Ashley sempre teve esse dom estranho de mastigar o silêncio com os olhos.
Desde a noite anterior, ela não falava muito — apenas digitava, cruzava dados, ou murmurava coisas como “isso não bate” ou “ela fez de novo...”.
Eu observava da mesa da cozinha, com um café frio nas mãos e a cabeça ainda girando pelo encontro com Josh. O gosto do mocha ainda estava na garganta. E o vazio da despedida, grudado no peito.
— Lu. — Ashley chamou, sem desviar os olhos da tela. — Acho que achei o primeiro buraco nessa teia.
— O quê?
— A Clair. Ela já usou outros nomes. Victoria Lemont em 2011, Clara Esteban em 2013. Sempre aparece como relações públicas, sempre entra em empresas grandes com reputação impecável, e sempre... some antes de escândalos.
Fiquei em silêncio.
— Ela não é só manipuladora. Ela é uma estrategista.
Ashley virou a tela para mim.
— Aqui. Foto dela com o CEO da Mavlin Group. Um ano depois, ele foi afastado por assédio e desvio de verba. Ela desapareceu do quadro de funcionários uma semana antes do escândalo estourar. Não foi mencionada em nenhuma investigação.
— Meu Deus… — murmurei.
Ashley virou outra aba.
— E aqui, 2016. Uma fundação filantrópica em Chicago. Mesmo padrão. Mesmo sorriso em eventos. Mesmo sumiço estratégico antes do colapso.
— Ela faz isso de propósito?
— Luísa, essa mulher é uma arquiteta de reputações quebradas. Ela entra, se conecta com o centro do poder — emocional ou estrutural — e quando tudo está prestes a ruir, desaparece limpa. Mas dessa vez… — Ashley fez uma pausa, o olhar afiado. — Dessa vez, ela não quis desaparecer. Ela quis ficar. Controlar.
Minha pele arrepiou.
— E agora ela tá mirando em mim.
Ashley assentiu.
— E já começou.
Ela abriu um link e me mostrou.
Era um post de um blog de “entretenimento investigativo”, um desses que vive de especulações, mas que ainda assim alimenta os curiosos.
“Quem é a morena misteriosa vista com os irmãos Vitti? Fontes afirmam que ela pode ser a responsável pelo distanciamento recente entre os dois. Será que estamos diante de um triângulo explosivo?”
Havia uma foto minha. Na calçada. Ao lado de Apolio, com Josh mais atrás, desfocado.
— Isso... isso saiu hoje? — perguntei, a garganta travada.
— Hoje de manhã. Postaram mais cedo no Twitter, já tem mais de mil curtidas. Estão me marcando nos comentários.
Fechei os olhos. O mundo girou.
— Isso vai crescer, não vai?
— Vai. — Ashley respondeu sem hesitar. — Porque ela quer que cresça. Porque ela quer te isolar. Te colocar no centro da narrativa. Se você vira o foco, ninguém olha pra ela.
Levantei da cadeira. Senti o chão balançar sob meus pés. Andei até a janela. Olhei o céu nublado.
— Eu só queria gostar de alguém. — murmurei. — Foi só isso. Eu não pedi isso. Não pedi a dor. O escândalo. O jogo.
Ashley veio até mim. Colocou a mão no meu ombro.
— Eu sei. Mas agora você precisa decidir: vai ser a vítima da história dela… ou a ruína do enredo que ela construiu.
Fiquei em silêncio.
Ali, diante da cidade que seguia indiferente lá fora, tomei uma decisão silenciosa:
Se ela quer guerra, vai ter. Mas não vai ser só a dela.
Fiquei ali.
Com os olhos grudados na tela.
A foto... a maldita foto. Era do dia em que Josh saiu bêbado da balada. Eu estava ao lado de Apolio, tentando segurar o peso de alguém que não queria ser ajudado.
E agora, ali estávamos nós, congelados num clique fora de contexto, condenados por um enquadramento desonesto.
Passei os dedos pelo rosto, cansada. Tão cansada de ir de um lado para o outro em busca de respostas que ninguém parecia querer me dar. Era como estar num labirinto onde cada pessoa conhecia uma parte da saída — e nenhuma estava disposta a entregar o mapa completo.
Mas então... uma ideia.
Uma lembrança.
Charlotte.
Ela era o ponto em comum. O elo antigo. A peça da história que sempre ficava à margem das conversas. Talvez ela soubesse algo. Talvez quisesse falar. E, se não quisesse… eu faria querer.
Peguei o celular, entrei no perfil de Josh no i********: e comecei a rolar pelos amigos. Alguns nomes eu já conhecia. Outros, não. E então, lá estava: Charlotte Vitti.
A foto de perfil era discreta. Cabelo preso, sem sorrisos. Uma imagem antiga, talvez. Mas era ela.
Toquei em “seguir”.
Escrevi uma mensagem curta, quase formal:
Oi, Charlotte. Eu sei que isso pode parecer estranho, mas será que a gente pode conversar? É importante.
O envio foi como uma fisgada no peito. Deixei o celular de lado, respirei fundo e comecei a mexer a perna, nervosa. Os dedos automaticamente foram até as unhas, que já não tinham mais o que ser roído.
O silêncio parecia eterno.
Até que veio o bip.
Pedido aceito.
Mensagem recebida:
Me mande seu endereço.
__
Menos de uma hora depois, Charlotte estava sentada à minha frente. As duas mãos envolviam a xícara de café, como se buscassem calor, controle, ou os dois.
Ela era diferente do que eu esperava.
Mais discreta. Menos vaidosa. O tipo de mulher que observa antes de falar, que pensa antes de reagir.
E naquele momento, estava me encarando com os olhos semicerrados, como quem pesa o valor de uma palavra antes de decidir se acredita nela.
— Você pode me dizer o que exatamente eu estou fazendo aqui? — ela perguntou, por fim, com a voz tranquila, mas firme.
Assenti devagar.
— Eu vou te contar tudo. E depois... se quiser ir embora, eu entendo.
Então contei.
Contei sobre Josh. Sobre o Texas. Sobre Clair. Sobre a ameaça. Sobre Apolio. Sobre o tabloide. Sobre as fotos. A chantagem. A humilhação.
Não deixei de fora nem o que eu não queria dizer.
Falei como quem tira camadas da própria pele.
Charlotte ouviu tudo em silêncio, o olhar fixo, a boca entreaberta.
Quando terminei, ela repousou a xícara sobre a mesa e ficou quieta por um tempo, assimilando.
— Eu sabia que havia algo errado. — disse, por fim. — Apolio me contou que o casamento dele não era real. Mas nunca disse por quê. Só que… Clair sabe de alguma coisa. Algo que ele não pode arriscar expor. E não é só um caso antigo. É maior. Muito maior.
— Você sabe o que é? — perguntei, esperançosa.
Charlotte balançou a cabeça.
— Não. E acredita em mim… eu tentei descobrir logo quando soube.
— E não conseguiu. – Afirmo com a voz seca.
— Não. Clair é cuidadosa. Inteligente. Do tipo que esconde tudo onde ninguém pensa em procurar.
Eu assenti, sem graça.
— Desculpa te colocar nisso. Eu só… não sabia mais pra onde ir.
Charlotte me encarou por um momento.
E então, pela primeira vez, sorriu de leve.
— Talvez a gente consiga mais juntas do que conseguiu separadas.
O som da porta se abrindo nos interrompeu.
Ashley entrou distraída, o celular na mão. Quando nos viu, parou no meio do corredor, arregalou os olhos.
— Charlotte?!
Ela deixou o celular cair.
— Uau. Tá bom. Eu… vou dar uma volta... ou... fugir do país. Sei lá.
— Ashley... — comecei, mas ela já estava saindo, balançando a cabeça.
— Nada, nada. Eu entendo. Investigação secreta, ligações improváveis. Duas exes aliadas. A nova fase da série. Faz sentido.
A porta bateu atrás dela.
Charlotte riu baixo.
— Ela parece ótima.
— Ela é. — sorri também. — Dramática, mas ótima.
As duas xícaras estavam quase frias, mas continuamos ali, sentadas frente a frente.
Por um instante, naquela mesa improvável, formava-se algo novo:
Uma trégua.
Um acordo silencioso entre duas mulheres que amaram o mesmo homem.