Capítulo 10 — Faísca na Laje

1580 Words
Lucas Subo um nível do camarote como quem escala um mirante secreto. O corrimão treme no compasso do grave, a madeira reclama sob os tênis, e quando eu ganho altura a pista vira mar—vagas humanas que se abrem e fecham, rebrilhos de suor e luz, gargalhadas que vêm como espuma. Caio puxa uma virada limpa, a voz recortada de uma cantora antiga desce sobre o funk como benção e provocação. Mãos sobem. O morro vibra inteiro. — Aí, Andrade, de cima dá pra ver a maré — Rafa surge ao meu lado, o cabelo molhado de noite, o sorriso de irmão que fiscaliza o meu juízo. — Maré tá puxando — respondo, com a certeza feliz de quem vai pular mesmo. O bartender encosta um copo de plástico entre nós. — Água. De graça, porque a altitude engana. — Considero milagre — digo, bebendo como se a garganta precisasse aprender outro idioma. O set explode num drop pesado. A luz rabisca a fumaça em linhas diagonais. Passinhos abrem rodas, a laje parece crescer, a cidade inteira cabe aqui como se o resto fosse cenário. Sinto o peito alargar. O coração, obediente ao som, acelera sem medo. E então ela aparece de novo. Máscara de renda, batom escuro, cabelo preso. A pele arrepia quando a luz toca—não é metáfora; eu vejo. Ela surge um pouco à esquerda de onde eu a tinha perdido, agora acompanhada da amiga que eu já identifiquei como âncora. Não precisa de muito: dois passos dela e o mundo se reorganiza ao redor, como se as coisas tivessem estado fora do lugar e tivessem ficado esperando por esse encaixe. Eu paro. O barulho diminui para caber dentro do meu crânio. Consigo ouvir a minha própria respiração por cima do grave, e juro que consigo ouvir a dela. O corpo lê antes da cabeça: é ela. A mesma curva de ombro, a mesma negativa de cabelo, a mesma certeza de que cada gesto é orgânico, não ensaiado. — É ali — Rafa constata, como se narrasse um jogo que eu finjo que não estou jogando. — É ali — repito. Desço dois degraus, sem pressa e sem bobo-alegria. A laje está viva—todo passo é diálogo. O n**o Célio aparece pela lateral, cortando um proto-empurra-empurra com duas palavras e a mão aberta: “Calma, família”. Ninguém quer briga; todo mundo quer noite. Aproximo pelo lado do bar. Se eu tivesse que explicar a sensação, diria que uma linha invisível me puxa pelo peito. Não é posse; é curiosidade que respeita. Minha cabeça levanta as placas de “sem pressa”, “sem cena”, “sem sermão”. Meu corpo, obediente, ajusta a velocidade. Ela dança pequeno, naquele momento: menos giro, mais balanço; menos declaração, mais respiração. A amiga encosta a testa na dela e diz algo que eu não ouço; as duas riem, e o riso é de quem se reconhece. Eu entendo que não sou convidado daquela conversa. Quero ser, mas não agora. Caio corta o som num suspiro e devolve com um mashup que arranca gritos. O camarote vibra, gente esbarra nas minhas costas, eu abro espaço com a palma para não esmagar ninguém. A morena volta os olhos—em mim. Olhos travados. A máscara esconde a metade, mas a metade que eu vejo diz: “eu te vejo”. E a parte que eu não vejo completa: “eu não preciso te ver mais do que isso”. O mundo some um instante. O barulho corre pelas beiradas e me deixa no vazio macio entre dois batimentos. Eu dou um passo. — Vai suave — Rafa sussurra, sem tirar a mão do meu ombro. Eu vou. E ela recua, sorrindo de canto. Não é fuga. É jogo de luz. O sorriso diz: “eu escolho o ritmo”. O recuo diz: “você me alcança se me entender”. Se eu chegasse mais um passo, eu cortaria a conversa dela com o mundo. Eu não corto conversa de ninguém com o mundo—nem a minha. — Boa noite — digo, num volume que a música autoriza. Minha voz sai firme e baixa, como aprendi aqui. Ela inclina a cabeça um milímetro. Pode ser “boa noite”, pode ser “vi você”, pode ser “continue onde está”. Eu leio “continue onde está”. No exato segundo, a laje treme diferente: não é briga, é corpo demais no mesmo quadrado. Um copo cai, estilhaça num plástico que não devia estilhaçar; uma bandeira desce demais; duas pessoas atropelam a própria pressa. n**o Célio brota do nada, rádio no ombro, e faz o milagre profissional de abrir corredor onde não tinha. — Abre a lateral, respeita a mãe, ninguém pisa em ninguém — ele dita, e as coisas obedecem. Eu encosto meio passo para dar passagem. Ela encosta meio passo para não me perder. A gente não se encosta. O grave reencaixa. O som sobe. Ela volta à dança com aquela precisão que me prende. A amiga fala algo no ouvido dela; a morena ri de novo, menos, como quem aceita o limite e o transforma em estilo. E eu entendo: sedução aqui não é empurrar porta, é aprender a batida da tranca. — Seu nome tem cara de segredo — digo, só para mim. Ninguém ouve, e tudo bem. Eu guardo promessas em voz baixa. O bartender encosta ao meu lado com outra água. — Hidrata o foco, surfista. — Você é parte da produção ou psicólogo voluntário? — pergunto, recebendo o copo. — Barman que vê — ele responde. — Quando os olhos ficam desse jeito, a garganta seca. — Desse jeito como? — Como quando o cara encontra uma música e esquece que vinha só pelo set. Dou um gole e assumo: eu vim pelo set e fiquei por uma pessoa que talvez nem exista fora dessa noite—máscara, batom, pele arrepiada. Eu não sou romântico; sou viciado em instante. Mas tem instantes que conspiram para virar nome. — Andrade — Rafa chama, apontando discretamente com o queixo. — Ela vai rodar pro lado da Viela da Pipa Azul. Se quiser dizer alguma coisa, diz ali, onde o som deixa a palavra passar sem virar cena. Olho, confirmo: a amiga dela faz sinal, as duas se mexem com treinamento de sobrevivente. Entendo a coreografia: diagonal, bar, respiro, volta. Decido seguir em paralelo, sem romper a linha de respeito. Aprendi a surfar; não corto onda. Descemos quase juntos, separados por três pessoas e um convite que não existe. No corredor, a lâmpada fria vibra, o gelo no balcão virou vidro derretido, o ar cheira a óleo e perfume. Ela passa perto o suficiente para que o meu corpo lembre do choque que eu não vivi—outro cara viveu, eu só herdei a memória pelo instinto. Não encosto. Digo ao bartender com um olhar: tudo certo. Na viela, o som se comporta, o eco é curto, e dá para falar sem gritar. Eu poderia dizer qualquer coisa: “você dança bonito”, “qual o teu nome”, “posso te pagar uma água”. Poderia usar o meu arsenal de leveza bem calibrada. Não uso. Escolho o silêncio que respeita. Ela me olha de novo—curiosa, não rendida—e então a amiga faz o gesto de “voltar”. A morena assente. A meia-lua de duas. — Até já — arrisco, baixo, sem autorizar destino. Ela sorri, de novo de canto. O tipo de sorriso que não promete e ainda assim promete. E volta. Eu fico um segundo preso ao rastro—perfume limpo, pele quente, algo que eu vou chamar de coragem. Posso estar inventando. Prefiro pensar que não. Subo outra vez o camarote, o coração perigosamente feliz. Caio me vê de relance e entende o que DJ que ama gente entende: ele joga uma sequência mais redonda, abre espaço para quem quer falar com o corpo sem ser atropelado pelo grave. A pista agradece. Eu agradeço. — Vai atrás? — Rafa pergunta, já sabendo metade das respostas. — Vou descobrir o nome dela — digo, e a frase sai como voto. — “Vou descobrir o nome dela.” — Então aprende o lugar antes — ele devolve. — O nome certo às vezes é a última coisa que a gente ganha. Assinto. Mapa na cabeça: saídas, sombras, sorrisos. Regras coladas na língua: respeito, olhar curto, passo certo. Eu não tenho pressa. Eu tenho um alvo que eu não quero transformar em troféu—quero transformar em história. No alto, fogos miúdos rabiscam o céu por três segundos. Não sei se é celebração de outra laje, se é coincidência, se é o destino fazendo graça. Sinto que a cidade piscou pra mim. Ela reaparece lá embaixo, dois quadrados além, máscara firme, batom intacto, a mão da amiga no cotovelo como agreste. Olhos outra vez—travados. Eu sorrio com o canto. Ela recua, com o canto. Tudo na medida. — Vou descobrir o nome dela, Rafa — repito, mais baixo, só para mim. Promessa feita. Desço um degrau, apenas um, como quem avança um centímetro no tabuleiro. O som abraça, a laje vibra, a noite acena. Eu não faço ideia—nenhuma—de que acabei de me encantar pela filha de Sombra, dono do morro onde eu escolhi me perder.
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