Capítulo 2 – Lembranças

2072 Words
Segunda-feira, 31 de agosto de 2020, 19h45min. Recebi uma ligação de Alex quando estava pronta para ir à sua casa. Havia amarrado meu cabelo pela metade, coloquei um vestido solto rosa claro e uma jaqueta jeans. Ainda não havia colocado as botas de cor bege que havia preparado. O estranho era que Alex nunca me ligava, a não ser que fosse para marcar algo, e já que ele já havia marcado, provavelmente estava ligando porque teve um imprevisto. - Fala. - atendi o telefone, já esperando as notícias. - Vamos ter que remarcar. - eu não falei? Bingo - Charlie está com o carro atolado em Phoenix, eu e Bryan temos que ir ajudá-lo. - Nem esquenta com isso. Vai ajudar o burro do Charlie. - eu brinquei, fazendo ele sorrir pelo telefone. - Não vai ficar brava? - ele perguntou e foi minha vez de rir. - Claro que não, Alex. Pode ir tranquilo. Tchau. - eu me despedi, desligando o telefone. Olhei em volta em meu quarto, não havia nada para fazer e eu não estava no clima de assistir série. Peguei meu celular e mandei mensagem para Penny, perguntando se ela sabia de algo para hoje e enquanto ela não me respondia, calcei minhas botas, desci as escadas e fui para o carro. Dirigi pelas ruas de Hartfeld em direção ao restaurante de meu tio no centro da cidade e, chegando lá, descobri que o lugar estava calmo. Não parado, calmo. Isso era bom. Entrei, cumprimentei os atendentes que me conheciam e fui me sentar em uma mesa. Meu tio Harkes servia comida britânica em seu restaurante, já que a família Hale veio da Inglaterra, apesar de que meus tios, eu, meu irmão e minhas primas tínhamos fortes traços dos espanhóis, como minha avó, os Lopez. Sentei em uma mesa para dois e esperando alguém me atender. - Boa noite, senhorita. Gostaria de dar uma olhada em nosso cardápio? - uma moça loira e de cerca 40 anos me atendeu. Ela tinha um sorriso simpático e um olhar gentil. Eu lhe devolvi o sorriso, já sabendo o que queria. - Não é necessário, eu sei o que quero. - eu falei e ela pegou seu caderninho para anotar - Uma Steak and Ale Pie. Era uma torta britânica com carne e a massa era feita com cerveja também. Eu comia essa torta com minha mãe, antes dela morrer. Todas as segundas-feiras ela me trazia no restaurante de meu tio e nós dividíamos uma torta daquelas. Já fazia anos que eu não comia uma. Quando chegou o meu pedido, eu comi devagar, saboreando aquela maravilha. - A torta está de seu agrado, senhorita? - a garçonete loira apareceu, quase me dando um susto - Se tiver algo de errado, me avise. Percebi que ela só havia dito aquilo porque eu estava comendo devagar demais. - Ah, não, tá tudo perfeito! É só que... Essa torta me deixa muito nostálgica. Eu comia ela com a minha mãe. - contei, olhando em seus olhos azuis que gritavam espanto. - Sente saudades de sua mãe, querida? - ela colocou os braços para trás e me perguntou. O curioso era que o olhar dela não era de pena, como o dos outros. - Bastante. - eu sorri. - Eu também perdi minha mãe, logo depois de ter meu filho, Max. - ela contou e eu ergui as sobrancelhas - Ela era... Única. Sempre foi muito severa, meio insensível. Mas era a minha mãe, sempre vou sentir saudades dela. Eu sorri e ela se retirou. Terminei de comer e fiquei esperando meu tio para falar com ele. Estava concentrada demais em meu celular que quase não reparei no garoto loiro que sentou na minha frente com um laptop. - Oi. - ele falou. Não me era estranho, com certeza eu o conhecia. Tinha cabelos dourados e olhos castanhos claros. - Max Lavender? - eu perguntei e ele assentiu com um sorriso no rosto - Uau, faz muito tempo que a gente não se vê. Você parece bem! - Tô fazendo faculdade de astronomia, é tudo que eu sempre quis, então estou ótimo. - ele contou, sorrindo e eu ergui as sobrancelhas. - É legal estudar astronomia? - eu perguntei, curiosa. - Muito! Eu tô aprendendo tanta coisa. - ele explicou, fechando seu laptop - Mas me conta, como foi o primeiro dia de aula no seu último ano? - Ah, mesma baboseira de sempre, nada de novo, exceto pelo editor chefe do Hartfeld Black And White. - eu falei, pouco animada - Eu vi seus primos. Estão agindo mais estranhos que o normal. - Os gêmeos? É, eles estão diferentes. Umas coisas mudaram pra nós nesse verão. Fizemos uma regressão e nos lembramos de uma vida passada nossa. - ele revelou. Max sempre foi assim, aberto sobre sua vida, não costumava esconder as coisas. Nunca fomos próximos o suficiente para ele contar coisas pessoais como essa, mas mesmo assim ele confiava em mim. - Ah, é? - eu perguntei, interessada - E o que descobriram? - Há muito tempo atrás, a Dinamarca era um reino chamado Vanílis e esse reino tinha um rei. - ele explicou, baixando o tom de voz - Eu sou a reencarnação desse rei, Josephine é a rainha, Agatha era a irmã gêmea da rainha e os meninos eram nossos filhos. - Sério?! - eu exclamei, surpresa e achando um pouco de graça, mas era interessante - Que confuso. Mas e agora? Vocês se lembraram daquela vida? - Sim! Eu tenho todas as memórias do rei Maddox. - "Rei Maddox"? Ele tinha o mesmo nome que você tem? - eu comecei a achar que ele estava tirando com a minha cara. - Eu fui atrás do histórico da nossa família e descobri que somos descendentes desse família real. Nossa família veio da Dinamarca, por isso somos reencarnação deles. - ele virou o laptop para mim, me mostrando fotos antigas da família real e eles eram realmente idênticos. - Uau... Max, isso é muito legal, nossa. - eu exclamei, realmente convencida. - Eu vim aqui hoje pra buscar a minha mãe e mostrar tudo isso para ela. Quero que ela se lembre também. Quero que todos nós se lembrem. - ele parecia animado com a ideia. - Ei, amendoim, vamos indo? - meu tio parou ao meu lado com o casaco na mão. Eu estava tão envolvida na história de Max que nem tinha percebido que o restaurante havia fechado. - Ah, claro, tio Harkes. Vamos, sim. - eu me ergui pegando meu casaco e sorrindo para Max que também se ergueu - Foi bom te ver, Max. Boa sorte com... Aquilo. - Obrigado. Foi bom te ver também, Kate. Se cuide. - Max se inclinou na minha direção e me abraçou - Até mais. Eu e meu tio fomos lá para fora, acompanhados de Max e de sua mãe, Margareth. - Ah, você veio de carro! - meu tio exclamou ao ver que meu carro estava ali na frente - Bom, te vejo em casa. Eu andei até o carro e dei a partida, ouvindo meu celular receber uma mensagem. "Kyle vai dar uma festa. Vamos dar uma passada lá?" Era uma mensagem de Penny. Eu considerei, pensando que todos da escola estariam lá, inclusive Mike. Seria uma ótima chance de provocá-lo. "Não estou em casa, pode me emprestar uma roupa?" Respondi a mensagem de Penny e ela me respondeu em segundos. "Tenho o visual perfeito. Passe na minha casa em 5 minutos." Eu sorri, enviando de volta uma mensagem para confirmar. Avisei meu pai que ia chegar tarde e dirigi até a casa de Penny. Esperando do lado de fora, eu olhava os stories das pessoas na festa e parecia estar legal. Tinha muita bebida e a piscina era liberada. - Vamos logo, você se veste no carro. - Penny gritou, exageradamente animada quando me expulsou para o banco do caroneiro e me entregou uma saia jeans, um cinto preto e uma blusa preta cropped que mais parecia um top. Por último, eu calcei um salto alto preto. Chegando na casa de Kyle, Penny estacionou o carro na rua e fomos andando até a porta da frente, que estava aberta - Nossa, eu me superei nesse visual, você tá incrível! - Não é a roupa, é a modelo. - eu me gabei quando entramos na casa, atraindo vários olhares - Ah, olha, tem um barril de cerveja! - Fica aí, sendo linda que eu vou pegar para nós. - Penny falou indo pegar cerveja. Eu fiquei ali na pista, dançando e cumprimentando algumas amigas da minha turma e quase fui derrubada por alguém dançando de forma muito errada. - Ah, desculpa, Kate! - eu ouvi a voz de Ralph por cima da música. Eu sorri para ele ao ver que ele não sabia dançar de jeito nenhum. - Tudo bem. Você veio sozinho? - eu perguntei para ele. - Ah, não, eu só estou acompanhando o Hell. Kyle e Mike me matariam se me vissem aqui, então, por favor não conte. - eu revirei os olhos. - Que se danem eles, Ralph! - eu falei quando Penny chegou com nossos copos - Aqui, bebe um pouco. Eu lhe dei um pouco de cerveja e ele torceu o nariz e os lábios com o gosto, me devolvendo o meu copo. - Isso é horrível! - Você se acostuma. - eu bebi um gole enquanto Penny dançava do nosso lado - Onde está Ray? - Ele não quis vir. Disse que enquanto não o convidarem, ele não vem. - Ralph contou e eu dei de ombros. - Eles nunca vão convidá-lo se ele continuar sendo esse bobo que não liga pra nada e nem ninguém. - eu finalizei, avistando Mike na beira da piscina, me observando. Eu larguei minha bolsa com Penny e fui até o lado de fora, parando na frente de Mike, que havia saído da piscina e agora estava exibindo seu corpo absolutamente perfeito e molhado na minha cara. Por dentro eu estava louca para me jogar em cima daquele desgraçado, mas por fora, eu o olhava com um olhar penetrante e sedutor. Se alguém ali deveria se sentir irresistível, era eu. - Quem foi que te chamou? - ele perguntou, fazendo cara de bobo, tentando me seduzir. Acontece que ele estava me molhando toda com a água que respingava dele. - Eu não tenho que te dizer isso. - eu respondi com as sobrancelhas erguidas e um sorriso no canto dos lábios. Eu permiti que ele notasse que eu estava analisando seu corpo. - Gosta do que vê? - ele soprou em meu ouvido e eu sorri para ele. - Talvez. - eu confessei, intrigada. será que eu estava mesmo disposta a ficar com meu nêmesis - Mas parece que não o suficiente pra me manter interessada. Eu me virei para sair, mas senti uma mão agarrar minha barriga e me puxar para trás. Eu vi aquela cena passar lentamente enquanto caía na água praticamente no colo de Mike. Eu afundei, molhando cada centímetro do meu corpo, trazendo alguns flashes de memória. O dia do acidente sempre vai ficar gravado na minha mente. Surgi na superfície, agarrando a borda da piscina, desesperada para sair. Meus ouvidos estavam abafados pelas risadas das pessoas na piscina. - Ei. - Mike colocou a mão no meu ombro e eu me virei, dando tapas em seu peito - O que você tá fazendo? - Não toque em mim, seu i*****l! i****a, i****a, i****a! - eu gritei com ele, saindo da piscina. - Kate, espera! - ele gritou atrás de mim mas eu corri para dentro, indo pegar minhas coisas com Penny. - Kate, meu Deus, o que houve? - ela perguntou preocupada. - Eu tenho que ir embora. Consegue carona para casa? - eu perguntei e ela assentiu - Tá bom. Eu tenho que ir. A gente se fala amanhã. Eu caminhei apressada até meu carro do outro lado da rua. Chegando no automóvel, minha mão tremia tanto que eu não conseguia colocar a chave na porta para destrancá-la. - Qual é, Hale! Vai me dizer que ficou bravinha por causa da piscina? Cadê seu espirito de diversão? - eu ouvi a voz de Mike atrás de mim e foi quando eu perdi o controle. Avancei na direção dele e lhe depositei um soco em seu rosto, o fazendo cair. - Em 2011 eu e minha mãe caímos de um penhasco para um rio. Eu fiquei seriamente ferida e ela morreu, seu babaca! - eu gritei na cara dele, vendo o arrependimento - Como você acha que eu me senti quando você me jogou na água? - Kate, me desculpa, eu... - ele começou mas eu dei às costas. - Guarda pra você. Eu não quero mais ouvir sua voz. - eu entrei no carro, toda molhada e dirigi de volta para casa. Eu geralmente ficava bem ao lembrar da minha mãe, pois sempre lembrava das coisas boas que passamos juntas, mas naquela noite, ao lembrar do pior dia da nossa vida, eu deitei na minha cama e agarrei o travesseiro e chorei até dormir.
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