Apolio
A casa dos meus pais nos Hamptons estava impecável. Luxuosa demais, cheia de detalhes que gritavam a necessidade de impressionar. Lustres brilhavam no teto, o aroma de comida cara impregnava o ar e garçons andavam pelo salão como se fossem parte da decoração.
Nada disso me surpreendia. Era sempre assim. Uma farsa bem montada.
E o que eu mais odiava nesses jantares beneficentes não era a hipocrisia de todos ali. Não era o teatro que minha mãe e meu pai faziam.
Era o fato de que Clair White estaria presente.
E, pior, que eu teria que bancar o marido perfeito ao lado dela.
Infelizmente, manter essa imagem era o que me dava sossego… e paz era uma coisa que eu estava precisando.
Mas eu já sabia que essa noite não terminaria bem.
Estava sentado no carro, batendo os dedos contra o volante enquanto esperava Charlotte e Clair saírem.
Por que diabos eu sempre caía nessa?
A porta da casa se abriu, e lá estava ela.
Clair White, em toda a sua arrogância. Seu sorriso presunçoso, seu vestido perfeitamente ajustado para parecer sensual sem ser vulgar.
Charlotte veio logo atrás, parecendo tão entediada quanto eu.
Clair entrou no carro com a ousadia de quem ainda acredita que pode me dobrar.
— Que bom que você veio, amorzinho. — Sua voz melosa já me dava enjoo.
— Se dependesse de mim, eu não viria. — Murmurei, dando partida no carro.
Charlotte soltou uma risada curta no banco de trás.
— Vocês dois são insuportáveis juntos.
Revirei os olhos, mantendo a atenção na estrada.
— Diga isso a quem me obrigou a me casar com essa praga.
Clair apenas riu, passando batom como se nada tivesse acontecido.
Ela adorava fingir que ainda tinha algum controle sobre mim.
Mas eu não era mais o homem que ela manipulava anos atrás.
Chegamos ao inferno e eu estava com o capeta no carro.
Assim que entramos na casa dos meus pais, Clair grudou em mim.
Abracei-a por pura obrigação, sabendo que, dali para frente, tudo que eu fizesse precisaria ser cronometrado para parecer real.
Meus pais não facilitaram.
— Clair, minha querida! — Minha mãe praticamente a puxou para um abraço caloroso, e eu precisei me controlar para não vomitar.
O pior era ver como eles realmente gostavam dela. Como se ela fosse o que faltava na minha vida.
Charlotte e eu trocamos um olhar carregado de ironia.
No fundo, ambos sabíamos que essa noite tinha tudo para dar errado.
O jantar estava tão entediante quanto eu imaginava.
Conversas sobre negócios, investimentos, leilões beneficentes… tudo que eu odiava.
Já estava no meu segundo copo de vinho quando Clair resolveu tornar tudo mais interessante.
— Então, Charlotte… já se resolveu com o Josh?
O garfo de Charlotte parou no meio do caminho.
Senti meu estômago revirar antes mesmo de Josh reagir.
Ele levantou os olhos para Clair, sem entender.
— Do que diabos você está falando?
— Oh, não seja tão dramático, querido. — Ela sorriu, saboreando cada segundo. — Afinal, Charlotte foi te procurar até no Texas, não foi? Como anda essa fofoca por lá?
E foi aí que tudo desmoronou.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Minha mãe franziu a testa. Meu pai largou os talheres devagar.
Josh se remexeu no assento, claramente desconfortável.
Minha mãe foi a primeira a falar.
— Joshua… o que está acontecendo no Texas?
— Nada demais.
Essa foi a pior resposta que ele poderia ter dado.
Charlotte riu. Mas foi um riso amargo.
— Nada demais? — Ela colocou a taça na mesa, respirando fundo. — Você me traiu. Com Luísa. Durante meses. Depois me largou para ficar com ela. E agora, pelo visto, largou ela também, não foi?
Minha mãe arregalou os olhos.
— O quê?
— Eu não larguei ninguém! — Josh rebateu, tentando manter a calma.
— NÃO?! — Charlotte bateu a mão na mesa, fazendo todos se sobressaltarem. — Então me explica por que foi para Nova York sem nem falar com ela?
O choque era palpável.
Minha mãe cobriu a boca, o olhar completamente traído.
Meu pai apenas respirou fundo, e isso era pior do que se ele tivesse gritado.
— Joshua… como assim, você nos disse que eram apenas amigos, que ser próximo dela nos traria negócios, isso pode mexer com nossa reputação no Texas.
Josh passou a mão pelos cabelos, impaciente.
— Isso não é problema de vocês.
E foi nesse momento que o verdadeiro caos começou.
Meu pai bateu a mão na mesa, a voz firme.
— Não é problema nosso? — Seu olhar era cortante. — Você sabe como isso afeta nossa família? Nossa empresa?
Josh explodiu.
— O que afeta a empresa são vocês se metendo na minha vida!
Charlotte riu de novo, sem humor.
— Nossa, Max estava certo. Você realmente é um i****a.
Josh se virou para ela, os olhos faiscando raiva.
— Como você sabe disso?
Clair pegou a taça de vinho, deu um gole elegante e disse, como quem fala sobre o clima:
— Max me contou, é claro.
Charlotte piscou.
— Max? Meu primo?
— Ele mesmo. — Clair sorriu como uma cobra prestes a dar o bote. — Você acha que os segredos de vocês não correm soltos por aí?
A expressão de Charlotte mudou na mesma hora.
— Filho da p**a.
Ela levantou num pulo.
Josh fez o mesmo.
— Eu sabia que aquele desgraçado não ia conseguir ficar de boca fechada!
— Talvez se você fosse menos escroto, não precisasse se preocupar com quem fala o quê!
O grito dela ecoou pela sala.
O clima já tinha ido para o inferno.
Meu pai, que até então estava quieto, finalmente perdeu a paciência.
— CHEGA!
Josh se calou. Charlotte se calou.
Todos se calaram.
Meu pai o encarou por longos segundos.
— Depois do jantar, conversaremos em particular.
Josh bufou, mas não discutiu.
Charlotte, por outro lado, pegou sua taça e foi para o jardim, sem olhar para trás.
Suspirei, finalmente relaxando na cadeira.
Essa noite foi exatamente o inferno que eu esperava.
Mas eu tinha que admitir…
Ver Josh se afundar na própria m***a foi a parte mais satisfatória do jantar.
Charlotte saiu da mesa como um furacão, os passos firmes ecoando pelo chão de mármore enquanto sumia na escuridão do jardim.
Tentei levantar para ir atrás dela, mas antes que eu pudesse dar um passo, senti uma mão fria segurando meu pulso.
Clair.
— Nem pense nisso. — Sua voz saiu baixa, mas firme.
A encarei com ódio, meu corpo inteiro tenso.
— Sai da minha frente, Clair.
Ela manteve o sorriso impecável no rosto, mas seus olhos tinham o brilho manipulador de sempre.
— Se você sair agora, todas as outras mesas vão perceber a confusão. E sabe o que isso significa?
Minha mandíbula travou.
Claro que eu sabia. Significava que o circo estaria armado e que as fofocas começariam a correr antes mesmo da sobremesa.
Eu podia lidar com escândalos. Mas minha família não.
— Resmunga o quanto quiser, — Clair sussurrou, inclinando-se para perto. — mas você vai sentar essa b***a nessa cadeira e vai fingir que nada aconteceu.
Fechei os olhos por um segundo, prendendo a raiva no peito.
Depois, soltei um suspiro e me joguei de volta na cadeira.
— Filha da p**a manipuladora. — Murmurei para que só ela ouvisse.
Ela sorriu. Vitoriosa.
O jantar continuou como se nada tivesse acontecido.
Charlotte não voltou.
E Josh… bom, Josh bebeu.
Bebeu como um condenado.
Os pais dele estavam ocupados demais tentando manter as aparências para se importar, mas eu sabia que, em algum momento, isso explodiria novamente.
E eu não estava errado.
O jantar finalmente tinha acabado, e Josh sumiu em algum momento.
Saí para procurar Charlotte, mas quando cheguei ao jardim, vi que já havia alguém com ela.
Josh.
Ele estava bêbado.
Dava para ver pela maneira como se segurava na mesa de madeira ao lado do banco onde Charlotte estava sentada. E dava para ouvir também.
— Você não deveria ter ido ao Texas.
Charlotte nem se deu ao trabalho de olhá-lo.
— Ah, claro. Tudo isso é culpa minha agora?
Josh passou a mão no rosto, frustrado.
— É exatamente por isso que a gente não dá certo, Charlotte! Você não sabe respeitar meu espaço!
Ela soltou uma risada incrédula.
E quando finalmente olhou para ele, seus olhos estavam cheios de raiva.
— A gente está junto há mais de dez anos, Josh. — Sua voz veio carregada de emoção. Não era raiva. Era decepção. — Dez anos.
Josh cruzou os braços.
— E daí?
Charlotte ficou de pé, encarando-o com toda a força que tinha.
— E nos últimos dois anos você mentiu para mim.
Josh abriu a boca para rebater, mas ela continuou.
— Durante dois anos, você disse que ia ao Texas para implantar a empresa de advocacia com os seus pais.
Ela deu um passo à frente.
— Mas na verdade você estava me traindo.
Silêncio.
Josh ficou imóvel. Seus olhos estavam escuros, carregados de algo que parecia ser culpa.
Mas ao invés de admitir, ele fez o que sempre fez.
Tentou fugir.
— Você está exagerando. — Ele bufou, desviando o olhar. — Foi um erro, Charlotte. Você não precisa fazer esse drama todo.
Foi quando perdi a paciência.
Avancei para o meio da conversa antes que ela continuasse.
— Um erro? — Minha voz saiu baixa, mas afiada.
Josh virou-se para me encarar, finalmente percebendo que eu estava ali.
— Fica fora disso, Apolio.
Ignorei completamente.
— Então me diz… por que o “erro” durou dois anos?
Ele não respondeu.
A raiva em seu rosto aumentou, mas não era nada comparado ao que eu estava sentindo.
— Você usou sua própria empresa como desculpa para passar dois anos fodendo com a vida de duas mulheres ao mesmo tempo?
Josh apertou os punhos. Estava no limite.
— Eu vou dizer só mais uma vez. Fica fora disso.
Sorri de lado, cruzando os braços.
— E o que você vai fazer se eu não ficar?
Ele explodiu.
Avançou para cima de mim, me empurrando com força no peito.
O álcool estava pesando em seu corpo, porque o movimento foi descoordenado, e ele quase tropeçou para trás.
Mas isso foi suficiente.
O sangue ferveu nas minhas veias.
Eu estava esperando uma desculpa para fazer isso há muito tempo.
Minha mão fechou-se em um punho antes que eu pudesse raciocinar.
E então eu soquei a cara de Josh.
O impacto fez um estalo alto, e ele caiu no chão, segurando o rosto.
O silêncio engoliu o jardim.
Tudo que se ouvia era a respiração pesada dele e a minha.
Charlotte arregalou os olhos, parecendo surpresa e ao mesmo tempo satisfeita.
Josh tentou se levantar.
Mas antes que ele conseguisse, me abaixei ao lado dele.
— Você está acostumado a sair ileso, não está? — Minha voz saiu baixa, mas firme.
Ele piscou algumas vezes, tentando recobrar a sanidade.
— f**a-se, Apolio.
Peguei seu colarinho e o puxei até que nossos rostos estivessem próximos.
— Não. Você que se f**a, Josh.
Soltei-o bruscamente, me levantando.
Josh ficou no chão, respirando pesadamente.
E pela primeira vez na vida, não tinha nada para dizer.
Passei a mão pelo cabelo, respirando fundo para controlar minha própria raiva.
Charlotte ainda estava ali, observando a cena com um olhar que misturava vingança e tristeza.
Sem dizer mais nada, virei as costas e saí dali.
Aquela noite já tinha ido longe demais.