Ashley chegou até nós com o celular ainda em mãos, os olhos brilhando como se tivesse acabado de encontrar ouro — ou dinamite.
— Precisamos sair daqui. – Apolio nos direciona a um quarto no final do extenso corredor. Vocês vão querer ouvir isso — disse, com um sorriso que, em outras circunstâncias, eu chamaria de perverso. Mas ali... era libertador.
Apolio franziu o cenho.
— O que foi?
— Max me contou algo — ela respondeu, ainda tentando controlar o riso, embora a respiração descompassada denunciasse a empolgação.
—Por favor, me diz que é algo. — murmurei, dando um gole final no whisky que já queimava só de olhar.
— É mais do que algo Luisa. Escutem — ela se inclinou um pouco mais, quase como se contasse um segredo de escola — Clair está grávida.
O tempo parou.
Eu pisquei. Apolio não piscou.
— O quê?
— Grávida. Esperando um bebê — Ashley repetiu, cruzando os braços como quem espera a explosão acontecer.
Apolio balançou a cabeça, o cenho franzido de quem teve o chão puxado de repente.
— Isso... isso não pode ser verdade. — disse ele, quase num sussurro.
Ashley soltou uma risada abafada, como se se divertisse com a confusão que tinha acabado de plantar.
— Calma! O bebê não é seu filho.
Ele se virou de uma vez, os olhos arregalados.
— E de quem seria então? — a voz dele parecia mais tensa do que ele gostaria de admitir. — Josh...?
Eu senti meu estômago revirar. Aquela possibilidade me atravessou como uma faca — mesmo eu tentando convencer a mim mesma de que não importava mais.
Ashley balançou a cabeça, ainda sorrindo. Quase se divertindo com o caos que tinha instalado.
— Max. É do Max.
Apolio piscou. Piscou de novo. E então caiu no sofá mais próximo como se o corpo não aguentasse a própria reação.
— Max?! — ele repetiu, rindo. Gargalhando, na verdade. — Isso... isso é melhor do que qualquer coisa que eu poderia ter sonhado!
Ashley assentiu, os braços cruzados, os olhos cheios de vitória.
— Quando ele ficou bêbado, começou a debochar do Josh, dizendo que o “bebê da Clair não seria ruivo como ele”, e então riu de novo, disse que era só questão de tempo até todo mundo saber a verdade. Eu forcei um pouco, fingi que estava chocada, e ele soltou: “eu fiz de propósito, você acha que eu ia perder a chance de engravidar a mulher que destruiu a p***a do meu primo?” — ela imitou o tom arrastado de Max com perfeição.
Eu encarei os dois, sem saber se ria ou se chorava.
— Mas... ela contou pra ele? Ela admitiu que o filho é dele? — perguntei, a voz saindo baixa, como se eu estivesse com medo da resposta.
Ashley assentiu, sentando-se do meu lado.
— Ele descobriu de alguma forma. Questionou ela, e ela não teve como negar. Eu acho que o jogo virou, sabe? Ela que sempre controlou tudo... agora está com medo do Max.
Apolio apoiou os cotovelos nos joelhos e passou as mãos pelos cabelos, ainda rindo, mas com aquele riso nervoso de quem está tentando entender o que fazer com a informação que acabou de receber.
— Isso muda tudo. Se for verdade... Clair não pode mais usar o moralismo, a imagem de esposa perfeita, o controle da narrativa. Ela vai ser a mulher que traiu o próprio marido com o primo dele — ele disse com um tom entre alívio e asco.
— E grávida do primo — Ashley completou, rindo baixo.
Eu só conseguia olhar para eles e pensar que aquilo estava indo longe demais. Que não tinha mais volta. Que a cada camada que caía, mais podre tudo se tornava.
Mas, estranhamente... eu também me sentia mais leve.
Como se finalmente estivéssemos virando a maré.
Apolio levantou, caminhou até mim, os olhos menos sombrios, mais humanos.
— Isso... é a primeira chance real que a gente tem de tirar ela do jogo.
Ele me olhou, sério.
E antes que eu dissesse algo, ele se virou para Ashley:
— A gente precisa de provas. De qualquer coisa. Foto. Exame. Mensagem. O que for.
Ashley assentiu, já digitando no celular.
Eu respirei fundo, sem saber se estava pronta para tudo aquilo.
Mas eu também já não era mais a mesma garota do início.
Eu queria justiça. Eu queria verdade.
E agora, mais do que nunca, eu queria libertar Apolio daquele casamento — e me libertar da história que não era minha, mas que tinham me enfiado à força.
Porque talvez... talvez essa história fosse minha também.
E estava na hora de escrevê-la com as minhas próprias mãos.
O apartamento de Apolio era o mesmo de sempre, mas naquela noite parecia mais frio. Mais cortante. O silêncio das paredes altas era pesado demais, como se o lugar já soubesse que algo estava prestes a ruir.
Clair estava sentada à mesa, mexendo no notebook como se fosse a mulher mais ocupada do mundo — como se tudo estivesse sob controle.
Assim que nos viu, olhou com desprezo e sarcasmo. Ergueu o queixo, impassível.
— O que ele faz com vocês? — perguntou, sem disfarçar o desdém. — Achei que já tivéssemos conversado sobre isso, Apolio.
Ele não respondeu de imediato.
Pediu, com um gesto sutil, que entrássemos. Ashley passou primeiro. Eu fui atrás, sentindo o coração bater nas costelas como se tentasse fugir de mim.
Apolio se aproximou de Clair com uma calma que me arrepiou.
Estava com as mãos para trás, como um lobo controlando os instintos.
Sentou-se ao lado dela, com a delicadeza de quem oferece flores — e um sorriso gentil que, vindo dele, soava completamente falso. Mas perigoso.
Eu e Ashley trocamos olhares rápidos. Aquilo era um jogo, e ele estava apostando alto.
— Grávida, Clair? Jura? — ele disse com uma voz serena, quase doce. — Você foi tão burra assim?
Clair soltou uma risada breve, sarcástica, mas hesitou.
— De onde você tirou isso? — franziu a testa, tentando manter a pose, mas já menos segura.
Apolio se levantou devagar, foi até o bar e se serviu de whisky com a tranquilidade de quem tem todas as cartas nas mãos.
— Quem é o pai, Clair? Eu sei que não sou eu. Com quem você fodeu?
A palavra saiu seca. E doeu em mim. Corei instantaneamente, desviando o olhar. Ashley percebeu e riu baixinho, como se estivesse achando tudo deliciosamente desconfortável.
Apolio continuou, como se não tivesse dito nada demais:
— Deixe-me adivinhar... — sua voz assumiu um tom cantado — Max?
Clair se levantou de uma vez, batendo as mãos na mesa.
— Você enlouqueceu?! Está completamente fora de si?!
Mas ele só negou com a cabeça, como se estivesse diante de uma criança teimosa.
— Isso... eu posso expor. — sua voz baixou, grave, como uma ameaça disfarçada de constatação. — Isso eu posso mostrar pro mundo. E adivinha, Clair? Vai ser o seu nome que vai sair em todas as manchetes. A esposa traidora. A esposa mentirosa. A esposa que engravidou do primo do marido.
Ela empalideceu.
Por um segundo, o mundo parou.
A mulher de ferro titubeou.
E eu... eu vi.
Vi que aquela era a primeira rachadura.
Ashley cruzou os braços, firme. Eu segurei meu próprio braço com força, como se estivesse me protegendo de algo invisível.
Apolio se aproximou mais dela, os olhos cravados como lâminas.
— Solte minha família. Saia da minha vida. Ou isso vira público. Você me conhece, Clair. Sabe que, se eu cair, te levo junto. Mas ao contrário de você... eu não tenho nada a perder.
A respiração dela estava descompassada.
Ela não disse nada.
Nem precisava.
A guerra estava apenas começando. Mas, pela primeira vez... nós tínhamos uma arma.
E eu estava pronta para usá-la.