— Eu vou te dar até amanhã para arrumar suas coisas e sumir da minha vista, Clair. Acabamos por aqui. — Apolio declarou, com a voz firme e o olhar impenetrável, antes de virar as costas e sair de perto dela.
Clair riu. Aquela risada debochada que fazia o sangue ferver. Era como se realmente acreditasse que aquilo não poderia ter fim.
— Claro, querido. Eu vou te dar esse tempo… Mas não se preocupe. Eu volto. Quando seu sono estiver tranquilo, eu volto como um pesadelo. — disse, lançando um último olhar venenoso antes de desaparecer pelo corredor.
Apolio balançou a cabeça, incrédulo.
— Vamos. Vou deixar vocês em casa.
— O quê? — Ashley resmungou. — Eu preciso de álcool. Tipo… agora.
Levantei a mão, em plena solidariedade.
— Concordo.
Apolio ergueu as sobrancelhas, como quem já esperava por isso. Pegou as chaves do carro sem dizer uma palavra, e o seguimos, como duas adolescentes após um péssimo dia de aula.
Paramos em um pub. O som de música eletrônica vibrava pelas paredes, o tipo de coisa que deixava Ashley instantaneamente animada. Ela entrou no lugar praticamente dançando, e quando viu a pista de dança, foi como se o mundo tivesse se reorganizado.
Ficamos parados, eu e Apolio, lado a lado.
— Dessa vez vou te oferecer cerveja — disse ele, com um meio sorriso.
Assenti, tentando conter a tensão e dar espaço ao alívio que aquela noite pedia. Fomos até o balcão. O lugar estava cheio, mas Apolio parecia ser uma figura conhecida. O bartender, sem sequer perguntar, colocou um copo de uísque em sua frente.
— Uma cerveja para ela, por favor — ele pediu, apontando para mim.
O primeiro gole foi quase um abraço. O líquido gelado desceu como uma trégua. Suspirei. Meus ombros relaxaram pela primeira vez em horas. Virei o copo e pedi mais um.
— Max… — comecei, mas a palavra morreu na garganta.
Apolio virou o rosto para mim, atento. Analisava cada nuance da minha expressão, como se quisesse adivinhar o que se escondia atrás da minha pausa. Balançou a cabeça em negativa.
— Imagino que não tenha sido só sobre o Josh que o i****a falou. — Ele virou o uísque de uma vez, como se aquilo fosse água. Eu me perguntava como ele conseguia. — O que você quer saber?
— Por quê? Isso… isso não parece com você.
Ele soltou uma risada breve, carregada de ironia.
— Você não pode afirmar isso, Luísa. Nós m*l nos conhecemos.
As palavras não foram duras, mas atingiram como um t**a calmo no meio do rosto. Engoli em seco e assenti. Ele notou.
Respirou fundo e, num tom quase teatral, disse:
— Tudo bem. Olá, me chamo Apolio. Tudo bem?
Ri, mesmo sem saber se estava sendo zoada.
— Eu sou Luísa. E é sério que você aborda mulheres desse jeito?
Ele franziu levemente o cenho.
— Não. Quer dizer… eu quis perguntar se essa é a sua forma de ser cordial com alguém? — completei, meio atrapalhada.
— Estamos nos conhecendo, certo? Bom… minha bebida favorita é uísque. E a sua?
— Cerveja. Mas… tô aberta a novas experiências — respondi, erguendo meu copo num brinde improvisado.
— A noite ainda é jovem, Luísa. Cuidado com o que deseja.
Revirei os olhos.
— Você sempre fala como se estivesse em um filme noir dos anos 40?
— Talvez. Ou talvez eu só esteja interpretando papéis pra não mostrar quem eu realmente sou.
— Ah… o clássico homem misterioso com feridas internas e frases de efeito. Já vi esse filme.
— E qual foi o final? — perguntou, com um sorriso torto.
— Ela se ferrou. Mas foi divertido enquanto durou.
Ele riu de verdade. Pela primeira vez naquela noite. E parecia até mais bonito rindo.
Ashley reapareceu com dois shots nas mãos e a maquiagem derretendo de tanto dançar.
— Isso aqui tá parecendo episódio de drama romântico que só vai se resolver no último capítulo. Tomem tequila, seus emocionados!
Aceitamos. Por que não?
— Luísa — Apolio disse, mais sério. — Cuidado comigo.
Olhei fundo nos olhos dele.
— Eu não tenho medo.
Mentira. Mas eu disse com tanta firmeza que quase acreditei. E, por algum motivo, ele também acreditou.
A noite ainda não tinha acabado. E, no fundo, eu sabia: nada seria mais igual depois dela.
Eram quase quatro da manhã quando saímos do pub. Surpreendentemente tarde para Nova York, já que todos diziam que as festas por aqui morriam antes da primeira badalada da madrugada.
Ashley estava jogada no banco de trás, completamente entregue ao álcool e à pista de dança que tinha dominado horas antes. Eu me sentei no banco da frente ao lado de Apolio, e, entre risadas silenciosas, virei para trás, fotografando a cena. Ashley roncava com a boca entreaberta. Aquilo definitivamente renderia boas risadas pela manhã — ou boas ameaças, dependendo do humor dela.
— E você? Onde pretende dormir? — perguntei, tentando parecer casual.
— Todos os meus apartamentos foram corrompidos por aquela miserável — respondeu, sem nem piscar. — Não sei… acho que vou pra algum hotel.
Soltei antes que pudesse pensar.
— Você pode dormir lá em casa, se quiser.
Minhas palavras saíram como um tropeço. Fechei a boca imediatamente, como quem tenta puxar de volta algo já dito. Virei o rosto para a janela, esperando que o vidro me engolisse.
— Claro. Me pouparia um estresse.
Assenti, ainda sem coragem de encará-lo. O coração disparado. A cabeça, um caos.
Chegamos ao meu prédio. Apolio saiu do carro e, sem que eu precisasse pedir, pegou Ashley no colo como se ela fosse uma boneca de pano. Seus braços eram firmes, os movimentos, cuidadosos. Ele a colocou no sofá com delicadeza e me olhou como quem perguntava “e agora?”.
— Vamos. Tem um sofá no meu quarto… Eu durmo nele — anunciei, chutando os sapatos para qualquer canto.
— Tudo bem — ele respondeu. — Eu durmo no sofá.
— Você precisa de algo? Um banho? Alguma bebida?
Apolio me encarou dos pés à cabeça. Senti meu rosto esquentar.
Aquela situação era insana. Eu havia acabado de sair de uma das noites mais confusas da minha vida, e ali estava eu… oferecendo abrigo ao ex-marido da mulher que, até ontem, eu nem sabia que existia.
Apolio era um contraste completo de Josh. Sua presença era mais pesada, mais densa. Seus olhos escuros carregavam algo que eu não sabia decifrar — talvez raiva, talvez desejo, talvez só exaustão. Seus lábios eram rosados, quase suaves demais para um homem com aquele semblante duro. Ele vacilou um passo em minha direção, mas seus ombros permaneceram rígidos.
Eu não sabia se queria fugir ou ficar parada.
— Posso tomar banho? — ele perguntou, a voz rouca.
— Claro — respondi, quase engasgada. Fui até o armário do corredor, peguei uma toalha limpa e entreguei a ele.
Enquanto ele tomava banho, aproveitei para transformar o sofá-cama em algo remotamente confortável. O móvel tinha só duas divisórias, e Apolio, bem… não era exatamente pequeno. Ri sozinha, imaginando ele tentando caber ali.
Minutos depois, ele apareceu. Só de toalha. Me virei de supetão, arregalando os olhos.
— Você não tem outra roupa, tem? — perguntei, tentando parecer natural. Ele apenas balançou a cabeça. Lembrei, então, de uma gaveta que ainda guardava roupas antigas do meu pai. Revirei tudo até achar um short que talvez coubesse. — Aqui. Fique à vontade. Eu vou tomar o meu banho agora.
Fiquei mais tempo que o necessário no chuveiro. Talvez por medo de voltar. Talvez por não saber o que fazer quando saísse. Quando finalmente saí, estava enrolada em uma toalha, com o cabelo molhado e uma confusão na cabeça. Abri o guarda-roupa e comecei a procurar uma blusa qualquer para vestir.
Então ouvi um pigarro atrás de mim.
— p**a m***a! — exclamei, pulando para trás.
Havia me esquecido completamente dele ali. O banho foi tão demorado que eu genuinamente achei que tudo tinha sido só um devaneio.
— Não se incomode… pode continuar — disse ele, com um sorriso debochado.
— De jeito nenhum! — agarrei a blusa mais próxima, cobrindo o corpo, e corri para o banheiro feito uma adolescente desesperada. Me troquei às pressas, voltei para o quarto e o encontrei sorrindo, como quem tinha acabado de assistir a um ótimo episódio de comédia.
— Por favor, vamos só… dormir — pedi, jogando-me na cama com a dignidade esfarelada.
Alguns segundos depois, ouvi barulhos. Me levantei. Apolio estava tentando, em vão, caber no sofá. Ele se mexia, se encolhia, esticava uma perna e prendia a outra.
— Deita logo aqui — falei, de costas, encarando a parede.
— Tem certeza?
— Você não vai me engolir. — Pelo menos… era o que eu esperava.
Senti o colchão afundar levemente ao meu lado. Apolio se ajeitou, mantendo uma distância respeitosa. O quarto ficou em silêncio. Mas o ar… o ar estava lotado de alguma coisa estranha.
Talvez fosse o fim da guerra. Ou o começo de outra.
Fechei os olhos. Tentei dormir. Mas o som da respiração dele ali tão perto… não deixava.