Ji-hoon on
— Você está há meia hora olhando para essa jóia. — Wohon comentou, chamando minha atenção enquanto devorava kimchi e bulgogi.
— Só estou pensando em como vou entregá-la. — Guardei a pulseira na caixa e a coloquei no sofá atrás de mim. — Sabe, a ocasião, as palavras certas, o momento... — Completei enquanto enchia meu copo com soju.
— Nossa... você está realmente me assustando. — Wohon parou de comer, me encarando com os olhos arregalados.
— Por quê?
— Cara, nunca te vi falar assim, ainda mais estando apaixonado. Isso é inédito.
— Ah, não enche. É que você ainda não encontrou a pessoa certa. Isso muda um homem. Faz você enxergar as coisas sob horizontes diferentes. — Respondi, degustando a bebida levemente doce que queimava minha garganta.
— Meu Deus... pessoa, homem, horizonte... tudo numa mesma colocação de palavras. Perdemos mais um amigo. — Ele levou a mão ao peito, fingindo sentir dor.
— Às vezes, eu penso que você é i****a, mas aí você fala e tenho certeza que é de nascença. — Entornei o restante do líquido, recebendo um dedo do meio como resposta.
[...]
Dream Music Entertainment
8:00 AM
Cheguei mais cedo à empresa e fui direto para a sala de treinamento. Queria aproveitar para revisar os últimos passos antes de os outros membros chegarem. O show de amanhã seria grandioso; seria em Tóquio, e viajávamos às oito da noite. Como sempre, a ansiedade tomava conta de mim.
A euforia de subir no palco era uma sensação única. Ali, eu me sentia livre e completo. Minha vida havia mudado drasticamente nos últimos sete anos. Os planos e sonhos que pareciam tão distantes haviam se tornado reais, apesar de noites m*l dormidas, lágrimas e humilhações.
Lembro-me de quando ainda éramos trainees. Pensamos em desistir tantas vezes. Eu passava o dia inteiro em ensaios e aulas de canto, e à noite fazia entregas como office boy. Chegava ao dormitório exausto, sem forças nem para comer, apenas me jogava na cama e dormia.
Mas tudo mudou. Depois de sete longos anos, fui ao banco verificar meu extrato bancário após mais um show. E lá estavam os zeros. Foi quando percebi que todo o esforço tinha valido a pena. Depois disso, os números só aumentaram.
Comprei roupas para minha mãe e irmãs, ajudei meu irmão a abrir seu restaurante, comprei meu apartamento, um carro, e fiz viagens que nunca imaginei possíveis. Agora, aqui estou, sentado em uma das salas do grande império que é nossa empresa, sem preocupações com contas. Só preciso dar o melhor de mim no palco e para os nossos fãs.
Mensagem LINE
@Anne: Bom dia, senhor Kim.
Revirei os olhos ao ler a mensagem. Não pelo conteúdo, mas pela insistência de Anne em me chamar com tanta formalidade, mesmo eu já tendo pedido para parar. No entanto, de uma forma estranha, eu gostava de receber mensagens dela.
Às vezes, passamos horas conversando. Na verdade, era mais eu falando sozinho, já que ela quase nunca respondia. Era curioso como falar com Anne era algo tão natural para mim.
Flashback On
Mensagem LINE
@Você: Boa noite ;)
@Anne: Ah... quem é?
@Você: Nossa, não reconhece seu chefe? :/
(5 minutos depois)
@Você: Oi? ¿?
@Anne: Desculpe, senhor Kim Ji-hoon. Não percebi que era o senhor. Novamente, me desculpe, senhor.
@Você: "Senhor"? Por quê "senhor"? Por acaso sou tão velho assim, senhorita?
@Anne: Ohhh! Não, senhor...
@Você: Fique sabendo que sou muito jovem para ser chamado de "senhor". Me chame pelo nome, Ji-hoon.
@Anne: Certo. Bem, há algo que deseje?
@Você: Está ocupada?
(2 minutos de silêncio)
@Anne: Não...
@Você: O que está fazendo?
@Anne: Ahh? Eu?
@Você: Sim, ou eu não estou falando com a Anne, minha secretária?
@Anne: Me desculpe, senhor. Estou assistindo a um programa.
@Você: Qual?
@Anne: Acho que não gostaria de saber.
@Você: Bem, não me entenda m*l, mas se pergunto é porque realmente quero saber.
@Anne: Ah, sim. Então, estou assistindo... Bob Esponja.
@Você: Sério? É meu desenho preferido! :D
@Anne: Bob Esponja?
@Você: Sim! Aprendi muito inglês assistindo Bob Esponja. Além disso, é muito divertido.
@Anne: Sempre gostei, me lembra da minha infância.
@Você: Eu também. Mantenho algumas coisas que me lembram a infância, isso me traz paz. Você é do Brasil, não é?
(10 minutos de silêncio...)
@Você: Dormiu?
(5 minutos depois...)
@Você: Então, boa noite.**/
Flashback Off*
Mensagem LINE
@Você: Olá, Honey!
@Anne: Desculpe incomodar a essa hora, mas hoje tem ensaio às 9h.
@Você: Primeiramente, você não me incomoda, e segundamente, já estou na empresa, na sala de prática, esperando os outros membros.
@Anne: *-* ...Então... até mais? Logo estarei aí, senhor Kim.
@Você: Assim que chegar, me procure. Ainda temos uma conversa pendente, não acha?
@Anne: Ok.
Suspirei, jogando a cabeça para trás.
— Chegamos!!! — A voz eufórica de Wohon ecoou pela sala enquanto ele entrava acompanhado dos outros rapazes, que jogavam suas mochilas pelo chão.
— Ótimo! — Levantei em um pulo, esticando os braços para o alto e depois para trás, me alongando. — Vamos ensaiar, hoje o dia vai ser longo.
— Cara... você me mandou mensagem às 5 da manhã e depois me ligou sem parar por 40 minutos. O que deu em você? — Wohon perguntou, fazendo um espacate no chão durante o alongamento.
— Só estou eufórico com o show de amanhã. — Dei de ombros, me olhando no espelho à frente.
— Sei...
— Por favor, Jung, pode ligar o play?
— Claro, hyung! — Jung-Sik respondeu animado, indo até o aparelho digital junto à porta e selecionando a primeira música.
[...]
Ala A, Bloco 5
Sala de Refeições
14:00 horas
— Estou exausto... — resmungou Soobin, jogando-se em um dos sofás de couro escuro.
— Estou faminto! — protestou Jung, cruzando os braços enquanto o estômago roncava.
— Senji já pediu nosso almoço. — Disse, sentando ao lado de Namjoon e colocando minhas pernas sobre a grande mesa de centro no meio da sala.
— Qual é?! Tire seus pés da mesa onde vamos colocar a refeição! — reclamou Nam, empurrando minhas pernas com uma expressão séria.
— Você tem um TOC maldito. — Ri, observando enquanto ele ia até o armário pegar álcool e lenços.
— É questão de higiene, não de TOC.
— Cara, só quero comer... — resmungou Jung, esfregando a barriga em protesto.
— Onde está Senji? — perguntou Wohon, tirando sua touca e passando a mão pelos cabelos negros ainda molhados de suor.
— Vou ligar para ele.
Peguei o telefone e disquei rapidamente.
— Alô? Onde está, hyung? ...Umm? Ah, ok. Certo, até logo. — Desliguei a chamada.
— Senji disse que o restaurante entregou a comida há uns 40 minutos. Já deve ter chegado.
— E cadê sua secretária? — Nam perguntou, ainda concentrado em seu i********:.
— Anne? É verdade, não a vi hoje. — Respondi pensativo, lembrando que a última vez que falei com ela foi às nove da manhã.
Peguei meu telefone, procurando o nome dela na lista de contatos.
— Falando em Anne, ela é muito fofa. — Disse Jung, com um sorriso despreocupado.
— Fofa? Ela é muito bonita! É só tirar aqueles óculos, soltar o cabelo e, talvez, colocar algo mais... sexy. — Wohon comentou, com um sorriso malicioso que me incomodou mais do que deveria.
— Por que estão falando da minha secretária particular? — Falei, enfatizando a última parte enquanto encarava Wohon diretamente.
— Ora, não seja ciumento, Ji. Só elogiei.
— Não estou com ciúmes. Só não gosto que falem dos meus subordinados como se fossem objetos. — Sustentei seu olhar, firme.
— Até porque o único que deveria estar com ciúmes é o Nam hyung. Ele tem uma queda por ela. — Disse Jung, sem abrir os olhos.
— O QUÊ?! — Nam pulou no sofá, nervoso. — Jung-Sik! Eu... eu nunca disse isso!
— Não precisa, hyung. É só reparar como você fica todo bobo quando ela aparece. — Soobin rebateu com um sorriso cínico, antes de levar uma almofada no rosto.
— Ora, seus pirralhos! — Nam esbravejou, claramente desconfortável.
— Já chega! Proíbo qualquer um de falar dela ou de qualquer funcionária desta empresa. Sabemos das regras e que elas se aplicam a todos. Respeito e discrição, entendido? — Encarei Soobin, que abaixou a cabeça.
— Desculpe, hyung.
— Eu... eu não falei nada sobre ela, Ji, eu juro! — Nam parecia aflito.
— Fique tranquilo. — Toquei seu ombro para acalmá-lo, antes de olhar para Wohon, que abriu a boca para responder, mas foi interrompido pela chegada do funcionário empurrando o carrinho de comida.
[ …]
Depois de almoçarmos e ensaiamos as músicas para o show de amanhã, fui direto ao camarim buscar algumas coisas. A conversa mais cedo ainda estava na minha cabeça, e a expressão de Wohon me deixava irritado. Não sabia por quê.
— Entre! — Exclamei ao ouvir uma batida leve na porta.
— Com licença. — A voz de Anne me fez parar e olhar por cima do ombro.
Ela entrou devagar, fechando a porta atrás de si.
— Ora, vejam só, se não é minha secretária sumida. — Disse, voltando a guardar minhas coisas.
— Não estava sumida. Estava no andar de reuniões com o Senji, repassando a agenda do show. — Respondeu, como se fosse óbvio.
— Entende de ironia? — Virei-me, escorando no balcão.
— Ah... — Ela ajeitou os óculos, colocando as mãos no bolso da calça jeans clara.
Ela era marcante, mesmo com aquele jeito despretensioso. Não sabia por que estava reparando nisso agora.
— Anne, sou seu chefe, certo? — Questionei.
Ela assentiu, confusa.
— Então, não fui claro ao dizer que me procurasse assim que chegasse?
— Sim, mas não quis atrapalhar seu ensaio.
— Mesmo assim, sabia que eu queria falar com você. Esperei o dia todo. — Cruzei os braços, ainda irritado.
— Desculpe... não vai se repetir. — Ela abaixou o olhar, batendo os pés levemente.
Suspirei. Por que estava agindo assim?
— Bem... tudo bem. — Passei a mão no rosto. — Pode terminar de guardar minhas coisas? Vou ao banheiro, já volto.
— Claro.
Saí rapidamente, tentando clarear a mente. Peguei o celular e vi as mensagens de Nabi.
Meu coração acelerou ao ler: “Assim que voltar, quero conversar com você.”
Eu estava saindo com Nabi havia seis meses. Ela era linda e vivia viajando, mas o relacionamento escondido começava a me cansar. Decidi que era hora de oficializar.
Respondi sorrindo:“Não vejo a hora de te ver, meu bem.”
Voltei ao camarim, mais tranquilo.
— Ah... terminei, Ji. — Disse Anne ao me ver entrar.
— Ótimo! Agora, vamos.
— Deseja algo mais?
— Sim. Você vem comigo até minha casa.
— Casa? Por quê? — Perguntou, parecendo incrédula, que quase me senti um pervertido.
— Não terminei de arrumar minha mala e ainda quero conversar com você. Então , vamos até minha casa .
— Mas senhor eu ....
Arqueei a sobrancelha e ela fechou os olhos e tornou a me olhar .
— Claro, Ji.
— Melhorou. — Peguei minha mochila. — Vamos logo. E prepare sua mala.
— Minha mala?
— Sim, você vai a Tóquio comigo amanhã.
— A Tóquio? Para o show?
— Sim. Quero e preciso de você lá.
Ela assentiu, com as bochechas levemente coradas.
— Agora, vamos. — Abri a porta, gesticulando para que passasse primeiro.