Capítulo 8 — Apostador de Olhares

1632 Words
Lucas A pista tem seus próprios astros. Alguns brilham por barulho; outros, por ausência de esforço. Ela pertence ao segundo tipo. Dança que morde, olhar que desafia. Não é uma coreografia para plateia — é uma conversa com o som, íntima e perigosa, que eu estou tentando decifrar à distância como quem lê lábios no meio de um furacão. — Vai com calma — o Rafa encosta no meu ouvido, suando respeito. — A laje não é shopping. Aqui, olhar compromete. — E eu só queria uma amostra grátis — respondo, meio rindo, meio admitindo que o coração já perdeu a linha de crédito. A batida vira, Caio costura um recorte vocal que arrepia nuca, e a morena de máscara gira como se tivesse eixo próprio. O coque alto expõe a nuca de um jeito que parece senha. Eu me pego pensando que desejo, em mim, sempre foi esporte: medir distância, avaliar vento, correr com o corpo leve. Hoje é campeonato. Desço do camarote pelo lado direito, seguindo a mureta, sem empurrar ninguém. Um menino pede isqueiro; eu acendo. Uma garota derruba um gole no meu tênis; eu sorrio e digo que tá “em casa”. Tudo sem pressa — quem tem pressa denuncia a própria intenção. Aproximo pelo corredor lateral do palco, aquele espaço que os seguranças guardam como fileira de escudo romano. Nego Célio já me viu. Ele me vê antes de qualquer pessoa pensar em me ver. Chego num passo e meio da fita que separa o público do backstage quando ele ergue dois dedos, sinal discreto e definitivo. — Boa noite, parceiro — digo, educado. — Tô procurando um ângulo melhor pra ouvir o set. — Ângulo bom é aquele ali — ele aponta sem olhar, só com o queixo, para um recuo perto do bar onde a visibilidade é do tamanho do respeito. — Lateral do palco hoje é de quem trabalha. Regra de casa. — Eu entendo. — Levanto as mãos num gesto de quem não veio romper, veio aprender. — Prometo não dar trabalho. Só queria chegar perto do som. — Som chega em você, se for pra chegar — Célio afirma, sem grosseria. — E se você tiver que chegar em alguém, chega com a palavra certa. Palavra errada acende luz que a gente prefere deixar apagada. Sorrio de lado. O morro tem gramática. Ele está me dando uma aula, sem humilhar. — Então me considera alfabetizado — brinco, recuando um passo. — Vou ali no bar praticar caligrafia. Ele esboça um meio sorriso, mínimo, que eu tomo como diploma. Recuando sem perder a piada, eu contorno pela lateral, passando atrás de dois caras que discutem qual passinho é “raiz” e qual é “t****k”. Corredor do bar: cheiro de gelo molhado, cerveja que espirrou, uma lâmpada fria tremendo na vibração do grave. O bartender que me atendeu no camarote dá um aceno de reconhecimento. — Perdeu alguma coisa? — ele pergunta. — Encontrei e tô tentando não derrubar — respondo, encostando de leve no balcão. — Duas águas, por favor. E uma informação: aquela rodinha perto da caixa preta… abre muito? — Abre quando a música chama. Fecha quando a vida pede. — Ele põe as garrafinhas. — Não corre atrás de maré com bolso cheio. Tu tá certo de tênis, errado de espírito. — Errado de espírito eu nasci — digo, rindo do exagero que me protege. — Hoje tô tentando merecer o convite. Ele me observa um segundo e decide apostar um conselho. — Se é ela que tu tá mirando, vai sem mira. Olha e sai. Quem volta por escolha é melhor do que quem chega pela metade. — Anotado. Bebo um gole. O corpo aprende caminhos: a escada por onde desci, a saída por trás do bar, a sombra onde dá para ver sem ser visto. A morena continua num fluxo que parece desenhado com régua e pulso. Cada gesto é leve, mas carregado de intenção. É um controle que não quer ser exibido; quer ser vivo. Isso me acende. A vida me atrai quando ela não precisa provar nada. Sigo o plano B: descer em ritmo de pista, pela lateral, até a meia-lua onde o chão se abre e a dança faz clareira. Nada de esbarrar, nada de insistência. Duas músicas de observação — promessa que fiz para o Rafa e comigo. Primeiras promessas: não atropelar, não me esquecer de onde estou, não virar protagonista do baile dos outros. — E aí? — Rafa surge do nada, a mão no meu ombro, radar de amigo. — Teu olhar tá fazendo curva. — O som tá me ensinando trigonometria — respondo. — E alguém acabou de me mostrar a hipotenusa do meu juízo. — Poeta do Leblon — ele ri. — Só me promete uma coisa: não corta o caminho. Se for pra falar, fala onde a luz é igual pra todo mundo. — Prometo. Ele volta pro camarote; eu fico na borda. Caio baixa o grave num fio de voz, segura a respiração da laje e devolve com uma virada que faz as mãos subirem sem combinar. O suor aponta nos braços, a camisa cola entre as escápulas, e eu me percebo sorrindo com o estômago. É agora. Entro dois passos. Ela está a quatro metros, máscara de renda, batom escuro, cabelo preso. Não olho fixo — olhar, aqui, tem preço. Chego pelo ângulo: deixo que o corpo diga “tô aqui” sem dizer “sou teu”. Sedução é gramática de silêncio. No exato momento em que sinto que a maré aceita minha presença, uma linha de seguranças pede passagem por trás para alguém subir. Eu paro. Não se atravessa cortejo. Ela sente o corte, vira o rosto — por um segundo, nossos olhos se encontram através da renda. Não é choque de faísca. É reconhecimento. Como se a gente já tivesse ouvido a mesma música em dia diferente e estivesse confirmando isso agora. Minha vontade natural é sorrir com todos os dentes. Escolho o canto da boca. Aqui, a alegria precisa ter freio ABS. Um cara tromba no meu ombro, pede desculpa, levanta a mão aberta num pedido de paz. Eu respondo com a mesma mão, teto de igreja: tá tudo certo. Quando volto os olhos para ela… o espaço mudou. A rodinha fechou, o grupo trocou de posição, a luz varreu a fumaça para outro lado. Ela sumiu. Meu coração faz o que o som vinha tentando fazer: acelera sem pedir licença. Não é pânico — é caça. Eu rio de mim, por dentro: o apostador de olhares acabou de perder de vista sua aposta. E agora? — Respira — digo, em voz baixa, como quem dá instrução a um aluno difícil. — Mapa. Onde ela podia ir? Corredor do bar: nada. Lateral esquerda: um grupo tira foto, flash proibido; um segurança chega e pede para guardar o celular. Centro da pista: impossível atravessar sem virar manchete. Camarote: a luz reflete, não revela. Escada: sobe e desce constante, mas ninguém com máscara nesse minuto. Penso rápido. Tainá — eu a vi antes com ela, rindo. Amiga puxa amiga para outra lateral quando roda abre demais. Eu arrisco o mezzanino improvisado atrás do bar, dois degraus que não são palco e dão visão de diagonal. Subo com humildade, um passo, dois. Caio muda a sequência, uma sirene de sintetizador faz a pista gritar. Aproveito o coro para varrer com o olhar: cadeiras de plástico, freezer, bandeiras, um casal discutindo baixinho, um menino com a camisa do Flamengo dançando com a tia. Ela, não. — Procurando o quê? — o bartender comenta, sem deboche. — Uma música que parou no meio — respondo, e percebo que falei a verdade. — A música não para. — Ele aponta para o lado oposto, a Viela da Pipa Azul. — Às vezes ela muda de cômodo. Agradeço com a cabeça e desço. Na viela, o som bate diferente — eco curto, parede úmida, gente respirando junto em corredor estreito. Cheiro de fritura, de perfume doce, de concreto quente. Eu passo como quem não tem pressa e não tem direito de ter. Duas meninas dividem um espelho minúsculo; um cara vende água com gelo que parece diamante falso; uma senhora, sentada, balança o pé no tempo, vigia a neta com um olho e a vida com o outro. Nada. Volto. O peito pede mais oxigênio do que o ar oferece; eu dou risada, outra vez, dessa necessidade de achar alguém que eu só vi por trinta segundos. “Não se apegar” sempre funcionou; hoje, o manual falhou. Reapareço na borda da pista e encontro o Rafa. — E aí? — Perdi. — Bem-vindo ao jogo — ele responde, sem piedade, mas com afeto. — Agora você aprende a procurar sem parecer polícia. — Eu não quero parecer nada. Só quero ver de novo. Ele aponta com o queixo a rua de serviço que contorna a laje. — Dá a volta por fora. Às vezes a pessoa só foi respirar. — Às vezes a pessoa foi embora — eu digo. — E, se foi, deixa um rastro nos teus olhos. Segue ele. Continuo. O corredor externo tem cheiro de fumaça e óleo. Uma porta entreaberta revela os bastidores do baile: cabos, caixas, a equipe trabalhando. Passo direto. Tento ver a pista por entre as frestas da lona. Nada. Volto ao camarote, subo os dois degraus e me permito observar a multidão mais uma vez. Caio faz um break e chama o público com a mão. Inspiro fundo, prendo o ar e solto. Ela não está ao alcance dos meus olhos. O sorriso, teimoso, surge. Um apostador de olhares não abandona a mesa. Quando procuro de novo, ela sumiu — e agora preciso encontrá-la.
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