Capítulo 16 — Aposta Cega

1535 Words
Lucas O dia inteiro foi um diálogo entre eu e o teto. O teto foi melhor: ouviu sem dar opinião. No fim da tarde, mandei mensagem para o Rafa: “hoje eu vou.” Ele respondeu com o clássico que já virou lei municipal: — Curiosidade vira alvo, Andrade. Vai com isso escrito na testa e a noite lê. — A noite pode ler — devolvi. — Eu leio de volta. — Lê baixo. Fechei o celular. Sarcasmo é colete fraco, mas é o que tenho quando o coração quer correr na contramão da prudência. A morena de máscara continua ocupando a parte do meu cérebro que eu usava para lembrar o CPF. Não é saudável. Também não é negociável. *** No acesso da laje, a cidade faz a coreografia de sempre: cheiro de óleo, calor de concreto, risadas que se esgueiram entre som e polícia. n**o Célio está plantado no começo da escada, rádio no ombro, antena humana para variação de humor. — Boa noite — digo. — Respeito no bolso. Ele mede meu rosto como quem confere CPF de longe. — Boa noite. — Sem sorriso, sem carranca. — Mapa do lugar na cabeça? — Em dia. — Então não inventa novo. — Hoje é dia de não inventar. — O sarcasmo escapou por hábito. Ele fingiu não notar. Subo um lance e paro no bar. O bartender já me reconhece pelo pedido inútil de sempre. — Água? — Duas — respondo. — E um recado. Neutro. Ele ergue a sobrancelha, curioso, mas sem postura de carteiro metido. — Fala. — Se um dia aparecer uma menina que se apresente como Dora, ou se alguém pedir algo em nome de Dora… você me faz um favor e entrega isso: “Água sempre primeiro.” — Coloquei no balcão um cartãozinho com a frase escrita e um desenho r**m de gota. — Sem nome, sem telefone, sem pressão. Se ninguém vier, vira lembrança. Ele virou o cartão entre os dedos como quem verifica falsificação. — E se vier alguém dizendo que é “Dora” só para tirar onda? — Você decide. Você conhece mais gente que eu aqui. Se não tiver certeza, não entrega. O recado é para cuidar, não para forçar. O homem assentiu, guardou o cartão numa latinha de fósforo vazia. — Respeito chama respeito. Eu entrego se for para ela. Se não, morre aqui. — Combinado. Rafa chegou com duas garrafas d’água e duas sobrancelhas levantadas. — Então a tua versão de “forçar a barra” é “hidratar a barra”. — Minha versão de “não ser i****a” é “evitar que desmaiem por minha causa”. — Mantém assim. — Ele me deu uma das garrafas. — Lembra do que eu disse: curiosidade vira alvo. — E respeito vira senha — completei. Caio apareceu por trás do palco, fone num ouvido, sorriso de quem mora dentro da batida. — Andrade, hoje eu prometo o recorte. — Falou baixo, olhando para o público. — Quando eu soltar “Dora respira”, você não faz nada. Nem meia cena. É só um “tá tudo bem” na língua do som. — Recado para quem entende. — Exato. — Ele pisca. — E com sorte, ninguém mais entende. — Você gosta dessas suas missões de cupido sem flecha, né? — soltei, ágil. — Eu gosto é de laudani — ele riu. — Cupido paga m*l. Nego Célio passou atrás de nós e jogou o contrapeso: — Código é bom quando não vira bandeira. Solta baixo. — Tá na mão — Caio respondeu, já desaparecendo em direção às pick-ups. Fiquei no camarote com o Rafa. A laje respirava como gente. Um menino testava um passinho novo no canto. Duas mulheres negociavam rímel como se vendessem ouro. Atenções penduradas em mim? Menos que na outra noite, mas presentes. Um cara de boné me estudou 90% do tempo que levou para terminar um copo. Nem hostil, nem amigo. Só caderno aberto. — Sente? — Rafa perguntou. — Sinto. — Dei de ombros. — Não é cerco. É curiosidade com manual. Dá para conviver. — Dá, desde que você não vire notícia. — Hoje eu sou rodapé. A primeira sequência entrou robusta, Caio regulando grave para dar espaço à voz. Eu gosto quando a música me empurra para dentro do próprio corpo. A cada virada, a memória da máscara de renda pisca no canto do olho. Eu tento rir de mim. — Se fosse filme, ela subiria a escada agora — comentei. — Se fosse vida, você trabalharia no posto de saúde e ela dormiria — Rafa devolveu. — Menos roteiro, mais conduta. — Alerta de amigo: ativado. No meio da terceira música, a câmera do meu corpo captou movimento errado perto do paredão: dois curiosos forçando passagem por trás do palco, um tropeço no cabo, o risco de derrubar meio som. n**o Célio materializou-se como feitiço. — Família, por aqui não. — O tom não subiu. A autoridade, sim. — Quem quer som ajuda o som a ficar de pé. Os dois recuaram, ele recolocou o cabo com dois dedos, e a vida seguiu. Ação de morro é isso: resolver antes do grito, sem virar filme. Eu respirei aliviado. Alívio também vira alvo, às vezes. Controlei. — Tá na hora — Rafa avisou, vendo Caio erguer a mão. A música baixou um filete. A voz antiga entrou como reza. E no vazio entre um grave e outro, Caio falou no microfone, sem pose: — Dora respira. Quem não sabe ouviu poesia jogada. Quem sabe entendeu. Eu não mexi um músculo. O bartender cortou os olhos na minha direção e assentiu: mensagem entregue ao universo certo. A laje voltou a cantar como se não houvesse nenhuma semântica extra escondida ali. Eu me vi sorrindo baixo. — É disso que eu falo — Rafa disse. — Modo sussurro. — Modo sussurro — repeti, a mão coçando para não virar i****a. A segunda sequência veio como vento que dobra camiseta. No canto esquerdo, o mesmo menino da outra noite, Sandália Flamengo, desta vez um passo atrás da fita. Aprendeu. A mãe também. Pequenas vitórias me alimentam mais que garrafa cara. Fiquei na minha. Hora de provar que eu sabia esperar. O plano inteiro cabia numa linha: não forçar. O peito, entretanto, trabalha com outro software. De tempos em tempos, eu varria o perímetro como quem procura rosto conhecido numa foto antiga. Nada de máscara. Nada de renda. Tudo bem. — Se ela estiver aqui, ela ouviu — Rafa murmurou. — Se ela não estiver, a mensagem virou vento — respondi. — E vento muda maré. — Poeta do Leblon em noite de humildade. Tô orgulhoso. — Não se acostuma. Caio brincou de baixar o BPM. O bar ganhou espaço de conversa. Fui até lá agradecer ao bartender por ter entendido minha paranoia de coração mole. — Recado guardado — ele disse, tocando a latinha. — E tem outra coisa. Um motoqueiro passou na viela, farol apagado. Olhou duas vezes, viu que aqui não tem tela, sumiu. — Mensagem? — Leitura. — Ele falou como quem corta pão. — Te vejo é o bom-dia do inferno. Aprende a não dar bom-dia de volta. — Tô aprendendo a acenar com a cabeça e continuar andando. — Perfeito. De volta ao camarote, n**o Célio encostou o cotovelo no corrimão perto de mim. — Lucas, né? — Andrade para o cadastro, Lucas para quem já me tolera. — Tá bom, Lucas. — Ele manteve os olhos na pista. — Aposta cega aqui é comum. A diferença é como o apostador perde quando perde. — E quando ganha? — Quando ganha, paga. Com conduta. — Eu trouxe água. — É um começo melhor que fogo de artifício. Ele se mexeu dois centímetros e já estava em outro lugar, corrigindo outra microcatástrofe. Fiquei pensando na frase: a diferença é como se perde. Eu posso perder o nome dela. Posso perder o direito de olhar de volta. Posso perder a vontade se ela decidir que não. O que eu não posso perder é a maneira. Caio soltou outro recorte ao fim da música: — Respira. — Só isso. A laje obedeceu como se tivesse nascido para isso. Eu também. O corpo voltou para o eixo; o coração enfileirou as prioridades. Respeito primeiro. Depois a vontade. Se sobrar, o nome. — E aí? — Rafa cutucou. — Hoje eu não caço. Hoje eu aprendo. — Amanhã você continua. — Amanhã eu volto. Descemos na calmaria do final da noite, quando a cidade insiste em parecer que o dia está apenas começando. No beco, a moto que o bartender mencionou ligou e desligou duas vezes – um teste de paciência. Ignorei. Nenhum sinal. Sem pânico. No carro, deixei a cabeça cair contra o banco e soltei um riso seco. — Priorize a sobriedade, Dora — murmurei, como um brinde silencioso. — E se eu for bancar o i****a, que seja, pelo menos, sóbrio. A noite piscava com as luzes das janelas do morro. A sorte estava lançada. Eu estava pronto para aceitar a derrota se fosse preciso. E se um dia vencer, que seja por ter decifrado o jogo.
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