Eu nunca me senti tão deslocada em Nova York como naquele dia.
Caminhar pelas ruas movimentadas me dava a estranha sensação de estar em câmera lenta, enquanto o mundo corria. As buzinas, os passos apressados, as conversas em cafés... tudo parecia seguir, enquanto dentro de mim as perguntas se multiplicavam, sufocavam, queimavam.
Josh tinha implodido. E Apolio… Apolio talvez fosse o único que ainda não havia explodido — mas era só questão de tempo.
Disquei o número dele com o coração acelerado.
Chamou três vezes. Quatro. Cinco. Caixa postal.
Tentei de novo.
Nada.
Pensei em voltar para casa. Em desistir. Em deixar cada um afundar no próprio caos e me livrar dessa tempestade que não era minha.
Mas eu me importava.
E quando a gente se importa, infelizmente, não dá pra simplesmente virar as costas.
Fui até o prédio de Apolio. O porteiro me reconheceu de relance e, sem muitas perguntas, me deixou subir.
Toquei a campainha uma vez. Nenhuma resposta.
Toquei de novo.
Foi quando ouvi a maçaneta girar.
A porta abriu devagar, e ali estava ele. Camisa preta, mangas dobradas, expressão cansada. Os olhos escuros pareciam ainda mais sombrios que o normal.
— Luísa? — ele disse, surpreso. — Aconteceu alguma coisa?
Respirei fundo.
— Sim. O seu irmão.
Ele assentiu, como se já estivesse esperando por isso.
Fez sinal para eu entrar.
O apartamento estava diferente. Menos bagunçado.
— Ele me ligou hoje, em pânico. Disse que alguém o ameaçou. Que ia acabar com ele… com vocês. E depois se recusou a me dizer qualquer coisa.
Apolio fechou a porta com cuidado, sem pressa.
— Ele disse quem foi?
— Não. Só disse que “ela” sabia. Que “ela” ia contar tudo. E que, dessa vez, você não iria salvá-lo.
Apolio ficou em silêncio por um momento. Depois caminhou até o bar, serviu dois copos de água — não whisky — e me entregou um.
— Obrigado por vir até aqui.
— Vim porque ele estava destruído.
Ele assentiu.
— Josh… tem um talento especial pra autossabotagem. E, ultimamente, tem cavado mais fundo do que nunca.
— Ele disse que você sempre o protegeu. Mas que agora, com o que aconteceu, você não vai mais.
Apolio virou o copo de água de uma vez só.
— Ele está certo.
Meu estômago virou.
O celular de Apolio vibrou sobre a mesa.
Ele olhou a tela, ficou pálido. Atendeu sem dizer uma palavra.
— Apolio… — a voz do outro lado era feminina, elegante, e fria como aço polido.
Ele apertou o botão do viva-voz. Eu não sabia por que, mas o gesto parecia calculado.
A voz continuou:
— Vamos ser objetivos. Eu tenho tudo: os documentos, as imagens, as datas. Se eu quiser, Josh vira o rosto de uma reportagem escandalosa ainda hoje. E você sabe como essa cidade é faminta por sangue novo.
— A reputação da sua família nunca resistiria. Os contratos cairiam. Os telefones parariam de tocar. E todos vão saber o que vocês são de verdade.
— Mas não precisa chegar a isso. Você sabe o que fazer, Apolio. Só continue. Como sempre fez.
A ligação caiu.
O silêncio que ficou parecia ocupar cada canto da sala.
Eu estava de pé, com o coração disparado.
— Quem… era ela? — perguntei, sem conseguir disfarçar o tremor na voz. — A mulher que ameaçou vocês?
Apolio baixou o celular devagar, como quem carrega dinamite.
Ele me olhou.
E pela primeira vez desde que nos conhecemos, vi algo nele que nunca tinha visto antes: medo.
— Luísa… — ele começou, a voz mais baixa que o habitual. — Aquela mulher... se chama Clair.
O nome não me disse nada.
— Ok… e… quem é ela?
Ele hesitou.
Talvez por orgulho. Talvez por vergonha.
Talvez porque, naquele momento, dizer aquilo em voz alta fosse como abrir uma ferida que nunca cicatrizou.
Mas então ele respondeu:
— Ela é minha esposa.
Minha cabeça girou.
— Esposa…? Mas... você nunca—
— Eu não falo sobre ela. Por escolha. E por necessidade.
— Ela é a mulher que está ameaçando vocês?
— Sim.
— E Josh… também a conhece?
Ele olhou para o chão. Não disse nada.
Não precisou.
A ausência de resposta foi resposta suficiente.
Meu coração apertou. Não de ciúme — mas de algo muito pior: decepção.
Tudo estava desmoronando devagar.
E, agora, finalmente, eu via as rachaduras.
— A gente precisa conversar. — eu disse, tentando manter a voz firme. — De verdade.
Apolio apenas assentiu.
Mas dentro de mim, eu já sabia: o que quer que tivesse entre eles três — Apolio, Josh e Clair — era muito maior do que qualquer um estava disposto a admitir.
Eu encarei Apolio como se ele tivesse acabado de falar em outra língua.
Esposa. Chantagem. Josh.
Nada fazia sentido. Nada se encaixava.
— Você tá me dizendo que essa mulher que ligou... essa mulher que ameaçou arruinar a vida de vocês todos... é sua esposa?
— Exatamente.
— Isso é... isso é completamente insano! — dei um passo para trás, levando a mão à cabeça, tentando manter os pensamentos no lugar. — Apolio, eu fui jogada nisso sem entender absolutamente nada. Eu só queria ajudar o Josh. Isso... isso não é meu problema!
Ele deu um passo em minha direção, os olhos intensos.
— Você tá errada, Luísa.
— Não! Não, eu não tô! — minha voz saiu mais alta do que pretendia. — Isso é um pesadelo. Uma novela m*l escrita. Eu m*l conheço você de verdade, e agora tem uma esposa secreta e uma ameaça pública e—
— Luísa. — ele me interrompeu, firme, mas sem agressividade. — Você acha que pode sair dessa sem se queimar? Você acha que a Clair vai te deixar fora disso? Ela já sabe quem você é. Ela viu você comigo. E com Josh.
— E daí?
— Daí que, se ela decidir, sua imagem vai estar estampada em sites de fofoca antes que o sol nasça amanhã. Com manchetes como: “A amante entre dois irmãos”. “A garota que destruiu a família perfeita.” “A mulher por trás do escândalo de uma das firmas mais influentes de Nova York.”
Minha respiração falhou.
— Você vai ser perseguida em qualquer lugar que for. Jornalistas inúteis te seguindo, te invadindo. Seus amigos vão começar a desconfiar. Sua família vai ser questionada. E tudo isso... sem você nem saber por quê.
O silêncio que se seguiu era quase tão violento quanto a ameaça de Clair.
— Isso era um problema do Josh. — ele continuou, a voz mais grave agora. — Mas também é seu. Porque você tentou ajudar. Porque você entrou. Porque agora… está aqui. Comigo.
Meus olhos marejaram. Parte de mim queria gritar. Outra parte queria simplesmente desaparecer.
— E agora também é meu. — ele finalizou, com uma decisão que cortava o ar. — E eu vou resolver isso. Agora mesmo.
— Como assim?
— A gente vai até ela.
— Você tá louco? Apolio, essa mulher acabou de ameaçar você no viva-voz!
Ele se aproximou mais, olhando nos meus olhos com uma firmeza que me assustava e, de alguma forma, acalmava.
— Justamente por isso. Chega de ser refém nas sombras. Eu quero olhar nos olhos dela e dizer: acabou.
Fiquei em silêncio por um momento.
Parte de mim dizia para não ir. Para correr. Para sair disso.
Mas a outra parte…
A outra parte confiava nele.
E, talvez, era exatamente isso que Clair queria tirar da gente: a coragem de seguir.
— Então vamos. — disse, com a voz trêmula, mas firme. — Vamos acabar com isso.
Ele pegou o casaco, checou a chave do carro e abriu a porta.
— Ela está no apartamento antigo. Ainda tem as chaves. E ainda pensa que manda.
E então, saímos.
Naquela noite, enquanto o céu escurecia por cima de Nova York, eu não fazia ideia do que nos esperava.
Mas uma coisa era certa:
O nome Clair deixaria de ser um sussurro.
E se tornaria guerra.