Capítulo 12

1347 Words
Eu nunca me senti tão deslocada em Nova York como naquele dia. Caminhar pelas ruas movimentadas me dava a estranha sensação de estar em câmera lenta, enquanto o mundo corria. As buzinas, os passos apressados, as conversas em cafés... tudo parecia seguir, enquanto dentro de mim as perguntas se multiplicavam, sufocavam, queimavam. Josh tinha implodido. E Apolio… Apolio talvez fosse o único que ainda não havia explodido — mas era só questão de tempo. Disquei o número dele com o coração acelerado. Chamou três vezes. Quatro. Cinco. Caixa postal. Tentei de novo. Nada. Pensei em voltar para casa. Em desistir. Em deixar cada um afundar no próprio caos e me livrar dessa tempestade que não era minha. Mas eu me importava. E quando a gente se importa, infelizmente, não dá pra simplesmente virar as costas. Fui até o prédio de Apolio. O porteiro me reconheceu de relance e, sem muitas perguntas, me deixou subir. Toquei a campainha uma vez. Nenhuma resposta. Toquei de novo. Foi quando ouvi a maçaneta girar. A porta abriu devagar, e ali estava ele. Camisa preta, mangas dobradas, expressão cansada. Os olhos escuros pareciam ainda mais sombrios que o normal. — Luísa? — ele disse, surpreso. — Aconteceu alguma coisa? Respirei fundo. — Sim. O seu irmão. Ele assentiu, como se já estivesse esperando por isso. Fez sinal para eu entrar. O apartamento estava diferente. Menos bagunçado. — Ele me ligou hoje, em pânico. Disse que alguém o ameaçou. Que ia acabar com ele… com vocês. E depois se recusou a me dizer qualquer coisa. Apolio fechou a porta com cuidado, sem pressa. — Ele disse quem foi? — Não. Só disse que “ela” sabia. Que “ela” ia contar tudo. E que, dessa vez, você não iria salvá-lo. Apolio ficou em silêncio por um momento. Depois caminhou até o bar, serviu dois copos de água — não whisky — e me entregou um. — Obrigado por vir até aqui. — Vim porque ele estava destruído. Ele assentiu. — Josh… tem um talento especial pra autossabotagem. E, ultimamente, tem cavado mais fundo do que nunca. — Ele disse que você sempre o protegeu. Mas que agora, com o que aconteceu, você não vai mais. Apolio virou o copo de água de uma vez só. — Ele está certo. Meu estômago virou. O celular de Apolio vibrou sobre a mesa. Ele olhou a tela, ficou pálido. Atendeu sem dizer uma palavra. — Apolio… — a voz do outro lado era feminina, elegante, e fria como aço polido. Ele apertou o botão do viva-voz. Eu não sabia por que, mas o gesto parecia calculado. A voz continuou: — Vamos ser objetivos. Eu tenho tudo: os documentos, as imagens, as datas. Se eu quiser, Josh vira o rosto de uma reportagem escandalosa ainda hoje. E você sabe como essa cidade é faminta por sangue novo. — A reputação da sua família nunca resistiria. Os contratos cairiam. Os telefones parariam de tocar. E todos vão saber o que vocês são de verdade. — Mas não precisa chegar a isso. Você sabe o que fazer, Apolio. Só continue. Como sempre fez. A ligação caiu. O silêncio que ficou parecia ocupar cada canto da sala. Eu estava de pé, com o coração disparado. — Quem… era ela? — perguntei, sem conseguir disfarçar o tremor na voz. — A mulher que ameaçou vocês? Apolio baixou o celular devagar, como quem carrega dinamite. Ele me olhou. E pela primeira vez desde que nos conhecemos, vi algo nele que nunca tinha visto antes: medo. — Luísa… — ele começou, a voz mais baixa que o habitual. — Aquela mulher... se chama Clair. O nome não me disse nada. — Ok… e… quem é ela? Ele hesitou. Talvez por orgulho. Talvez por vergonha. Talvez porque, naquele momento, dizer aquilo em voz alta fosse como abrir uma ferida que nunca cicatrizou. Mas então ele respondeu: — Ela é minha esposa. Minha cabeça girou. — Esposa…? Mas... você nunca— — Eu não falo sobre ela. Por escolha. E por necessidade. — Ela é a mulher que está ameaçando vocês? — Sim. — E Josh… também a conhece? Ele olhou para o chão. Não disse nada. Não precisou. A ausência de resposta foi resposta suficiente. Meu coração apertou. Não de ciúme — mas de algo muito pior: decepção. Tudo estava desmoronando devagar. E, agora, finalmente, eu via as rachaduras. — A gente precisa conversar. — eu disse, tentando manter a voz firme. — De verdade. Apolio apenas assentiu. Mas dentro de mim, eu já sabia: o que quer que tivesse entre eles três — Apolio, Josh e Clair — era muito maior do que qualquer um estava disposto a admitir. Eu encarei Apolio como se ele tivesse acabado de falar em outra língua. Esposa. Chantagem. Josh. Nada fazia sentido. Nada se encaixava. — Você tá me dizendo que essa mulher que ligou... essa mulher que ameaçou arruinar a vida de vocês todos... é sua esposa? — Exatamente. — Isso é... isso é completamente insano! — dei um passo para trás, levando a mão à cabeça, tentando manter os pensamentos no lugar. — Apolio, eu fui jogada nisso sem entender absolutamente nada. Eu só queria ajudar o Josh. Isso... isso não é meu problema! Ele deu um passo em minha direção, os olhos intensos. — Você tá errada, Luísa. — Não! Não, eu não tô! — minha voz saiu mais alta do que pretendia. — Isso é um pesadelo. Uma novela m*l escrita. Eu m*l conheço você de verdade, e agora tem uma esposa secreta e uma ameaça pública e— — Luísa. — ele me interrompeu, firme, mas sem agressividade. — Você acha que pode sair dessa sem se queimar? Você acha que a Clair vai te deixar fora disso? Ela já sabe quem você é. Ela viu você comigo. E com Josh. — E daí? — Daí que, se ela decidir, sua imagem vai estar estampada em sites de fofoca antes que o sol nasça amanhã. Com manchetes como: “A amante entre dois irmãos”. “A garota que destruiu a família perfeita.” “A mulher por trás do escândalo de uma das firmas mais influentes de Nova York.” Minha respiração falhou. — Você vai ser perseguida em qualquer lugar que for. Jornalistas inúteis te seguindo, te invadindo. Seus amigos vão começar a desconfiar. Sua família vai ser questionada. E tudo isso... sem você nem saber por quê. O silêncio que se seguiu era quase tão violento quanto a ameaça de Clair. — Isso era um problema do Josh. — ele continuou, a voz mais grave agora. — Mas também é seu. Porque você tentou ajudar. Porque você entrou. Porque agora… está aqui. Comigo. Meus olhos marejaram. Parte de mim queria gritar. Outra parte queria simplesmente desaparecer. — E agora também é meu. — ele finalizou, com uma decisão que cortava o ar. — E eu vou resolver isso. Agora mesmo. — Como assim? — A gente vai até ela. — Você tá louco? Apolio, essa mulher acabou de ameaçar você no viva-voz! Ele se aproximou mais, olhando nos meus olhos com uma firmeza que me assustava e, de alguma forma, acalmava. — Justamente por isso. Chega de ser refém nas sombras. Eu quero olhar nos olhos dela e dizer: acabou. Fiquei em silêncio por um momento. Parte de mim dizia para não ir. Para correr. Para sair disso. Mas a outra parte… A outra parte confiava nele. E, talvez, era exatamente isso que Clair queria tirar da gente: a coragem de seguir. — Então vamos. — disse, com a voz trêmula, mas firme. — Vamos acabar com isso. Ele pegou o casaco, checou a chave do carro e abriu a porta. — Ela está no apartamento antigo. Ainda tem as chaves. E ainda pensa que manda. E então, saímos. Naquela noite, enquanto o céu escurecia por cima de Nova York, eu não fazia ideia do que nos esperava. Mas uma coisa era certa: O nome Clair deixaria de ser um sussurro. E se tornaria guerra.
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