Márcia Narrando
Sem acreditar que a Karen decidiu trabalhar hoje, justo no dia da folga dela, e nós tínhamos marcado de ir ao cinema! Ela ainda teve a cara de paü de sugerir que eu trocasse com a Jennifer para ficar no lugar dela. Nem a paü que eu ia perder o meu dia de lazer para ficar ouvindo desaforo do Senhor Rômulo e, pior, aguentando ele dando em cima da gente a noite inteira. É sempre assim depois do expediente. Toma no cü!
Eu já estava me preparando para sair do serviço quando Karen parou na minha frente, colocou as mãos na cintura e me encarou.
— Não vem que não tem! Você não vai me convencer a trabalhar hoje, sinto muito. Já comprei até o meu ingresso. — Falei decidida.
Karen me olhou incrédula, balançando a cabeça.
— Nossa, eu tenho certeza que, se fosse você, eu trabalharia só para ficar com você e ir ao cinema junto com você. — Disse, fazendo drama.
Respirei fundo, soltando o ar devagar.
— Ah não, amiga, sem chantagem. Eu já falei que não ia trabalhar, eu não vou e ponto final. Vamos parar por aqui antes que a gente discuta e fique pior. — Cortei logo o assunto enquanto fechava o meu caixa.
Só quem trabalha em pé nos caixas de um hipermercado sabe o quanto isso é cansativo. Não ia voltar atrás na minha decisão. Hoje era dia de curtir, comer muito e, se desse sorte, até beijar na boca. Pensei nisso rindo de canto, enquanto Karen limpava a garganta.
— O que foi agora? — Perguntei, já sabendo que vinha bronca.
— Márcia, eu te conheço como a palma da minha mão. Tu já tá é com esquema para fazer tuas doiduras. Pelo amor de Deus, se for fazer alguma loucura, use camisinha! — Ela soltou sem rodeios.
Olhei para ela, fingindo indignação.
— Até parece, né, Karen? Eu sou doida, mas nem tanto! — Mas a verdade é que ela me conhece bem demais. Sabe que adoro fazer minhas loucuras em lugares improváveis. Se tiver que rolar no cinema, vai rolar. Deus fez foi para dar mesmo, que se fosse para ficar guardado, Ele não colocava esse fogo todo na gente.
Fingi ignorar os olhares de Karen enquanto terminava de ajeitar as coisas. Como eu sabia que ela ia ter que limpar uma prateleira depois que os caixas fechassem, adiantei o serviço para ela. Enquanto isso, perdi-me nos meus pensamentos. Já que vou estar sozinha hoje, vou extravasar.
Deixa eu me apresentar direito para vocês. Meu nome é Márcia Ariol. E sim, Ariol é loira ao contrário. Eu sempre uso isso para me apresentar. Tenho 25 anos, 1,60m de altura, loira de cabelos um pouco acima da bundä, olhos castanhos, nariz afilado e boquinha desenhada, quase em formato de coração. Minha pele é branquinha, carinha de bebê, mas a aura é de diabinhä. Quem me vê, acha que tenho no máximo 18 anos. Já fui barrada em vários lugares por isso. Dimas, um dos seguranças do shopping, sempre me chama de "neném" e falta me comer com os olhos. O dia que eu mostrar para ele o que essa "neném" sabe fazer, ele nunca mais me chama assim.
— Tchau, Márcia, vai com Deus. E obrigada, viu? — Karen falou com ironia.
Eu mostrei o dedo do meio para ela e saí rindo. O cinema que me aguarde!
Saí do hipermercado sentindo aquele ar fresco da noite, finalmente livre. Caminhei até minha moto, coloquei o capacete e ajeitei a bolsa nas costas. Com um giro na chave, liguei o motor e parti direto para casa, rasgando uns 3 km de asfalto. A sensação do vento batendo no meu rosto era libertadora.
Assim que cheguei, vi meu irmão, Maurício, encostado no portão. Ele abriu para mim, e eu já agradeci, mas ele me olhou com aquela cara que eu conhecia muito bem. Sem vergonha, esticou a mão.
— Dez conto. — Disse, direto ao ponto.
Revirei os olhos, tirei o capacete e pendurei no guidão. Abri a carteira, peguei uma nota de dez e entreguei para ele.
— Agora faz por merecer, guarda o capacete dentro da moto. — Falei, jogando o capacete para ele.
Entrei em casa e já fui recebida pela minha mãe, que me olhou de cara feia.
— Você deu dinheiro para o Maurício de novo? — Reclamou, cruzando os braços.
— Mãe, deixa ele. Sempre me ajuda quando preciso, então não é sacrifício nenhum dar dez reais para ele. — Respondi, dando de ombros.
Ela balançou a cabeça, negandö.
— Você ainda vai estragar esse menino...
Fui até a cozinha enquanto ela perguntava sobre meu dia. Conversamos um pouco. Sempre fui muito amiga da minha mãe, então adorava esses momentos. Ela logo perguntou se eu ia para o shopping, porque sabia que toda quinta-feira era sagrado para mim ir ao cinema.
— Vou sim. — Respondi, pegando um copo no armário.
— E a Karen? — Perguntou.
— Decidiu trabalhar para fazer média para o Seu Rômulo. — Falei, revirando os olhos.
Ela arregalou os olhos.
— Não acredito que a Karen vai puxar saco daquele carrancudo! Ele nunca pensa em vocês! — Disse, indignada.
Ri da reação dela enquanto pegava um suco na geladeira. A jarra estava cheia e brilhando vermelha, já sabia que era suco de acerola. Enchi um copo de 400 ml, dei um beijo na minha mãe e saí da cozinha, levando um tapa na b***a de leve.
Subi para o quarto com o copo na mão, tomei um gole generoso e coloquei o suco sobre a escrivaninha. Comecei a tirar a roupa, colocando o celular e a chave da moto de lado. Peguei minhas roupas e joguei no cesto, ficando apenas de calcinha.
Meu celular vibrou. Peguei para ver e sorri ao olhar a tela.
Era o Dimas.
Mensagem.
Dimas: Cadê a loira mais sapeca do Rio de Janeiro?
Balancei a cabeça, negando, e comecei a digitar.
Márcia: A loira sapeca mais linda do Rio de Janeiro acabou de chegar em casa… vai tomar um banho e já já tô por aí, dando um show como sempre.
Nem perguntei se ele estava trabalhando hoje, já fui soltando que estava por lá, na malícia.
Dimas: Ah, então a gente se esbarra hoje... Eu também tô de plantão.
Aproveitei, passei em frente ao espelho e, com um sorriso safado, virei a câmera na direção dele, capturando o reflexo. Tirei a foto e mandei sem pensar.
Dimas: Putä que pariu, se pegar uma foto dessas no meu telefone, vou responder pro pedófilo.
Ri sozinha, me divertindo com a reação dele. Coloquei o telefone na cômoda e entrei para o banheiro, pronta para o meu banho, com um sorriso malicioso no rosto......