Capítulo 4

1674 Words
Apolio A fragilidade de Luísa a tornava um ser que deveria ser protegido. Mas não de forma ingênua ou dependente – ela não era esse tipo de mulher. Era sua essência, sua capacidade de sentir tudo intensamente, de se entregar por inteiro, que a tornava alguém valiosa. E, ao mesmo tempo, alguém vulnerável. Eu nunca vi um olhar como o dela. Havia um brilho diferente, uma intensidade que parecia me puxar para um lugar que eu não deveria ir. Mas eu fui. Nossos olhares se cruzaram, e por um momento, foi como se tudo tivesse parado. Eu enxergava nela a confusão, a dor crua que rasgava seu peito em silêncio. E, naquele instante, a única coisa que eu queria era trazê-la de volta. Infelizmente, eu não era esse cara. Minha vida estava a milhares de quilômetros daqui, em Nova York, meu trabalho… e uma insuportável esposa. Eu precisava dar um jeito nisso. O sorriso de Luísa me convencia de que tudo estava bem, mas não foi isso que recebi. Alguém chamou por ela, desviando sua atenção para uma conversa qualquer sobre a festa, e agradecendo pelo apoio Luísa sumiu pela escada. E eu fiquei ali, observando-a ir, sentindo um incômodo crescente dentro de mim. Era madrugada quando voltei para casa. Eu só queria descansar, talvez tomar um banho e esquecer de toda a m***a que essa viagem estava se tornando. Mas, para minha surpresa, eu não estava sozinho. A mesa de jantar estava posta à luz de velas, e Clair estava sentada na outra ponta, vestindo apenas uma lingerie provocante. Revirei os olhos antes mesmo de me aproximar. — O que faz aqui? — Sentei na cadeira oposta e servi vinho na minha taça, sem paciência para suas encenações. Clair sorriu de lado, passando a língua pelos lábios lentamente. — Eu tenho a chave, Apolio. Além do mais, somos casados. — Ela girou a taça entre os dedos, como se estivesse saboreando minha irritação. — Achei que deveria preparar um jantar para você e, quem sabe depois… — Seus olhos deslizaram pelo meu corpo, maliciosos. — Você tenha sorte de provar a sobremesa. Ela limpou o canto da boca, seu sorriso diabólico aparecendo em seguida. Já havia achado Clair irresistível antes. Mas agora… agora ela me causava náusea. Eu não sabia quando exatamente minha visão sobre ela mudou. Quando seu toque deixou de ser prazeroso e passou a ser algo que eu evitava a todo custo. Quando seu cheiro começou a me sufocar ao invés de me atrair. Mas o fato era que sua presença para mim era uma tortura. E o pior? Ela sabia disso e fazia questão de permanecer rondando minha vida, como uma praga que se recusa a desaparecer. Segurei o riso irônico ao perceber o espanto em seu rosto. Peguei minhas chaves e levantei, sem pressa. — Não que faça questão da sua presença aqui. — Olhei para ela com puro desinteresse. — Tenha um bom jantar. Antes que ela dissesse qualquer coisa, eu já estava fora. Entrei no carro e dirigi sem rumo, indo para o restaurante mais distante que consegui encontrar. Eu precisava de paz. Pelo menos hoje. Mas a verdade era que paz não era algo que eu conhecia há muito tempo. E, naquela noite, percebi algo ainda pior. Eu tinha feito uma burrada ao voltar. Porra de vida fodida. Luísa Eu ajustava a touca preta sobre a cabeça, tentando manter minhas mãos ocupadas enquanto aguardava a direção colocar a lista de aprovados. Meu coração estava disparado, e o nervosismo fazia meu estômago revirar. Minha ansiedade tinha me levado a roer todas as unhas e arrancar qualquer cutícula possível com os dentes. Ao meu lado, Ashley enrolava despreocupadamente uma mecha de seus cabelos negros, me deixando ainda mais impaciente. — Dá pra parar? — Olhei para ela, indignada, mas tudo que recebi foi uma careta zombeteira. Muito adulta ela. — Esse resultado vai decidir nosso destino, sabia? — Bufei, apertando as mãos para evitar continuar destruindo minhas unhas. Ashley deu de ombros e revirou os olhos como se aquilo não fosse nada. — Nós vamos passar. Ou eu não me chamo… — Ashley Hale. — Completei, revirando os olhos. Eu sabia esse discurso de cor. Aliás, todos ao nosso redor sabiam. A famosa frase “ou eu não me chamo Ashley Hale”, dita sempre pela própria, tinha se tornado uma lenda na nossa escola. E o pior? Ela sempre estava certa. Uma parte de mim queria acreditar que sua confiança era apenas otimismo exagerado, mas no fundo, algo me dizia que era muito mais do que isso. O Sr. Gabriel, vulgo diretor da High School Howard, vulgo insuportavelmente chato, abriu a porta de sua sala e, antes que pudesse respirar, foi esmagado pela multidão ansiosa. O tumulto começou, cada um empurrando o outro para ver seu nome na lista. Preferi esperar todos saírem. Ashley, ao meu lado, segurava minha mão. Nossas respirações estavam pesadas e sincronizadas, nossas mãos geladas e suadas ao mesmo tempo. Demos alguns passos hesitantes até a lista, e então paramos. Minha garganta estava seca. Ashley suspirou impaciente e se afastou de mim, ignorando meu nervosismo. — Isso é besteira. — Ela murmurou, avançando até a lista e percorrendo os nomes com os olhos. Meus pés estavam fincados no chão. Eu não conseguia me mover. Então, Ashley me olhou, os olhos brilhando e um sorriso preso no rosto. — Senhora Luísa Thorne, prepare suas malas… — Por quê? — Murmurei, sentindo o coração na garganta. Ashley soltou um gritinho animado antes de gritar para todo mundo ouvir: — PORQUE NÓS VAMOS PARA NOVA YORK, MINHA CARA! Ela se jogou no meu abraço e começamos a pular, ignorando completamente os olhares estranhos que nos lançavam. Mas a verdade é que não nos importávamos. Finalmente, o nosso sonho estava se tornando realidade. Eu iria sair desse inferno. Saímos da escola o mais rápido possível, mas para minha infelicidade, o único caminho de volta para casa passava exatamente pela empresa dos pais de Josh. Segurei meu coração dentro do peito, tentando ignorar o aperto que senti ao ver o letreiro espalhafatoso que a mãe dele escolheu. O mesmo letreiro que seu pai odiava, mas que aceitou, como sempre fazia com todas as vontades da esposa. O ar que nunca me faltou parecia agora se tornar escasso. Cada passo era pesado, cada segundo parecia uma eternidade. E, claro, a única coisa que ecoava na minha mente era o horário de Josh. O mesmo que o meu. Meu olhar foi automaticamente para a porta principal. Meu destino e o dele cruzariam-se ali, inevitavelmente. Mas o destino me enganou. Ele não apareceu. Meu rosto caiu automaticamente, meu coração afundando um pouco mais. Ashley percebeu e, enquanto eu abria o cercado de casa, perguntou distraída: — O que você acha que aconteceu? — Do que está falando? — Ela franziu as sobrancelhas. — Josh. O horário dele. Ele não saiu. Ashley deu de ombros. — Ele pode estar cheio de trabalho. Suspirei. Talvez fosse isso. Ou talvez… fosse algo muito pior. Entramos na pequena casa da piscina, o nosso refúgio, onde passávamos horas falando sobre qualquer coisa que nos tirasse da realidade. Fui até o barzinho e enchi dois copos com qualquer coisa alcoólica que achei por ali. — Você pode mandar mensagem para o Zack? — Perguntei, entregando um dos copos para ela. Ashley assentiu, digitando rápido. Fiquei olhando para o líquido azul no copo, hipnotizada, até que um bipe soou. Minha amiga franziu a testa, sua expressão mudando instantaneamente. — E aí? — Perguntei, sentindo um nó no estômago. Ela engoliu em seco antes de responder. — Ele foi para Nova York. De carro. O copo nos meus dedos ficou mais pesado. Levei a bebida à boca e virei tudo de uma vez. A sensação quente e amarga desceu rasgando minha garganta. Mas não foi o álcool que me causou dor. Foi o fato de que Josh havia preferido ela. Ele foi embora e me deixou aqui. Sozinha. Outro bipe. — Tem mais alguma coisa? — Minha voz saiu mais cortante do que eu pretendia. Ashley leu a mensagem e abriu um sorriso. — Zack me chamou para sair. Eu forcei um sorriso. — Isso é ótimo. Mas por dentro, eu estava cansada. Cansada de tudo isso. Alguns dias depois… As passagens já estavam compradas. Eu não tinha tido notícias de Josh desde então, o que era um alívio misturado com angústia. Eu sabia onde ele estava. E com quem estava. E isso era h******l. — Argh! — Resmunguei, frustrada, ao perceber que três malas não seriam suficientes para tudo que eu queria levar. Minha mãe apareceu na porta do quarto, seu olhar suave. — Está tudo bem, filha? Respirei fundo e tentei sorrir. — Quer ajuda? Era tão óbvio assim que eu estava à beira de um colapso? Me virei para ela, exasperada. — Eu não sei fazer isso. Não sei me virar sozinha. Não sei nem como colocar todas essas roupas em duas malas, imagina como vou cuidar de uma casa só minha! Mamãe se sentou na cama e bateu ao lado, me chamando. Fui até ela, sentindo um nó na garganta. — Quando eu saí de casa também foi h******l. — Ela começou, nostálgica. — Os pratos não se lavavam sozinhos, as roupas viviam sujas… Sem contar as contas que eu precisava pagar. A olhei assustada. — Mãe… você está tentando me convencer a ficar? Ela riu, sem graça. — Não. Só estou dizendo que não é fácil. — E você acha que eu não sei disso? Mamãe suspirou. — Tudo bem, meu passarinho. Eu já entendi que você precisa voar para longe do meu ninho. Ela sorriu, então começou a tirar tudo da mala e reorganizar de um jeito que só mães sabem fazer. Observei seus movimentos em silêncio, sentindo um calor reconfortante dentro do peito. Depois de um banho e um jantar, me deitei, encarando o teto escuro do meu quarto. Amanhã seria um dia longo. Amanhã, minha vida começaria de verdade.
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