A festa estava no auge.
A música pulsava tão alto que era possível sentir o grave vibrando no chão. O cheiro de álcool e cigarro pairava no ar, misturado ao perfume adocicado das garotas que passavam rindo pelos corredores. Pessoas ocupavam todos os cantos da casa – conversando, dançando, bebendo como se a noite nunca fosse acabar.
Eu estava encostada no balcão da cozinha, bebendo algo que Ashley havia me entregado minutos antes. Josh estava por perto, rindo com alguns amigos, enquanto o irmão dele, Apolio, mantinha-se isolado em um canto, observando tudo com um olhar crítico.
Foi então que percebi.
Uma garota de cabelos escuros entrou na casa, parecendo deslocada no meio da multidão barulhenta. Ela olhava ao redor como se procurasse alguém, o cenho franzido em impaciência. Seu vestido curto se destacava entre as roupas mais despojadas da maioria, e seu salto ecoava no piso conforme avançava.
Ela estava definitivamente procurando alguém.
Minha curiosidade foi despertada quando ela parou um dos caras que estavam na entrada e perguntou algo. O garoto apontou para dentro da casa, e a garota seguiu na direção indicada.
Eu ainda não sabia por quê, mas algo na forma determinada como ela andava me incomodava.
E então, ela encontrou quem queria.
Josh.
Eu o vi se virar, surpreso, ao notar a presença da garota. Ela se aproximou rápido e, antes que ele pudesse reagir, segurou seu braço e o arrastou para um dos corredores menos movimentados.
Meu estômago revirou.
Troquei um olhar rápido com Ashley, que também havia percebido a cena.
— Quem é essa? — Perguntei, tentando soar casual.
Ashley balançou a cabeça, confusa.
— Nunca vi antes… Mas ela parece conhecer bem o Josh.
Meu coração começou a bater mais forte.
Sem pensar, larguei meu copo no balcão e me movi pelo meio da multidão, tentando não chamar atenção.
Passei pelas pessoas até chegar ao corredor, onde vi a porta de um dos quartos sendo fechada.
Josh e a garota estavam lá dentro.
Engoli em seco e encostei-me à parede ao lado da porta, tentando ouvir.
Lá dentro, a voz da garota soou firme e levemente irritada.
— O que diabos eu estou fazendo aqui, Josh? Essa deveria ser a minha pergunta.
— Charlotte, o que você tá fazendo no Texas? — A voz dele estava mais baixa, quase abafada.
Charlotte.
Eu nunca tinha ouvido esse nome antes.
— Max me disse que você estaria nessa festa. — Ela bufou, e eu ouvi passos apressados pelo quarto. — E já que você não atendeu nenhuma das minhas ligações, achei que seria a única forma de te encontrar.
— Max te disse? — Josh soltou um riso forçado. — Ótimo, era só o que me faltava.
— A gente brigou dois dias atrás, mas isso não significa que você pode simplesmente sumir, Josh!
O sangue fugiu do meu rosto.
Charlotte. Max. Uma briga. Dois dias atrás.
Isso significava que…
Meu peito se apertou.
Eu não queria ouvir mais nada, mas não consegui me mover.
— Olha, eu… — Josh começou a falar, mas foi interrompido pela voz dela, que agora parecia mais baixa, quase sussurrada.
— Me diz que a gente ainda tem chance. Você disse que precisava de um tempo, mas… você ainda pensa em mim?
O silêncio que veio depois foi ensurdecedor.
Minha visão começou a ficar turva. Eu já tinha minha resposta.
Josh estava me traindo.
O tempo inteiro.
No Terraço
Eu ainda estava parada no corredor, meu corpo congelado pela traição que acabara de ouvir, quando uma porta ao lado se abriu repentinamente.
De dentro do banheiro, Apolio saiu secando as mãos com um lenço de papel. Seu olhar encontrou o meu imediatamente, e sua expressão fechada mudou sutilmente ao notar o estado em que eu estava.
— Luísa?
Eu m*l conseguia processar a voz dele. Meu coração martelava, e minha respiração estava curta, como se eu tivesse corrido uma maratona.
Apolio franziu o cenho, desviando o olhar para a porta do quarto onde Josh estava com Charlotte. Ele pareceu entender a situação rápido demais.
Sem dizer nada, ele segurou meu pulso e me puxou suavemente pelo corredor.
— Vem comigo.
Não resisti.
Deixei que ele me guiasse para longe, atravessando a casa cheia de gente até chegarmos ao terraço. Era um espaço amplo, iluminado apenas por algumas luzes fracas e pela cidade brilhando ao fundo. Havia um sofá grande no canto, cercado por algumas plantas, um lugar tranquilo longe do barulho infernal da festa.
Ele me soltou assim que chegamos, e eu me afundei no sofá, sentindo minhas pernas trêmulas.
Apolio ficou de pé por um momento, me observando antes de se sentar ao meu lado. Seu olhar intenso parecia me estudar, mas ele não perguntou nada. Esperou.
Respirei fundo e fechei os olhos por um instante, tentando colocar em palavras o que acabara de acontecer.
— Você conhece alguma Charlotte? — Perguntei, enfim, sem rodeios.
Apolio apoiou os antebraços nos joelhos, entrelaçando os dedos. Ele não parecia surpreso com a pergunta.
— Sim. — Ele assentiu lentamente. — Desde a infância.
Engoli em seco.
— Quem é ela?
—Charlotte é nossa prima. — Ele deu de ombros. — Eu não sabia que ela viria aqui, e muito menos que você existia, na verdade ninguém sabe.
Meus dedos apertaram o tecido da minha saia.
Então eu era uma mentira e Charlotte que era a verdade.
Fechei os olhos por um instante, tentando ignorar a dor que crescia no meu peito.
— Eu a vi chegando na festa. Ela parecia estar procurando por alguém… — Respirei fundo antes de continuar. — Ela encontrou Josh. Puxou ele para um dos quartos. Eu segui e…
Minha voz falhou.
Apolio não disse nada, apenas me observou enquanto eu reunia forças para falar.
— Eu ouvi tudo. Ela perguntou por que ele estava sumido. Disse que brigaram há dois dias e veio aqui para resolver as coisas com ele. Perguntou se eles ainda tinham chance…
Apoiei o rosto nas mãos.
— Josh me traiu, Apolio.
Aquelas palavras me atingiram como um golpe. Dizê-las em voz alta tornava tudo ainda mais real.
Apolio permaneceu em silêncio por alguns segundos. Mas quando falou, sua voz foi baixa e calma.
— Surpresa para mim não é saber disso.
Ergui o rosto para encará-lo.
Ele me olhava com um misto de seriedade e algo mais… algo que eu não conseguia decifrar.
— Surpresa para mim foi vir ao Texas e encontrar Josh vivendo outra realidade.
Franzi o cenho.
— Como assim?
Apolio soltou um suspiro, recostando-se no sofá. Ele parecia medir as palavras antes de falar.
— Eu conheço Josh a minha vida inteira. A gente cresceu nos mesmos círculos, foi às mesmas festas, conheceu as mesmas pessoas. — Ele fez uma pausa. — E acredite… o Josh que conheço não é o cara perfeito que ele finge ser aqui.
Meu estômago se revirou.
— Como assim?
Ele me olhou nos olhos.
— Eu sabia que Josh nunca foi o cara mais fiel do mundo. Mas não sabia que ele tinha chegado ao ponto de manter dois relacionamentos em duas cidades diferentes.
Virei o rosto para a cidade, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair.
— Eu fui uma i****a.
— Não. — A voz de Apolio saiu firme. — Ele que é um i****a por achar que poderia manter esse jogo para sempre.
O vento frio da noite tocou minha pele, e um silêncio pesado se instalou entre nós. Eu ainda não sabia como lidar com tudo aquilo.
A única certeza que eu tinha era que, a partir dessa noite, nada mais seria o mesmo.