Segunda-feira, 7 de setembro de 2020, 6h30min.
Acordei pela manhã com o sol entrando pela janela e atingindo meu rosto. Virei de barriga para cima, na intenção de fugir da claridade, mas logo senti um peso sobre meu corpo e vi uma sombra acima do meu rosto. Com dificuldade, abri minhas pálpebras e encontrei com um belo par de olhos azuis turquesa me analisando.
Levei um susto e ele sorriu, pressionando seus lábios contra os meus, me despertando.
- Bom dia. - disse Mike.
- Mike, não me beija! - falei esfregando os olhos - Eu nem escovei os dentes ainda!
- Não importa. - ele falou brincando com meus cabelos.
Virei para o lado e olhei no celular para ver que hora era.
- Ah, meu Deus! Já é 6h! Mike você tem que ir embora. - eu me ergui, nervosa e apressada.
- Perdemos a hora? - ele se sentou na cama, olhando para o relógio de seu pulso - Droga!
Ele se ergueu, vestiu-se rapidamente enquanto eu o observava e parou na minha frente, sorrindo.
- Eu adorei a noite passada. Espero que possamos repetir. - ele segurou meu queixo, sorrindo e me dando um selinho - Tenho que ir, te vejo na aula.
- Tchau. Tenha cuidado! - ele desceu pela minha janela e cuidadosamente foi até seu carro. Eu dei risada dele e fui tomar banho.
Ao sair do banho, deixei meus cabelos pretos secarem naturalmente e, logo, eles formaram leves ondas uniformes no cumprimento todo. Fiz uma maquiagem leve e vesti uma saia jeans por cima de uma camisa de manga longa preta, da mesma cor da meia calça e do coturno que coloquei.
Passei um brinco de argola nas orelhas e fiz um coque alto, porém bagunçado. Enquanto observava minha criação na frente do meu espelho, ouvi meu celular tocar.
- Kate, você não vai acreditar. Fiquei com Charlie Sinclair. - ela falou, animada.
- Eu sei, penny, eu estava lá, lembra? Parabéns, ele é um gato. Eu também fiquei com um cara muito gato esse final de semana. - contei sorrindo.
- Humm... Safada! - ela riu - Depois me conte tudo, está bem?
- Só se você me contar também. - falei desligando o celular. Peguei minha bolsa onde guardava meus materiais e fui para a cozinha, tomar café, onde encontrava-se toda minha família.
- Bom dia, amendoim. - eu dei um beijo em meu tio Harkes que estava fazendo minhas panquecas e em seguida dei um beijo em todos, inclusive meu avô e minha avó.
- Bom dia. m*l consigo acreditar que a primeira semana do último ano já passou. Parece que vai tão rápido. - eu comentei tomando um gole do meu café.
- Espere até você ir para a faculdade. - meu pai suspirou, lendo seu jornal - Vai ter tanta coisa pra se ocupar que os quatro anos vão passar num estalar de dedos.
- Falando em faculdade, como você vai ficar quando a Kate for estudar? - meu tio Hart largou seu café e sorriu enquanto implicava com meu pai, que abaixou o jornal e o encarou, sério.
- Ele vai chorar até aqueles lindos olhinhos verdes caírem. - Harkes gesticulou com a espátula - Kate é, afinal, a caçula da família.
- Vocês dois não tem mais o que fazer, não? - meu pai respondeu com uma provocação - Assim que ela terminar a escola Kate vai parar de crescer e eu vou trancá-la no quarto dela para sempre.
Ele falou brincando e eu comecei a rir igual uma louca.
- Qual é, papai, nós dois sabemos que nem você consegue me segurar por muito tempo. - me ergui dando um beijo nele e pegando minha mochila - Tenha um bom dia, amo você.
Peguei as chaves do meu carro e dirigi até à escola. O Hartfeld High School já estava cheio de alunos que não queriam ir para a aula na segunda de manhã, mas que precisavam ir pois senão, repetiriam de ano.
Conforme eu andava para dentro da escola, menos as pessoas que antes me olhavam, continuavam a fazer. Entrei no prédio da escola e fui para o andar que continha o meu armário.
Coloquei a senha e o abri, pegando meu livro de inglês. Ao fechar, levei um susto ao me deparar com Penny, me olhando e sorrindo.
- Oi, Penny! - falei sorrindo para ela - Então? Me conte sobre o Charlie.
- Ah, quase esqueci! - ele deu um tapinha na testa e riu - Ele foi um verdadeiro cavalheiro, ao mesmo tempo que foi um safado canalha, eu o odeio por ser tão bom de cama. Ele tem 24 anos estuda na universidade que a sua prima Anya estuda.
- Sabe, até o fim do fundamental, lá quando eu não andava com você e Hayley e, sim, com Eve, meu irmão e Anya saíam bastante com Charlie. Ele sempre foi muito presente na minha infância. - eu comentei, me encostando em meu armário enquanto cutucava uma cutícula com a unha - Eles eram uma turma unida.
- Charlie, Anya, seu irmão e quem mais mesmo? - ela indagou e eu sorri ao lembrar de Alex.
- Bryan Whitemore, Alex Summers e Gwen McLean. - eu mordi o lábio e cruzei os braços - Pobre Gwen, sempre esteve afim de Alex, mas ele nunca teve olhos para ela.
- Ele era um gato na nossa época. Uma pena que eu era muito nova na época. - Penny lamentou e eu permaneci em silêncio, lembrando que eu e Alex estamos dormindo juntos há 4 anos.
- Sorriam! - eu ouvi a voz de Mitchell meio segundo antes de quase ser cegada pelo flash de uma câmera.
- Mitchell, a próxima vez que você me aparecer com essa câmera eu vou enfiá-la onde o sol não brilha! - eu o empurrei de leve e ele nem saiu do lugar, dado ao fato de que ele era um homem grande e forte.
- Ah, devo desistir de te convidar para fazer umas fotos íntimas? - ele falou com as sobrancelhas erguidas e um sorriso presunçoso. Mitchell Ryder estava flertando comigo?
- Não acho que o Hartfeld High vai permitir essas fotos no jornal da escola. - eu devolvi o olhar que ele me dava.
- Mas eu nem ousaria dividi-las com ninguém. - ele deu uma piscadela, deu às costas e saiu.
- Uau, ele tá super afim de você! - Penny parou na minha frente, rindo.
Na mesma hora, vi Mike no começo do corredor. Ele estava com Jeff e Kyle. Assim que me viu, ele abriu um sorrisinho, e ao passar por mim, piscou um olho.
- Kyle estava me dizendo que Mike falou que ficou com uma garota incrível, esse final de semana. - Penny falou em meu ouvido, enquanto ele se afastava. Dei um sorrisinho ao saber que Mike me achava incrível - Eu só imagino. A coitada deve ter sofrido. Ele deve ter um p*u pequenino.
Eu ri com seu comentário.
- Eu desconfio que não é. - ela franziu as sobrancelhas e me olhou sem entender. No mesmo instante, ouvimos o sinal e fomos para a sala de aula.
- Ei, você não me disse quem foi que você pegou ontem.
- Te conto no almoço. - eu falei quando o sinal tocou para a aula de álgebra.
Mike e eu trocamos olhares durante toda a aula. Por sorte, ele conseguiu me passar um bilhete sem que Penny ou Hayley vissem. Ele queria dar uns amassos no armário do zelador depois da aula de álgebra.
Ele abriu a porta do zelador após a aula e nós entramos. Mike me ergueu e me pressionou contra a parede, me beijando loucamente.
Ele bagunçava meu cabelo enquanto apertava sua cintura no meio das minhas pernas, me fazendo sentir sua ereção. Eu mordi seu lábio e aquilo lhe atiçou ainda mais, fazendo ele me puxar para mais um beijo intenso e molhado.
- Sentiu saudades? - falei quase sem ar.
- Pode apostar. - ele subiu a barra do meu vestido e apertou minha b***a - Humm... Ainda está do jeitinho que eu me lembrava.
- Por que não estaria? - eu ri, voltando a beijá-lo - Temos que voltar. Ainda tenho mais algumas aulas para estar.
- Certo, biologia AV e humanismo. - ele reclamou - Tem razão.
Ele me colocou no chão e eu me ajeitei, enquanto ele tentava controlar seu m****o. Saímos para o corredor e ainda estava vazio.
Mike voltou para seus amigos, e eu fui em direção ao meu balcão na sala de biologia AV, que estava vazia, enquanto colocava fones de ouvido e ficava escutando música em meu celular.
- Bom dia. - Ray falou em um tom baixo sem olhar nos meus olhos ao se sentar ao meu lado. Eu observei ele tirar os materiais da mochila e os colocar no balcão, me ignorando completamente.
- Você está bem? - eu não sei por que quis perguntar. Ele estava normal. Agindo indiferente como sempre. Escrevendo algo em seu caderno sem olhar em meus olhos, fingindo que não ligava para minha existência.
- Você liga? - ele perguntou e eu trinquei o maxilar, irritada.
- Vai por mim, se eu não ligasse, não perguntaria. - virei para frente, brava com ele e apoiei a cabeça na minha mão.
- Então você é amiga do Alex? - ele perguntou após alguns segundos de silêncio.
- Desde a infância. - respondi, ainda chateada.
- Eu não sabia. - foram as últimas palavras que ele disse, pois a professora Stone entrou e começou a aula.
No final dos períodos, Stone nos deu um trabalho para fazer com as nossas duplas, era bem extenso e era necessário que fosse feitos juntos.
- Ei, Hale. - Ray me chamou quando eu estava prestes a sair para a aula de humanismo. Eu me virei e olhei em seus olhos azuis. Até que eles eram bem bonitos - Sobre o trabalho. Você está livre no sábado?
Eu o encarei e percebi que ele estava com sua guarda baixa pela primeira vez em muito tempo. Ele olhava nos meus olhos e parecia aberto a tentar conversar.
- Claro. - respondi com a voz mais serena possível.
- Podemos fazer o trabalho lá em casa. Eu peço para minha mãe cozinhar algo legal. Ela manda bem na cozinha. - ele deu um vislumbre de um sorriso e eu também.
- Então eu tenho que ir antes do almoço? - perguntei brincando.
- Tem algum problema? - ele indagou, preocupado.
- Nenhum, é só que eu não costumo acordar de manhã nos sábados. - eu respondi e ele riu genuinamente. Uau. Eu tinha esquecido de como ele ficava gato sorrindo assim - Não se preocupe, eu estarei lá. Me envia o endereço por mensagem, pode ser?
- Pode, sim. Até mais. - ele se despediu, sumindo na multidão.
Sábado, 12 de setembro de 2020, 10h.
Eu havia colocado um vestido rosa claro comportado, uma jaqueta jeans clara por cima e uma sandália de salto rosa. Peguei meus livros, cadernos e laptop e coloquei na mochila, indo para a residência dos Robinson de carro. Ao chegar lá, o sol da manhã iluminava a bela casa. Caminhei calmamente até à porta de entrada e apertei a campainha. Logo em seguida, a mãe de Ray atendeu.
- Você deve ser Kate. Pode me chamar de Cassandra. - ela me cumprimentou com um sorriso no rosto e abriu para que eu entrasse - Acho que Ray ainda está dormindo, querida. Aceita alguma coisa para tomar?
- Não, obrigada. A senhora se importa se eu for acordar o Ray? Gostaria de começar logo. - eu pedi.
- Ah, claro, querida. Fique à vontade. O quarto dele é a segunda porta à direita lá em cima. - ela indicou com a mão e eu subi as escadas, indo em direção ao quarto de Ray.
Antes de chegar ao meu destino, uma porta se abriu e de lá saiu o vapor de um chuveiro e um enorme homem nu, envolto em uma toalha na cintura. Ele era alto, tinha a pele muito branca e cabelos pretos molhados que caíam sobre seu rosto. Não era Ray, mas parecia muito.
- Ora, ora... Está perdida? - ele sorriu para mim e se apoiou na parede, trancando meu caminho.
- Eu tô... Procurando o quarto do Ray. - falei, respirando fundo.
- Ah, certo, você é aquela amiga do meu irmão que veio almoçar e fazer um trabalho com ele. - ele falou e eu franzi o cenho, me lembrando dele.
- Ryan? - eu perguntei, o reconhecendo. O irmão mais velho de Ray. Ryan não era do meu círculo de amigos e nem do meu irmão, sendo mais velho que nós e mais novo que eles. Mas, ainda assim, eu me recordava levemente dele.
- Sim. Eu conheço você? - ele perguntou. Pelo visto ele não me reconheceu.
- Meu nome é Kate Hale, eu estudo desde criança com o seu irmã, você estava sempre com ele. - eu contei e ele tentou lembrar de mim - Talvez você se lembre de mim por Katherine.
- Ah, mas é claro! Katherine Hale! - ele lembrou-se e eu sorri, ignorando o fato de que ele estava sem roupa, apenas de toalha - Nossa, mas você cresceu, hein.
Eu sorri e fiz menção de passar por ele, mas Ryan passou o braço na parede, impedindo que eu passasse.
- Se meu irmãozinho não bastar, sempre pode vir me procurar. - ele sorriu e piscou antes de se retirar.
Eu revirei os olhos e passei, indo até à porta do quarto de Ray, adentrando.
O quarto dele era quentinho e entrava luz do sol pela cortina branca que balançava sobre a cama dele. Na parede havia vários pôsteres de histórias em quadrinhos e fotos da família deles. Eu me aproximei das fotos e observei uma delas onde aparecia Ray, Ryan e a pequena Anne. Eu me lembro do dia em que ela foi atropelada, foi tão triste...
Ray era tão diferente, não passava de um garotinho magricela que usava óculos e tinha um sorriso no rosto. Era possível saber quando foi que Anne morreu, apenas olhando as fotos. As que ele sorria e tinha felicidade no olhar era quando ela ainda vivia, e as que ele estava sério, bom...
Talvez eu não fosse tão diferente assim dele.
Passei pelo seu computador onde imagino que ele passava horas jogando, e parei no pé da cama, o observando dormir. Sua cama inteira estava bagunçada, alguns travesseiros caíram no chão, o lençol havia saído em uma ponta e Ray estava completamente destapado. Ele dormia de bruços apenas com uma bermuda azul e uma perna dobrada. Ele parecia tão em paz.
Sentei ao seu lado da cama e virei a cabeça de lado para observá-lo melhor. Estiquei a mão e afastei seus cabelos do seu rosto. Ele estava tão bonito, era difícil lembrar dele como aquele menininho desajeitado do ensino fundamental, sendo que agora ele era um baita homem, lindo, sarado e charmoso. Espera, o quê?
Kate, para de pensar nele sem roupa.
Cutuquei o ombro de Ray e ele nem se mexeu. O empurrei de leve e novamente ele não acordou.
- Ray, acorda. Acorda. - eu o chamei e ele resmungou, virando para o lado. Eu subi na cama e comecei a chacoalhá-lo com força Ei, você fez eu acordar cedo pra ficar dormindo? Nada disso, Raymond! Acorda!
Eu pulei em cima dele e ele reagiu. Raymond resmungou e franziu o cenho, se virando de frente para mim.
- Quem jogou o elefante em cima de mim? - ele falou com um sorriso no rosto e eu me senti ultrajada.
- O quê?! Ah, você me paga! - eu comecei a fazer cócegas nas costelas dele e Ray começou a se contorcer e rir.
- Para, para, para! - ele falou, antes de segurar meus pulsos e olhar bem em meus olhos - Já entendi. Vou levantar.
Eu sorri, com o sentimento de missão cumprida e saí de cima dele, sentando ao seu lado na cama.
- Desculpa, eu... Fui dormir muito tarde ontem. - ele se justificou, olhando para o teto - De novo.
- Ficou jogando? - eu perguntei apontando para o computador e ele apenas negou.
- Você se incomoda de esperar aqui enquanto eu escovo os dentes e tomo um banho rápido? - ele se sentou e eu dei de ombros.
Ray levantou, com os cabelos bagunçados e pegou uma roupa, indo para o banheiro de seu quarto.
Enquanto o som do chuveiro invadia meus ouvidos, eu encontrei um livro que ele mantinha por perto. Era curto e pequeno, sobre os efeitos da perda de alguém. Alguns lugares estavam frisados pelo marca-texto amarelo.
Eu pensei que era algo pessoal sobre ele, mas queria muito ler, afinal, eu também perdi alguém. Quando comecei a ler na primeira página, Ray saiu do banheiro apenas de bermuda novamente.
- Ei, você já terminou de ler esse livro? - perguntei e ele assentiu - Se importa de me emprestar?
Ele sorriu e sentou ao meu lado, colocando uma camiseta azul.
- Fique à vontade. Ele é muito bom, me ajudou muito. - ele contou, colocando a mão na barriga - Nossa, eu tô com fome. Vamos descer?
- Claro. - eu fechei o livro e o guardei na bolsa, me levantando e o seguindo. Ray abriu a porta para mim e eu passei na sua frente, esperando por ele.
- Podemos começar o trabalho depois do almoço, o que acha? - ele perguntou.
- Pode ser, enquanto isso eu interajo com a sua família, já que aparentemente, você não faz isso. - eu o provoquei.
- Eu interajo o suficiente. Acontece que na maioria das vezes, Ryan está por perto. - ele bufou, entediado.
- Certo, o seu irmão. Eu falei com ele antes. Ele é bem... Estranho. - eu comentei e ele riu, sarcástico.
- Você quis dizer convencido. Aposto que ele deu em cima de você. - ele disse enquanto descíamos as escadas.
- É, ele deu, mas eu sei me cuidar. - nós chegamos na sala e os pais de Ray estavam assistindo TV enquanto algo cheirava bem, vindo da cozinha.
- Ah, então essa é a menina Kate. Muito prazer, eu sou Walter, pai do Ray. - o homem alto e de cabelos e olhos castanhos que estava sentado no sofá ao lado de Cassandra se levantou para me cumprimentar - Seja bem-vinda à nossa casa.
- Obrigada, sr. Robinson. - eu agradeci sorrindo.
- Mãe, tem alguma coisa para comer? - Ray perguntou atrás de mim.
- Ah, você dormiu demais agora vai ter que esperar o almoço. - Cassandra falou e Ray resmungou - Enquanto isso, por que não se sentam conosco para podermos conversar um pouco e conhecer Kate?
- Eu acho uma ótima ideia. Ray? - virei para Ray, apelando com os olhos. Ray me encarou, sério, mas sorriu de canto e concordou, sentando comigo no sofá de dois lugares na sala.
- Está bem.
Assim que nos sentamos, Ryan desceu as escadas e passou para sentar ao lado de sua mãe no outro sofá.
- Espera, acho que estou reconhecendo você. - Walter se esticou em sua poltrona e apontou para mim, cerrando os olhos na tentativa de lembrar de algo - Você não é a menina que cantou no festival há umas duas semanas? A menina convidada pela banda.
Eu sorri e coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, envergonhada.
- É, era eu, sim. - eu respondi e ele sorriu.
- Meus parabéns, você tem uma voz linda. - Walter falou e indicou com a cabeça para Ray - Ray também tem uma bela voz.
- Você canta?! - eu virei para ele que fazia uma cara de quem fora pego no ato.
- No chuveiro, na maioria das vezes. - ele respondeu sorrindo e passando a mão no rosto - Mas, diferente de você, eu não tenho coragem de cantar na frente da cidade inteira.
- Ah, mas e que tal na minha frente? - eu perguntei e ele pareceu em choque.
- Tá bem. - ele se mexeu e fechou os olhos para se concentrar. Quando os olhos de Raymond abriram de novo, ele os fixou nos meus e começou a cantar "Bridge of Light", a música que eu cantei no festival. A cada trecho daquela música eu me arrepiava. A voz dele parecia um anjo.
Assim que ele terminou, eu bati palmas para ele e sorri.
- Uau, você é muito bom! - eu o empurrei com o ombro, o deixando vermelho de vergonha.
Enquanto nós seguíamos conversando, Cassandra foi para a cozinha, ver como estava a refeição que ela estava preparando no forno e em seguida ela nos chamou para comer.
Eu me sentei ao lado de Ray e Ryan na mesa enquanto cada um servia-se de um belo pedaço da lasanha que Cassandra havia feito.
- Aqui, deixa que eu te sirvo. - Ray pegou meu prato e fez o que disse, me fazendo encará-lo com um sorriso desconfiado e as sobrancelhas.
- Não precisava, mas,... Obrigada. - eu agradeci e então nós comemos juntos.
Era uma sensação tão boa estar no meio de pessoas tão alegres e calorosas. Raymond, que na escola era uma pessoa, se revelou ser completamente diferente. Eu me senti privilegiada por poder ver quem ele realmente era.
Após o almoço, nós subimos para o quarto dele e enfiamos nossas cabeças nos livros para fazer o trabalho de biologia. Após quatro horas de incontáveis palavras escritas, nós finalmente terminamos.
- Nossa, eu tô morta! - me joguei na cama de Ray enquanto ele batucava dois lápis na mesa de seu computador e esperava o trabalho terminar de imprimir - Sinto que meu cérebro vai explodir.
- Então é melhor você tomar um sorvete bem gelado, aí não teremos problema de explosão. - eu me apoiei nos cotovelos e o encarei, observando que ele estava rindo de sua própria piada.
- Ei, Ray, me promete uma coisa? - eu falei e ele seguiu batucando os lápis, assentindo com a cabeça.
- O quê? - ele indagou e eu me sentei.
- Promete que não vai se fechar de novo. - eu falei e ele parou de batucar, me olhando nos olhos com sua expressão séria - Hoje eu tive a oportunidade de ver como você é de verdade. Não volte a ser aquele babaca indiferente que você tem sido nos últimos dias. Continue sendo, engraçado, espontâneo,... Inocente. Aposto que até vai fazer mais amigos.
Ele sorriu genuinamente e baixou o olhar.
- A razão dessa fachada, Hale, é justamente não fazer amigos. - ele revelou e eu o encarei, sem entender - Desde que perdemos a Anne, eu... Me afastei de todos os meus amigos e familiares. É uma forma de defesa. Quanto menos pessoas eu tiver na minha vida, menos pessoas irão embora ou morrerão.
Eu o encarei, sem saber o que dizer. Me agachei na frente dele e segurei sua mão.
- Sabe, Ray, eu também perdi alguém. Minha mãe. - eu contei e pude sentir minha garganta doer - Ela era a pessoa que eu mais amava nesse mundo e quando ela morreu eu quis me afastar de todos, também. Mas, então, eu comecei a perceber que eu não era a única sofrendo e que se eu perdi alguém, deveria focar em passar o máximo de tempo possível com as pessoas que eu amo e que ainda estão comigo.
Ele sorriu e colocou a mão no meu rosto.
- Talvez eu deva começar a ser mais como você, afinal. - ele falou, me fazendo sorrir.
- Bom, tá escurecendo e eu devia ir pra casa. - me levantei para pegar minhas coisas e parei - Ei, se aparecer alguma festa e eu for... O que você acha de eu te convidar?
- Você pode convidar, eu prometo pensar sobre, mas não garanto. - ele se ergueu abrindo a porta para mim e me levando até à porta de entrada, e por último, até meu carro - Bom, obrigado por vir. Foi um dia muito legal, eu adorei, e meus pais também. Todos sentem falta de uma presença como a sua aqui em casa. Você se parece com a Anne.
- Eu fico feliz que pude servir de entretenimento a todos. - respondi, provocando ele - Então, até mais, Raymond.
Eu passei meus braços no pescoço dele e ele passou os seus pela minha cintura, me puxando para perto, permitindo que eu sentisse seus músculos da barriga.
- Te vejo por aí, Hale. - ele me soltou e abriu a porta do carro para mim.
Eu entrei e dirigi para casa, lembrando do dia maravilhoso que tive com o verdadeiro Raymond Robinson.