Capítulo 2

1243 Words
Luísa O sol começava a se pôr quando eu e Josh finalmente saímos do supermercado, empurrando dois carrinhos transbordando de comida. A festa da noite prometia ser caótica, como todas as festas organizadas por Ashley, mas essa tinha um agravante especial: meu aniversário e a chegada do irmão de Josh. Uma dupla de motivos para o Texas inteiro aparecer. O plano era simples: meus pais só voltariam no domingo, o que nos dava tempo de arrumar tudo antes que eles suspeitassem de qualquer coisa. E quando se tratava de festas organizadas pela minha melhor amiga, não era exagero dizer que esconder provas seria essencial. — Eu não quero nem imaginar o que vai acontecer nessa festa, — murmurei, empurrando meu carrinho pelo estacionamento. Josh riu baixo ao meu lado, jogando as chaves do carro entre os dedos. — Ashley promete que essa será a pior de todas. E, sinceramente? Eu acredito nela. Eu sabia exatamente o que ele queria dizer. As festas da Ash eram lendárias. O tipo de evento que começava com um grupo seleto de amigos e terminava com a cidade inteira dentro da casa dela — ou, nesse caso, da minha. Era quase certo que a polícia apareceria tentando acabar com tudo… e que sairia ainda mais bêbada do que os convidados. Dessa vez, porém, Ashley jurou que queria mais. — Ela disse que quer o FBI. Você tem noção disso? — Revirei os olhos, jogando alguns pacotes de salgadinhos no banco de trás do carro. — Essa garota é louca. Josh deu de ombros, como se não estivesse minimamente preocupado. — Ela tem potencial para isso. Suspirei, fechando o porta-malas com um estalo. — O que você acha que vai rolar hoje? — perguntei, cruzando os braços e olhando para ele com seriedade. Meu namorado se apoiou no carro, os braços cruzados e um sorriso de canto no rosto. — Bom… eu provavelmente vou ter que subornar policiais para que não sejamos obrigados a embebedá-los dessa vez. Franzi a testa, analisando-o. Josh sempre falava sobre isso com tanta naturalidade que às vezes me assustava. Ele era muito conhecido no Texas — e não apenas porque era advogado. Acontecia que, ao longo dos anos, ele havia resolvido uma quantidade absurda de casos envolvendo policiais corruptos, principalmente aqueles que batiam em suas mulheres e filhos. Sim, os mesmos homens que deveriam proteger suas famílias. — Do que adianta ser policial se não protege a própria casa? — murmurei, mais para mim do que para ele. Josh soltou um suspiro pesado antes de abrir a porta do motorista. — Isso nunca vai mudar, Luísa. Subi no carro e encostei a cabeça no banco. Eu sabia que ele estava certo, mas não queria pensar nisso agora. Meu maior problema no momento era outro. — Não quero problemas para mim. — Cruzei os braços, apertando o cinto de segurança. — Se meu nome for parar em algum lugar, eu perco minha bolsa de artes. E esse era um problema real. Eu sabia que minha bolsa na faculdade era a única coisa que garantiria minha independência no futuro. Meu pai sempre me apoiou, mas minha mãe… bom, minha mãe esperava que eu seguisse outro caminho. Algo mais “sólido”. Algo que não fosse arte. Se eu perdesse essa bolsa, perderia minha única chance de provar que podia fazer isso sozinha. Josh desviou os olhos da estrada por um segundo para me encarar, a expressão tranquila. — Luísa, você precisa relaxar. Se continuar assim, vai acabar enlouquecendo. Respirei fundo, tentando acalmar a ansiedade crescendo no meu peito. Ele tinha razão. Eu sempre ficava assim antes de alguma festa da Ash. Mas dessa vez parecia diferente. Eu estava com um pressentimento estranho. Talvez fosse o fato de que a cidade inteira sabia que essa festa aconteceria. Ou talvez fosse o irmão de Josh, que eu nunca havia conhecido e que, de repente, decidiu aparecer justamente agora. Seja o que fosse, algo me dizia que essa noite não seria como as outras. Olhei para Josh, observando como ele dirigia com facilidade, os dedos relaxados no volante, o rosto calmo. Só sua presença já era suficiente para me trazer um pouco de paz. Passei a mão pelos seus cabelos, sentindo a textura macia entre os dedos. — Eu te amo. Josh sorriu, sem tirar os olhos da estrada, mas segurei o sorriso de volta. Porque, pela primeira vez, eu não sabia se isso seria o suficiente. O céu já estava escuro quando terminamos de organizar tudo para a festa. As luzes ao redor da piscina iluminavam o quintal, e caixas de som já estavam posicionadas para garantir que a música fosse ouvida até na casa dos vizinhos mais distantes. A casa estava impecável — pelo menos por enquanto. Mas eu sabia que, dentro de poucas horas, tudo isso se tornaria um verdadeiro caos. Ashley chegou cedo, como sempre. E, como sempre, parecia prestes a causar problemas. — Ok, preciso saber… você está preparada para a melhor noite da sua vida? — Ela me perguntou com aquele brilho travesso nos olhos, segurando um cooler cheio de garrafas. Suspirei, cruzando os braços. — Você quer dizer a pior, né? Ela riu, me abraçando com força. — Relaxa, Luísa. Eu prometo que, dessa vez, ninguém vai ser preso. Eu quero que essa seja uma noite para a história. Josh apareceu ao nosso lado, segurando uma garrafa de cerveja e sorrindo de forma presunçosa. — O FBI já confirmou presença, Ash? — Ainda não, mas estou esperando. Revirei os olhos enquanto Ashley e Josh gargalhavam. Para eles, tudo era motivo de diversão. Eu, por outro lado, ainda estava preocupada com minha bolsa de estudos e a possibilidade de tudo sair do controle. — Falando em convidados ilustres… — Josh murmurou, olhando para a entrada da casa. Segui seu olhar e vi um homem alto, de cabelos escuros e postura impecável entrando no quintal. Ele usava uma jaqueta de couro sobre uma camisa escura, e sua expressão era fechada, como se analisasse cada detalhe ao redor antes de decidir se valia a pena ficar. O irmão de Josh. Apolio. Ele não se parecia em nada com o Josh, pelo menos não no jeito de se portar. Enquanto meu namorado era descontraído, sempre sorrindo e agindo como se o mundo fosse seu parque de diversões, Apolio parecia ser o completo oposto. Sério. Reservado. Intimidante. — Ah, então ele realmente existe. — Ashley sussurrou ao meu lado, tomando um gole do seu drink. Eu não conseguia tirar os olhos dele. Apolio encontrou Josh no meio da multidão e caminhou até nós. Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão firme, e então seus olhos se voltaram para mim. Um arrepio percorreu minha espinha. — Luísa, esse é meu irmão, Apolio. — Josh fez as apresentações, mas senti que ele já tinha percebido a tensão no ar. Apolio me analisou por um segundo que pareceu longo demais. Seus olhos escuros eram intensos, como se enxergassem mais do que eu estava disposta a mostrar. — Feliz aniversário. — Ele disse, sua voz grave e controlada. — Obrigada. — Respondi, um pouco sem graça. Apolio não sorriu. Ele apenas assentiu levemente e virou-se para pegar uma bebida, como se já tivesse cumprido sua obrigação social mínima. Mas, por alguma razão, mesmo quando ele se afastou, eu ainda sentia seu olhar sobre mim. E foi naquele instante que percebi. Essa noite realmente não seria como as outras.
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