Apolio
Eu estava sentado no meu sofá, girando um copo de whisky entre os dedos enquanto minha paciência se esvaía a cada nova chamada recebida.
Clair já tinha ligado cem vezes.
Minha mãe não ficava muito atrás. Ambas tinham um único objetivo: me obrigar a comparecer ao maldito jantar beneficente da Instituição Vitti.
Se fosse apenas mais um evento da alta sociedade, eu poderia aturar. Mas o grande problema era o fato primordial que me fazia recusar tanto:
Clair White estaria lá.
E eu teria que bancar o esposo feliz.
Mas sejamos sinceros? Felicidade nunca foi o meu forte. E muito menos fingir que ela existe.
Além de Clair e minha mãe, Charlotte também tentava me convencer a ir. Minha prima sabia exatamente como me dobrar. Foi por isso que, após a vigésima ligação dela implorando para que eu não a deixasse sozinha com aqueles hipócritas, acabei cedendo.
Atendi a ligação e, sem nem dar tempo para mais insistências, resmunguei:
— Ok. Eu vou.
E desliguei antes que me arrependesse.
⸻
Meu quinto copo de whisky já estava no fim quando uma loira sentou-se ao meu lado no bar e chamou o garçom.
Eu não a olharia duas vezes se não fosse por um detalhe: havia algo nela que me prendeu por um instante.
Não era que ela me lembrava alguém, porque não tinha nada de semelhante a qualquer mulher que eu conhecesse. Era… um magnetismo estranho.
Antes que eu pudesse decifrar, ela se virou para mim, os olhos faiscando interesse.
— Esse bar é sempre cheio?
A voz dela me surpreendeu.
Ela estava tentando puxar assunto comigo?
Inclinei a cabeça, observando-a melhor antes de responder:
— Sempre. Chega a ser insuportável, mas eles têm o melhor chope da cidade.
Ela sorriu, e seu olhar percorreu meu rosto de forma quase desafiadora.
— Acho que já sei o que eu quero então.
O sorriso dela de canto despertou algo em mim. Algo que dizia que essa mulher não voltaria para casa sozinha hoje.
— Amanda Graysson, é um prazer. — Ela estendeu a mão.
Quando toquei sua pele macia, soube que estava ferrado.
— Eu sou Ap—
— Eu sei quem você é.
Revirei os olhos, e todo o t***o sumiu no mesmo instante.
Tinha que ser mais uma?
— Não se preocupe. — Ela riu, pegando seu copo. — Não estou atrás do seu dinheiro. Por acaso, eu tenho o meu.
Ela sorriu de um jeito displicente, e minha atenção voltou para seu corpo.
Talvez eu devesse reconsiderar.
— O que vai fazer depois daqui? — Obrigado, álcool.
Amanda arqueou uma sobrancelha, brincando com a borda da taça.
— Não sei… me diga você.
O clima esquentou. O olhar dela estava cheio de provocações e eu não pretendia ignorá-las.
Eu precisava tirar a cabeça daquela doce menina.
Porque eu não era bom para ela.
Porque eu era tão m***a quanto o ex dela.
E porque, no fim das contas, sou tão imperdoável quanto Josh.
Depois de várias doses de bebida, dirigir não era mais uma opção.
Mas levá-la para minha casa? Definitivamente não.
Um motel resolveria o problema.
Deitei Amanda na cama, e enquanto nos desfazíamos de qualquer rastro de sobriedade, percebi que não havia nada de delicado nela.
Ela gemia alto, sem nenhuma inibição. E eu imaginava que qualquer um nos arredores estava ouvindo também.
Mas, sinceramente? Não me importava.
Ela não se cansava, não se rendia, não me dava espaço para nada além do desejo puro.
E eu tinha a noite inteira para corresponder.
Quando finalmente decidi partir, Amanda ainda estava deitada, a pele úmida de suor.
— Me dá seu número?
Parei antes de pegar minha jaqueta, pensando se valia a pena.
Eu não precisava de outra Clair na minha vida.
Antes que eu dissesse algo, Amanda sorriu, como se já soubesse.
— Ou melhor… eu posso te achar.
Ela se arrastou para a ponta da cama, ficando de quatro diante de mim.
Não resisti. Afastei seu cabelo, cravei os dedos nele e a beijei.
Depois, saí sem olhar para trás.
Encostei a cabeça na janela do carro e observei as luzes de Nova York.
Que d***a de vida.
Hoje era sexta.
O que significava que eu tinha apenas um dia até o jantar beneficente.
Estava no meu escritório, com um copo de bourbon na mão, quando o inferno atravessou a porta sem sequer bater.
Clair White.
Ah, que surpresa.
— Mas olha só se não é o próprio d***o em forma de gente. — Sorri com deboche, voltando a revisar os documentos de caso de um de nossos clientes.
Clair bateu seus saltos finos contra o piso de mármore, caminhando até minha mesa com sua típica arrogância.
— Amorzinho, você vai comigo à festa amanhã.
Sua voz irritante me causava náusea.
— Está maluca? — Arqueei uma sobrancelha. — Eu irei com Charlotte, minha querida.
Abri minha estante e procurei mais whisky. Eu não aguentava essa mulher sem ajuda.
— Como você quer que as pessoas achem que somos um casal se você nem ao menos age como um? — Ela bateu as mãos na mesa de vidro, os olhos faiscando irritação.
Levantei o olhar lentamente, minha expressão dura.
— Nós não somos um casal, Clair. — Minha voz saiu fria. — Não depois de você ser tão burra a ponto de me trair.
Ela engoliu seco, surpresa com o tom da minha voz.
— Isso é passado, Apolio.
Ela se segurou firme na quina da mesa, as mãos tremendo de raiva.
Eu me recostei na cadeira, levei o copo aos lábios e sorri sem mostrar os dentes.
— Sai da minha sala, Clair. — Minha paciência estava se esgotando. — Eu te busco amanhã junto com Charlotte. Mas só por aparência. E para que você vá embora e eu volte a ter paz.
Clair pegou sua bolsa, concordando com a cabeça. Seu salto ecoou pela sala enquanto ela saía, deixando um rastro de perfume forte e desespero m*l disfarçado.
Assim que a porta se fechou, soltei um suspiro cansado.
Deus, por que eu ainda aturo isso?
Cheguei em casa exausto.
Joguei a jaqueta no sofá, arranquei os sapatos e deitei na cama.
O silêncio do apartamento deveria ser reconfortante.
Mas tudo o que encontrei foi um rosto de cabelos loiros surgindo na minha mente.
Franzi o cenho.
Por que diabos eu estava pensando nela?
Me virei de um lado para o outro, tentando afastar a ideia.
Mas Luísa estava ali.
Mesmo sem saber, ela estava ocupando um espaço na minha cabeça que ninguém mais deveria ocupar.
Fechei os olhos e forcei o sono a me arrastar para longe.
Amanhã seria um inferno.
Mas algo me dizia que o verdadeiro caos ainda estava por vir.