uma mulher coreana de cabelos loiros e batom vermelho nos recebeu com um sorriso.
— Senhor Kim, que prazer recebê-lo novamente.
— Olá, senhorita Jennie. — Ji respondeu, tirando a máscara. — Ah, esta é Anne, minha...
— Vamos entrar? — A mulher cortou Ji, ignorando completamente minha presença, enquanto colocava a mão em seu ombro e o conduzia para dentro.
Ao entrarmos, a mulher levou Ji até uma grande mesa de vidro e indicou uma poltrona de couro claro. Ele retirou o sobretudo, jogando-o em um sofá branco, antes de se sentar. Jennie, mantendo uma postura altiva e superior, contornou a mesa e se acomodou em sua cadeira giratória.
— Então, senhor Kim, tomei a liberdade de...
— Espere. — Ji interrompeu, olhando na minha direção. — O que você está fazendo?
Olhei para ele, confusa, mantendo as mãos cruzadas à frente do corpo.
— Eu...não queria atrapalhar e... — tentei explicar, envergonhada com o olhar nada amistoso da mulher.
— Sente-se ao meu lado, honey. — Ele ordenou, me cortando e atraindo a atenção curiosa de Jennie.
Caminhei devagar até a poltrona ao lado dele, sentindo o olhar inquisidor da mulher que parecia querer descobrir o que, afinal, eu era.
— Agora pode continuar, senhorita Jennie. — Ji disse, cruzando as pernas.
Jennie pigarreou antes de prosseguir.
— Como eu ia dizendo, tomei a liberdade de separar alguns itens da nossa coleção de verão. Não sei exatamente que tipo de jóia o senhor deseja, mas estas são peças de safira com adornos delicados em ouro branco. Essas são nossas peças mais lindas. — A mulher começou a abrir as caixas, revelando jóias graciosas e, muito possivelmente, tão caras quanto os meus quatro anos que seriam pagos na faculdade particular.
Ela abriu uma caixa de veludo preto e a empurrou na direção de Ji.
— Para ser sincero, nem eu mesmo sei o que quero. Por isso, Anne está aqui. — Ele disse casualmente, provocando outro olhar curioso de Jennie.
Engoli em seco, ajeitando os óculos.
— Este é um raro conjunto de pérolas negras... — Eu olhava atentamente cada detalhe das peças que ela, mesmo contra a vontade, começou a me mostrar.
Caixa após caixa era aberta, revelando peças deslumbrantes.
— Poderia trazer todas as peças da coleção? Inclusive as exclusivas? — Ji pediu com naturalidade.
— Claro. — Jennie pegou o telefone e, em coreano, fez o pedido.
Enquanto esperávamos, uma copeira entrou com uma bandeja de champanhe. Ji aceitou uma taça e me ofereceu, mas recusei, nunca tendo bebido álcool antes. Alguns minutos depois, quatro jovens entraram carregando caixas grandes, que depositaram sobre a mesa antes de sair, não sem antes lançar olhares discretos para Ji e depois para mim.
Eu observava tudo com cuidado até que algo específico chamou minha atenção.
— E essa é uma pulseira que...
— Ah… desculpe interromper, mas e aquela pulseira? — apontei, sem tocar, para um pequeno e delicado objeto com pedras azul-marinho em formato de pequenos corações, unidos por elos que pareciam infinitos, adornados por pedrinhas brilhantes semelhantes à strass.
— Oh! Sim. Essa é uma pulseira de diamantes e turmalinas azuis. — Ela respondeu, pegando-a com delicadeza e erguendo-a à minha frente.
— Quero que a prove. — Ji-hoon se pronunciou, e eu o encarei, surpresa.
— Mas…
— Com licença. — Ele interrompeu, pegando a pulseira com uma mão enquanto segurava minha mão esquerda com a outra. Gentilmente, trouxe-a para perto de si e ajustou a pulseira em meu pulso. — Ficou lindo. — Disse, segurando minha mão por mais alguns segundos. Seus olhos encontraram os meus, e pude sentir o sutil afago de seus dedos no dorso da minha mão.
— É realmente linda. — Respondi, desviando o olhar para o objeto brilhante.
— Então será esta, senhorita Jennie! — Ji-hoon exclamou com um sorriso largo, finalmente soltando minha mão.
— Ahh, maravilha! — A mulher bateu palmas, animada. — Deixe-me tirar…
Estiquei meu braço para ela, que retirou a pulseira, colocando-a novamente na caixa aveludada. Me encolhi levemente, ainda tímida, lançando um olhar discreto para Ji-hoon, que agora assinava um documento. Talvez fosse um certificado de autenticidade. Logo depois, ele tirou do bolso um talão de cheques e preencheu com cuidado.
— Aqui está, senhor Kim. — A mulher entregou a caixa a Ji-hoon, que sorriu educadamente enquanto a recebia.
— Aqui. — Ele estendeu o cheque e o documento para a loira, que abriu um sorriso, provavelmente ao ver a quantidade de zeros. — Bem, já vamos. Foi um prazer fazer negócios com vocês novamente. — Ji-hoon se levantou, fazendo uma leve reverência em sinal de respeito, que foi prontamente retribuída pela mulher, agora com um sorriso ainda maior.
— Sabe que o prazer é todo nosso. Ali, por favor, acompanhe-os. — Ela se dirigiu ao homem baixinho, que estava parado ali o tempo todo, impecável em seu fraque e luvas brancas.
— Sim, senhora. Por aqui, senhores. — Ele fez uma reverência e estendeu a mão, indicando a porta.
Saí logo atrás de Ji-hoon, que não parava de olhar para o embrulho em suas mãos. Já no carro, voltando para a empresa, eu me sentia um tanto apreensiva, pensando se alguém dali poderia comentar algo ou, pior, se algum colunista de fofoca havia nos visto.
— Não se preocupe, honey. Eles não podem nem abrir a boca sobre eu estar ali ou não. — Disse Ji, como se tivesse adivinhado meus pensamentos.
— Fico aliviada. — Sorri para ele, ajustando meus óculos, que nem sequer haviam saído do lugar, antes de voltar a olhar pela janela.
— Você deveria trocar.
— O quê? — Olhei para ele, curiosa.
— Os óculos. — Ele apontou para o acessório no meu rosto.
— … — Fiquei confusa por um momento, mas logo entendi. — Ah, não… é que, às vezes, eu meio que… toco no meio para ajustá-los. — Me calei quando o vi se aproximar, fixando seus olhos nos meus.
Engoli em seco, tentando controlar um soluço preso na garganta. Toda vez que Ji-hoon se aproximava demais, meu corpo reagia automaticamente: eu me encolhia, sentia um nó no estômago e uma leve acidez. Desviei o olhar rapidamente para a rua, ajustando novamente os óculos no nariz. Quando voltei a olhar para Ji-hoon, ele ainda estava perto, mantendo uma curta distância de, no máximo, dois palmos.
Ele sorriu, e meu coração disparou.
— Você fica vermelha muito fácil. — Ele disse com um sorriso largo e, para minha surpresa, tocou no meio da haste dos meus óculos, ajustando-os do mesmo jeito que eu fazia. — Parece uma amora.
Kim Ji-hoon disse aquilo, e foi nesse momento que meu coração começou a bater em um ritmo frenético, como se estivesse dançando uma lambada. Ele se afastou, pegando o celular do bolso, e eu soltei o ar que nem tinha percebido estar segurando.
Ser fã do seu chefe lindo já era, por si só, uma queda perigosa. Mas se esse chefe é Kim Ji-hoon? Você está condenada a ataques cardíacos e respiração descompassada.
“Foco! Focar em outras coisas vai ser bom.”
Pensei, mordendo a unha do indicador e rezando para aquele dia finalmente chegar ao fim.