— Tem uma festa hoje à noite. — Charlotte disse, pegando o último gole do café já frio. — Acho que seria... bom sair um pouco do caos. Você e Ashley podiam ir.
— Festa? — repeti, franzindo o cenho. — Eu achava que você era mais... biblioteca e vinho tinto.
Ela riu.
— Também sou. Mas isso não me impede de usar um vestido caro e rir com um prosecco na mão. Além disso... alguém vai estar lá. Alguém que talvez possa te ajudar.
— Quem?
Charlotte apenas sorriu.
— Vai ter que ir pra descobrir.
Ela escreveu o endereço em um guardanapo e me entregou.
— Festa? — Ashley perguntou, esticando a palavra enquanto passava rímel. — E você quer que eu vá junto? Isso é sério?
— É em uma cobertura. Último andar. Luxuosa. Gente podre de rica tentando parecer normal. Tem como ser melhor? — respondi, ajeitando a jaqueta.
Ashley deu um suspiro teatral, mas assentiu.
— Ok. Mas se isso virar filme, quero ser interpretada pela Zendaya.
O prédio era imenso. Vidros espelhados, seguranças com ponto no ouvido, e um elevador que subia direto para a cobertura sem que a gente precisasse apertar botão algum.
— Se esse lugar tiver até cheiro de riqueza, juro que não volto pra casa. — Ashley murmurou.
As portas se abriram.
E, de fato, tinha cheiro de riqueza. E de vinho caro. E de música ambiente que ninguém ouvia de verdade.
Charlotte nos viu assim que entramos. Estava impecável — vestido preto justo, cabelos soltos e um sorriso de quem está exatamente onde deveria estar.
— Vocês vieram! — disse, se aproximando com duas taças na mão. — Estou oficialmente menos entediada.
Nos conduziu até a mesa de bebidas, recheada de rótulos que pareciam falar francês entre si.
— A pessoa que pode te ajudar se chama Max. Primo distante. Mas o que importa mesmo é que ele odeia Josh. Tipo, com gosto. Se ele sentir que você tá em busca de vingança, ele entrega qualquer coisa.
— E você acha que eu sou boa nisso? — perguntei, rindo sem graça.
— Não. — Ashley respondeu, divertida. — Mas eu sou.
Max era exatamente o que Ashley adorava detonar: homem branco, herdeiro, seguro demais, e carente o suficiente para se apaixonar por uma conversa afiada.
Ashley chegou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Pegou uma taça, se apoiou no balcão ao lado dele e disse:
— Sua gravata tá torta. Isso é descuido ou rebeldia?
Ele riu.
Dez minutos depois, estavam rindo juntos.
Vinte minutos depois, Max já estava falando demais.
— Josh sempre foi o queridinho da família. Até trair o próprio irmão com, na época, a noiva dele.
O vinho escorregou pela minha garganta antes da indignação subir.
— Clair? — perguntei, me aproximando.
— Ah, então você sabe quem é a doce Clair. — Max disse, debochado. — Sim. Eles ainda estavam noivos. Josh, como sempre, fez m***a. E Apolio, como sempre, engoliu seco. Desde então, se odeiam cordialmente.
— E por que você nunca contou isso pra ninguém?
Max bufou.
— Porque eu gosto da minha herança. A minha família deserdaria qualquer um que expusesse isso. A regra deles é clara: a sujeira fica dentro do tapete. Sempre. Eles fazem de tudo pra parecerem intocáveis.
— Mas você odeia o Josh. Por que proteger ele?
— Eu não protejo. Eu desprezo. Mas se eu abrisse a boca… não seria só ele que cairia. Seria eu também. Aqui, o poder é hereditário, mas a desgraça é coletiva.
Ashley deu um gole na bebida.
— E o Apolio? Onde ele entra nisso, ele não fez nada contra o Josh?
Max soltou uma risada curta.
— Ele é bom. Muito bom... em apagar os rastros do irmão. Melhor ainda em apagar os próprios. Ele desapareceu por um ano depois que essa traição ocorreu, imaginam onde ele estava?
Negamos com a cabeça.
— Cassinos clandestinos. Apostava até os sapatos. Quase perdeu toda a fortuna. O meu tio, Bruce, teve que limpar tudo por baixo dos panos. Do nada Apolio voltou imponente, casado com Clair e ninguém entendeu nada. Se não fosse o pai deles, Apolio estaria muito ferrado.
Fiquei em silêncio.
— Josh acredita que Apolio é perfeito. — sussurrei.
Max virou a taça, vazio de qualquer remorso.
— E talvez precise continuar acreditando. Porque se deixar de acreditar... não sobra nada.
A festa seguiu ao redor. Gente rindo, brindando, dançando.
Mas dentro de mim, o silêncio era ensurdecedor.
A família Vitti não era só imperfeita.
Era apodrecida por dentro.
E, de alguma forma… eu estava presa nesse banquete de venenos.
Me afastei da mesa de bebidas, deixando Ashley e Max rindo de alguma piada que eu nem tinha escutado direito.
Atravessei o salão até alcançar uma das laterais da cobertura, de onde a cidade se estendia iluminada até onde meus olhos podiam alcançar. No caminho, peguei um copo de whisky — só pra ter algo nas mãos. Mas o gosto queimava mais do que eu estava preparada para aguentar.
O vento lá em cima era forte. Levava meu cabelo dos ombros, agitava o tecido do meu vestido e fazia minha pele arrepiar. Mas o frio real... estava dentro. Nas coisas que eu não sabia nomear. No peso do que eu tinha descoberto. Do que eu ainda não sabia.
Olhei para baixo. A cidade parecia pequena. Como se a vida lá embaixo fosse simples, contornável. E eu, aqui em cima, enfiada num enredo que não fazia mais sentido. Pensei em tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. Pensei em Josh. Em Apolio. Em Clair. Em como teria sido mais fácil simplesmente... dizer não. Lá atrás.
Se eu pudesse voltar no tempo… eu voltaria. Voltaria e me esconderia de tudo isso. Voltaria para uma vida sem perguntas. Sem promessas. Sem ilusões.
Foi quando senti.
Uma presença atrás de mim.
E então, a voz:
— Pensando em pular?
A voz era baixa, rouca, conhecida.
Meu coração apertou, mas foram as minhas pernas que reagiram primeiro — arrepiando como se reconhecessem antes mesmo da mente compreender.
Virei devagar.
E lá estava ele.
Apolio.
O cabelo bagunçado, o rosto com aquela expressão exausta que ele tentava disfarçar com charme. E os olhos... os olhos estavam mais escuros do que o normal. Mais profundos.
Não disse nada de imediato. Só olhei pra ele. Surpresa, sim. Mas não exatamente feliz.
— O que você tá fazendo aqui? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Ele deu de ombros.
— Charlotte me obrigou a sair de casa. Disse que se eu continuasse preso entre quatro paredes e os próprios fantasmas, ia apodrecer de vez.
Assenti lentamente, levei o copo à boca e dei outro gole. A careta veio antes mesmo de eu conseguir engolir tudo.
Ele soltou uma risada baixa.
— Whisky não é pra todos.
Arqueei uma sobrancelha, irritada.
— E agora você tá rindo de mim? Depois do jeito que me tratou?
A risada sumiu no mesmo segundo. O sorriso desapareceu como se nunca tivesse existido.
Ele ficou sério.
— Eu sei. — murmurou. — Eu… não devia ter feito aquilo. Você não merecia. Nenhum de vocês merece. Essa situação é... insuportável. E quando eu tô sob pressão, quando sinto tudo desmoronando... eu viro o cara que aprendeu que a única forma de manter o controle é mandando nos outros.
— Mas eu não sou alguém em quem você pode mandar. — respondi, encolhendo os ombros, sem conseguir disfarçar o nó na garganta. — Eu não sou sua culpa ambulante. Nem o respiro da sua guerra com Josh. Nem a consequência da sua escolha pela Clair.
Ele me encarou. Por um momento, os olhos dele ficaram presos nos meus.
E então ele riu. Não de deboche. Mas de si mesmo. Um riso contido, quase triste.
— Eu sei disso agora.
Ficamos ali. Nos encarando. Um silêncio estranho se instalou. Não era confortável, mas também não era hostil. Era como se, pela primeira vez, estivéssemos no mesmo lugar. E com as máscaras no chão.
Eu ia dizer alguma coisa. Nem sei o quê. Só sabia que precisava sair alguma coisa da minha boca.
Mas então...
— Acho que temos algo que pode nos ajudar.
A voz de Ashley cortou o momento como uma faca.
Nos viramos juntos.
Ela vinha apressada, o celular na mão, com aquele olhar de quem tinha encontrado uma dinamite em forma de notícia.
— Vocês vão querer ouvir isso.
E, naquele momento, eu soube: a calmaria tinha acabado.