A mensagem ainda estava ali, brilhando na tela do celular:
“Você precisa vir. Agora.”
Josh havia desligado abruptamente depois de sussurrar, com a voz embargada, que havia feito m***a. Que alguém sabia. Que ele estava ferrado.
Que “ela” sabia.
As palavras não saíam da minha cabeça.
Ashley dirigia com uma mão no volante e a outra segurando um café que ela sequer lembrava de beber. O rádio estava desligado. O silêncio entre nós só não era mais pesado que o aperto no meu estômago.
— Você acha que ele tá em perigo real? — perguntei, com a voz rouca. Não de cansaço, mas de desgaste emocional.
Ashley respondeu sem desviar os olhos da rua:
— Acho que Josh está em perigo desde o dia em que aprendeu a esconder dor com piada.
Fiquei em silêncio.
As luzes da cidade passavam pelos vidros do carro, borradas como se Nova York estivesse chorando com ele. E, de algum modo, comigo também.
Não era medo o que eu sentia.
Era outra coisa. Algo mais profundo. Como se, a cada dia, eu estivesse descobrindo que Josh era menos o homem que conheci e mais um quebra-cabeça montado com peças de mentira e culpa.
Quando a porta do apartamento se abriu, ele parecia outro.
Josh estava descalço, de moletom, com olheiras profundas, os cabelos desgrenhados e os olhos… vazios. Como se ele mesmo tivesse saído do corpo e deixado aquele invólucro bagunçado cuidando da dor.
— Josh... — chamei, mas ele não respondeu.
Ashley entrou atrás de mim e fechou a porta. O silêncio era perturbador. As luzes estavam apagadas, exceto por uma lâmpada fraca da cozinha, que tremeluzia como uma vela prestes a apagar.
— O que aconteceu? — perguntei de novo, me aproximando.
Ele sentou no chão da sala, encostado no sofá, e passou as mãos no rosto com força, como se quisesse arrancar a própria expressão.
— Ela sabe. — ele murmurou. — Ela mandou uma mensagem. Disse que vai contar tudo. Que vai expor meu nome. Que vai acabar comigo… com a empresa… com tudo.
Meu corpo gelou.
— Quem, Josh? Quem vai fazer isso?
Ele apenas balançou a cabeça.
— Não importa. Eu tô acabado de qualquer jeito.
— Para com isso! — minha voz saiu mais alta do que queria. Eu mesma me assustei. — Você me chama aqui no meio do dia, desesperado, diz que fez m***a, que ela sabe, que vai acabar com tudo… e agora quer que eu aceite que não importa?
Ashley ficou em silêncio, observando. Ela sempre sabia quando era hora de deixar que eu falasse.
Josh me olhou então. Pela primeira vez, realmente me olhou.
E aquele olhar… não tinha arrogância, nem charme, nem aquele sorriso malandro que ele usava como armadura.
Só tinha medo. Culpa. E algo que eu odiava reconhecer: vergonha.
— Eu não queria te envolver nisso, Lu. — ele disse, com a voz falhando. — Eu só… não sabia pra quem mais correr.
Eu me ajoelhei diante dele.
— Josh… eu estive do seu lado quando você nem conseguia ficar de pé. Eu me envolvi muito antes de entender no que estava me metendo. Então agora você vai me dizer: quem é essa mulher?
Ele hesitou.
Por um segundo, achei que ele fosse falar.
Mas então… desviou o olhar.
— Eu não posso.
Fechei os olhos, sentindo a raiva subir pelo corpo. Não aquela raiva escandalosa, que grita.
Era a raiva silenciosa. Aquela que se acumula em camadas. A que decepciona mais do que fere.
— Claro que não pode. — murmurei, levantando devagar.
Ashley se aproximou, colocando a mão no meu ombro, como quem segura alguém prestes a cair.
— Luísa… — Josh tentou me chamar.
Mas eu só consegui balançar a cabeça, rindo sem humor.
— Eu não sei se você tá com medo… ou se só tá com medo de que a verdade destrua a imagem que você construiu de si mesmo.
Josh mordeu o lábio inferior, os olhos marejados.
— Eu só queria consertar. Mas acho que é tarde demais.
Me virei de costas para ele, sentindo uma pontada no peito.
Aquela era a pessoa que eu tentei amar.
Aquela era a pessoa que me fez rir, que me fez sentir viva, que me levou a sonhar.
E agora… tudo o que eu via era um homem preso em uma rede de mentiras — e segurando a tesoura para não cortar.
— Você ainda pode tentar. — disse Ashley, antes de sair atrás de mim.
— Mas vai ter que começar sendo honesto com alguém que realmente se importa.
Josh ainda estava no chão, as mãos tremendo, e os olhos presos em algum ponto do carpete, como se tentasse encontrar ali uma resposta ou coragem.
— Vocês não entendem. — murmurou. — Isso… não é só sobre mim.
Ashley e eu nos entreolhamos, ainda paradas na porta. Eu quis dizer que ele estava certo — eu realmente não entendia. Mas me calei.
— A minha família… — continuou, com a voz baixa. — Não é só uma família de advogados. A gente é a reputação. É disso que vivemos. É isso que segura os contratos, os nomes, as portas que se abrem. Cada cliente que senta com a gente espera perfeição. Espera imagem. Controle. Lealdade. Discrição. A gente foi treinado desde criança pra isso.
Ele passou as mãos no rosto, tentando conter o cansaço e a vergonha.
— Apolio é o único que nunca erra. O único impecável. Ele é o rosto da família, o orgulho, a blindagem. Eu... — a voz dele falhou — eu já fiz besteira antes. E ele sempre me livrou. Sempre. Desde que eu era moleque. Ele encobriu, pagou, negociou, sustentou minha versão. Quantas vezes? Nem sei mais.
O peso nas palavras dele caía como pedras no chão da sala.
— Mas dessa vez... dessa vez ele não vai. Não pode. Não depois do que eu fiz.
Silêncio.
Ashley cruzou os braços, desconfiada.
— O que você fez, Josh?
Ele balançou a cabeça.
— Não posso dizer.
— Não quer dizer. — corrigi, com a voz mais fria do que pretendia.
Ele me encarou.
— Se isso sair... se alguém descobrir... não é só o meu nome que vai pro ralo. É o da firma. É o do meu pai. É o do Apolio. E, no fundo, eu sei... ele já tá esperando que eu despenque pra ele subir mais um degrau.
Ashley resmungou baixinho:
— O orgulho dessa família deve ser um lugar bem solitário.
Josh não respondeu. E eu percebi que ele não tinha mais nada pra dar.
Não tinha coragem de contar. Não tinha força pra enfrentar. E não tinha mais crédito comigo.
Eu dei um passo para trás.
— Vamos, Ash.
— Lu… — ele tentou.
Eu levantei a mão, parando ele.
— Eu não sou repórter, nem juiz, nem seu irmão. Eu só sou alguém que se importou. E você… preferiu se proteger. Boa sorte com isso.
Ashley apenas lançou um último olhar a ele. Não de pena — mas de exaustão.
Saímos do apartamento e descemos as escadas sem dizer uma palavra.
Já no carro, Ashley quebrou o silêncio:
— Você acha que tem a ver com o Apolio?
— Tem tudo a ver com o Apolio. — respondi, olhando para o celular. — E quer saber? Ele é a única pessoa que ainda pode dizer a verdade, mesmo que doa.
Ashley parou o carro em frente ao meu prédio.
— Vai ligar pra ele?
Assenti.
— Se Josh não vai me contar o que está acontecendo… talvez o irmão dele conte.
Ashley suspirou, destravando as portas.
— Se alguém nesse mundo souber consertar isso, é aquele homem.
Desci do carro e respirei fundo, sentindo o vento da tarde bater no rosto.
O que eu ia dizer para Apolio, eu ainda não sabia.
Mas talvez… eu não precisasse dizer muita coisa.
Talvez ele já soubesse que a verdade estava prestes a explodir.
E que, quando isso acontecesse, ninguém sairia ileso.