Luísa
O sol nasceu enquanto conversávamos, mas não lembro exatamente em que momento meus olhos fecharam. Só sei que, quando acordei, a claridade já estava alta demais para ser cedo.
— Uau. Isso é fofo e patético ao mesmo tempo. — a voz de Ashley me fez abrir os olhos com dificuldade.
Apolio também despertou ao meu lado, o cabelo bagunçado e a expressão confusa. Olhei em volta, percebendo que ainda estávamos na varanda. A garrafa de vinho vazia e a tigela com migalhas entre nós eram provas silenciosas da nossa rendição ao cansaço.
— Bom dia, dorminhocos. — Ashley disse, com um sorriso debochado no rosto e um copo de café na mão. — Já passou do meio-dia, caso tenham interesse em fingir que têm uma rotina funcional.
— Isso é café? — perguntei, ainda com a voz rouca do sono.
— É, mas é meu. Levanta, vai. Josh ainda tá roncando, e eu preciso ir pra casa antes que a minha dignidade expire.
Apolio se espreguiçou e murmurou algo incompreensível, e eu só consegui rir. Pegamos nossas coisas em silêncio, como quem acaba de acordar de um sonho confuso demais para ser explicado.
Ashley me abraçou rapidamente no corredor.
— Se cuida, tá? Me liga quando ele acordar. Quero saber se lembra de ter se declarado pro irmão.
— Pode deixar. — sorri, cansada.
Ela saiu e Apolio desapareceu dentro do quarto dele. Eu apenas respirei fundo e fui embora.
⸻
Em casa
Deitamos na mesma cama. Nossos corpos pareciam exaustos, mas nossas mentes não paravam.
— Você acha que ele tá... bem? — perguntei, olhando para o teto, com os dedos entrelaçados sobre o abdômen.
Ashley, deitada ao meu lado, suspirou.
— Defina “bem”.
— Ele não bebeu daquele jeito por diversão. Algo aconteceu.
— Ou está acontecendo. — ela corrigiu. — Josh não é burro. Ele sabe onde é o limite. E ontem, ele atropelou o limite de ré e com as luzes apagadas.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— O que ele espera? — continuei. — Que alguém salve ele? Que a gente entenda alguma coisa por osmose?
Ashley virou o rosto para mim.
— Talvez ele nem saiba o que quer. Ou talvez esteja esperando que alguém perceba que ele tá gritando por ajuda... sem fazer barulho.
Aquela frase ficou ecoando dentro de mim.
Levantei devagar e fui até a cozinha.
— Vamos cozinhar alguma coisa? — perguntei, tentando mudar o clima.
Ashley sorriu.
— Só se for algo que não exija muito esforço mental.
— Macarrão ao sugo serve?
— Perfeitamente.
Passamos os próximos minutos em silêncio confortável, mexendo o molho de tomate, provando o sal, cuidando da massa, rindo de coisas aleatórias como se fosse domingo e a vida fosse menos complexa.
⸻
A porta do apartamento de Apolio se escancarou sem aviso.
— Olha só quem voltou pra casa. — disse Clair, entrando com um sorriso que não alcançava os olhos, equilibrando caixas nos braços.
Atrás dela, um entregador apareceu trazendo mais duas.
Apolio surgiu no corredor, o rosto ainda marcado pelo sono e pela madrugada m*l dormida.
— O que você está fazendo aqui?
Ela passou direto por ele, sem se incomodar com o tom da pergunta.
— Decorando. Este lugar está... frio. Muito você. Achei que estava na hora de colocar um pouco de nós aqui dentro.
Apolio franziu o cenho, fechando a porta com força.
— A gente não combinou nada disso. Você não pode invadir minha casa desse jeito.
Clair se virou, abrindo uma das caixas. Lá dentro, porta-retratos com fotos dos dois, velas aromáticas em forma de coração, almofadas em tons pastéis e um letreiro de madeira escrito “Home Sweet Home”.
— Ah, amor... não se faz cerimônia entre marido e mulher, né? — ela disse, com um veneno suave escorrendo em cada sílaba.
Ele cruzou os braços, tenso.
— A gente m*l se fala. Você só aparece quando quer causar alguma coisa.
Ela fingiu uma expressão ofendida, mas não conseguiu esconder o brilho de provocação no olhar.
— Nossa, que acusação. Só estou tentando recuperar o que temos. — Ela puxou uma moldura com uma foto dos dois sorrindo em um jantar antigo. — Lembra dessa noite? Você ainda sorria de verdade. Tão diferente de agora.
Apolio respirou fundo, a paciência pendendo por um fio.
— Você quer recuperar alguma coisa ou quer me sufocar? Porque não tem diferença nenhuma entre o que você chama de "amor" e uma campanha de ocupação territorial.
Clair se aproximou, colocando a moldura sobre a estante como se estivesse fincando uma bandeira de conquista.
— Quer saber a verdade? Eu gosto de ver você desconfortável. Gosto de lembrar que, mesmo depois de tudo, eu ainda sou sua esposa. Legalmente. Socialmente. E, se eu quiser, posso sentar no seu sofá e redecorar a sua vida.
Ela deu um passo ainda mais próximo, sorrindo com um toque de crueldade.
— E aquela sua nova amiguinha? A de ontem? Deve ter sido bem interessante pra você sumir a noite inteira. Você vai me contar quem é ou eu preciso perguntar pra vizinhança?
Apolio cerrou os punhos. O coração acelerado, não de nervoso — mas de raiva contida.
— Eu vou dar um jeito de sair disso. Da gente. Desse teatro. Você pode se agarrar ao que quiser, Clair. Mas isso aqui — ele apontou ao redor — não existe mais.
Ela piscou lentamente, como se aquilo fosse apenas mais uma peça no jogo que ela se recusava a perder.
— Boa sorte, então. Mas enquanto não sair oficialmente, esse show ainda é nosso. E eu adoro ser o centro do palco.
Sem mais palavras, ela virou as costas, deixando as caixas espalhadas e o veneno pairando no ar como perfume barato.
Apolio ficou ali, encarando os objetos sobre a estante.
E decidiu que aquilo terminaria.
Em breve.
Luísa
O cheiro do molho de tomate se espalhava pela cozinha, misturado ao som da água fervendo e da voz da Ashley cantarolando alguma música dos anos 2000 que só ela lembrava inteira.
— Você devia ser chef. — comentei, mexendo o macarrão com a colher de p*u.
— Eu sou chef. — ela respondeu com um sorriso convencido. — Só não fui descoberta ainda.
Rimos.
Por um momento, tudo pareceu normal.
Depois de uma madrugada longa, carregada demais, a leveza daquele momento era quase surreal. Era só uma cozinha pequena, duas mulheres de moletom e meia colorida, e um almoço simples.
Mas, ali, aquilo era tudo o que eu precisava.
— Você acha que o Josh lembra de alguma coisa de ontem? — perguntei, colocando os pratos sobre a mesa.
Ashley fez uma careta.
— Duvido. Ele estava mais pra lá do que pra cá. Se lembrar, vai fingir que não aconteceu. É o estilo dele.
— É… — suspirei. — Mas alguma coisa está errada. Muito errada. Não é só álcool. Ele estava tentando esquecer alguma coisa… ou alguém.
Nos sentamos, servimos o macarrão e comemos em silêncio por alguns minutos. Cada uma perdida nos próprios pensamentos.
— Você ainda gosta dele? — ela perguntou, sem olhar pra mim.
Engoli devagar e deixei o garfo no prato.
— Não sei. Acho que… estou começando a conhecer ele de verdade agora. E talvez eu tenha me apaixonado por uma versão que ele mesmo inventou.
Ashley assentiu.
— É. Às vezes a gente se apega mais à ideia do que à pessoa.
Ela disse aquilo com tanta naturalidade que parecia saber exatamente o que estava dizendo.
Terminamos de comer em silêncio. Lavei os pratos enquanto Ashley secava. Depois, nos jogamos no sofá, exaustas e satisfeitas.
Foi aí que meu celular começou a tocar.
Olhei a tela.
Josh.
Recusei a chamada.
Ashley me olhou.
— Vai atender?
— Não. Não tô pronta pra isso agora.
Alguns segundos depois, tocou de novo.
Josh.
Recusei de novo.
— Quer que eu finja que é meu número e diga que você morreu? — Ashley sugeriu, meio séria, meio brincando.
— Tentador.
Mais alguns minutos.
O celular tocou de novo.
Josh.
Dessa vez, ele mandou mensagem:
“Por favor, Luísa. Atende. É sério.”
E então ligou novamente.
E mais uma vez.
A insistência começou a me incomodar. A mão suada, o coração acelerado. Tinha alguma coisa errada.
Muito errada.
Atendi na quinta tentativa.
— Luísa? — a voz dele estava trêmula. Desesperada. — Sou eu. Por favor, me ajuda. Eu fiz m***a. Eu fiz m***a de verdade. Eu não sei o que fazer…
— Josh, o que aconteceu?
Ele respirou fundo do outro lado, como se estivesse engolindo um soluço.
— Ela sabe. Ela descobriu tudo. Eu tô ferrado. A gente tá ferrado. Você precisa vir aqui. Agora.
Antes que eu pudesse perguntar quem era “ela” ou o que ele queria dizer com “descobriu tudo”, a ligação caiu.
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Ashley se aproximou, os olhos arregalados.
— O que foi?
Engoli seco.
— Acho que a noite... ainda não acabou.