Luísa
Apolio chegou rápido. Rápido até demais.
Quando o carro preto dele parou em frente à boate, eu ainda estava tentando segurar Josh em pé, enquanto ele insistia que não precisava de ajuda.
— Eu estou ótimo! — Ele exclamou, levantando os braços de maneira dramática… e quase caindo para trás no processo.
Ashley riu, claramente se divertindo.
— Nossa, se isso é você ótimo, imagina o péssimo.
Apolio saiu do carro com as mãos nos bolsos, parecendo muito menos interessado na cena do que deveria.
— Como sempre, Josh sendo um espetáculo. — Ele murmurou, parando ao meu lado.
— A gente precisa levá-lo para algum lugar. — Falei, ajeitando Josh no meu ombro.
— Casa dele. — Apolio respondeu imediatamente.
Ashley bufou.
— E como a gente vai conseguir levar esse traste até lá?
— Empurrando. — Apolio deu de ombros.
— Que engraçado. — Revirei os olhos.
— Eu sou muito engraçado.
Josh, até então meio apagado, resolveu participar da conversa.
Ele ergueu a cabeça e olhou para Apolio com os olhos pesados de álcool.
E então, de repente, um enorme sorriso bobo se espalhou pelo seu rosto.
— MEU IRMÃO!
Ashley segurou uma gargalhada.
Josh se jogou em Apolio como se fosse um reencontro de anos.
— Cara, eu te amo. De verdade, eu sempre te amei, sabia?
— Não retribuo. — Apolio respondeu sem emoção, tentando afastá-lo.
Mas Josh não estava nem aí.
Ele passou o braço no ombro do irmão e se apoiou nele completamente.
— Você é tão legal. Tipo, muito legal. Mesmo quando a gente briga. Eu juro, eu olho pra você e penso: esse cara é incrível.
Ashley e eu não aguentamos e começamos a rir.
— Eu devia estar gravando isso. — Ela disse entre risadas.
— Sorte sua que não tá. — Apolio rebateu, suspirando.
— Eu posso ficar na sua casa? — Josh perguntou, se balançando para os lados. — Por favor?
— Já estamos indo pra lá mesmo. — Apolio respondeu, finalmente o empurrando para dentro do carro.
E assim, o plano estava feito.
Ajudamos a enfiar Josh no banco traseiro, e Ashley já se jogou no banco da frente, claramente animada para ver até onde isso ia.
E eu…
Bom, eu simplesmente fui junto.
Porque, de alguma forma, eu sabia que essa noite estava longe de terminar.
⸻
Levar Josh até seu apartamento foi um desafio digno de filme de comédia.
Ele cambaleava, gargalhava de coisas aleatórias e dizia que nos amava pelo menos umas dez vezes.
— Eu sempre gostei de vocês! — Ele exclamou, enquanto eu e Ashley tentávamos carregá-lo até a cama.
— Que bom, Josh. — Murmurei, completamente sem paciência.
— A gente é uma família agora! — Ele continuou, se jogando na cama e quase derrubando Ashley junto com ele.
Apolio, que só observava de braços cruzados, finalmente resolveu nos ajudar.
— Tá bom, chega. Se ele vomitar na gente, eu me jogo pela janela.
Com esforço, nós o ajeitamos na cama, e Josh finalmente apagou.
O silêncio caiu no quarto.
Ashley se virou para Apolio, com um brilho malicioso no olhar.
— Se você me oferecer um quarto de hóspedes, eu aceito.
Apolio arqueou a sobrancelha.
— Tá tão r**m assim?
Ela riu.
— Eu tô bêbada e levemente drogada. Não vou atravessar Nova York desse jeito.
Ele deu de ombros.
— O quarto é todo seu.
Ashley piscou para mim antes de sair do quarto, murmurando um “boa sorte” baixo o suficiente para que só eu ouvisse.
E então, ficamos apenas eu e Apolio.
— Preciso de uma bebida. — Murmurei, saindo do quarto sem olhar para ele.
Peguei um copo de whisky e fui direto para a varanda, deixando a cidade iluminar meus pensamentos.
Aquela era a casa de Josh.
Mas não parecia com ele.
A decoração, os móveis, o estilo do apartamento… nada tinha a ver com o cara que estava comigo no Texas.
Era como se eu estivesse na casa de um completo desconhecido.
— Você não tá gostando da bebida?
A voz de Apolio me fez olhar para trás.
Ele estava na porta da varanda, me observando.
— O quê?
— Você tá olhando pro copo como se ele tivesse te ofendido.
Soltei um pequeno riso, balançando a cabeça.
— Só estou pensando.
Apolio se encostou no batente da porta, cruzando os braços.
— No quê?
Dei um gole na bebida, sentindo o calor rasgar minha garganta.
— No Josh.
Ele não respondeu de imediato.
Deixei o copo sobre o parapeito e encarei a cidade.
— Eu não conheço esse cara. — Minha voz saiu mais fraca do que queria. — Eu olho pra ele agora, olho pra esse apartamento, e não vejo nada do Josh que eu conheci. Parece que… na verdade ele sempre foi outra pessoa e eu não percebi.
Apolio ficou em silêncio por um tempo.
Quando falou, sua voz veio mais baixa, mais calma.
— Ele é outra pessoa.
Virei o rosto para ele, confusa.
— O que quer dizer?
Ele deu um pequeno sorriso, mas sem humor.
— Josh sempre soube viver duas realidades. Ele faz o que precisa pra manter a imagem que quer. Mas no fim… acho que nem ele sabe quem realmente é.
Fiquei encarando Apolio, absorvendo aquelas palavras.
Ele parecia falar com mais conhecimento de causa do que eu esperava.
Como se já tivesse visto esse lado de Josh muito antes de mim.
Soltei um longo suspiro e peguei o copo de whisky de novo.
— Então eu perdi tempo tentando entender alguém que não existe?
Apolio deu de ombros.
— Talvez. Ou talvez você tenha visto partes dele que ninguém mais viu.
Ficamos ali, apenas o som da cidade nos preenchendo.
Não esperava ter essa conversa com ele.
Mas, de alguma forma, não parecia tão estranho quanto deveria.
Virei o resto do whisky em um único gole, sentindo o calor da bebida queimar minha garganta. Eu precisava disso.
Passei os dedos pelo cabelo, jogando-o para trás, e me virei para Apolio.
— Em que quarto Ashley está ?
Ele apontou com a cabeça para o corredor.
— No quarto de hóspedes, é bem ali, em frente ao de Josh. Quer que eu te leve até lá?
Olhei para a porta entreaberta, mas não dei um passo sequer.
De repente, dormir parecia impossível.
Eu ainda estava acordada demais, minha cabeça cheia de pensamentos que não estavam prontos para serem guardados.
Apolio percebeu minha hesitação e arqueou a sobrancelha, divertido.
— Se quiser, pode ficar por aqui. Eu tenho insônia e esse é um dos melhores lugares para ver o nascer do sol.
Pisquei, surpresa.
— Você tem insônia?
Ele deu um pequeno sorriso.
— Ultimamente, parece que sim.
Fiquei encarando ele por um momento.
Eu poderia simplesmente ir dormir.
Esquecer esse dia, esquecer tudo isso.
Mas, por algum motivo… não queria.
— O sol nasce em quanto tempo? — Perguntei, ainda sem decidir se estava interessada ou apenas tentando ganhar tempo.
Apolio puxou o celular do bolso, verificando a tela.
— Duas horas, no máximo.
Mordi o lábio, considerando.
E então, sem dizer mais nada, fui até o sofá pequeno no canto da varanda e me sentei, apoiando o copo na mesinha de centro.
— Tudo bem. Eu fico.
Apolio pareceu ligeiramente surpreso.
Mas não comentou nada.
Em vez disso, enfiou as mãos nos bolsos e deu um passo para trás.
— Vou pegar mais bebida. E alguma coisa pra comer. Se vamos ficar acordado, pelo menos não iremos morrer de fome.
Revirei os olhos, mas deixei um pequeno sorriso escapar.
— Típico.
Ele apenas riu de leve e saiu, me deixando ali.
⸻
Quando Apolio voltou, trouxe uma garrafa de vinho, dois copos e uma tigela com petiscos.
— Não sabia se você gostava de whisky ou estava bebendo para desabafar, então peguei vinho. Mais seguro.
Peguei um dos copos e esperei enquanto ele servia.
— Eu gosto de whisky. Mas acho que um
copo foi o suficiente por hoje, está ótimo o vinho.
Apolio apenas assentiu e se jogou no sofá ao meu lado, deixando a tigela de petiscos entre nós.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, bebendo devagar e observando a cidade.
Os prédios brilhavam com as luzes da madrugada, carros ainda circulavam pelas ruas abaixo, mas o clima já era mais calmo do que há algumas horas.
— Você realmente não dorme? — Perguntei, quebrando o silêncio.
Ele deu de ombros.
— Minha cabeça tem tido dificuldade em desligar, já faz algum tempo.
— E o que você faz quando não consegue dormir?
— Isso. — Ele apontou para a paisagem. — Observo a cidade até ela cansar de mim.
Soltei uma risada baixa.
— Parece solitário.
Ele girou o vinho no copo, pensativo.
— Às vezes é. Mas já me acostumei.
Voltei meus olhos para a cidade, absorvendo aquela confissão inesperada.
— E você? — Ele perguntou. — Também sofre com insônia ou só tá aqui porque não quer encarar o quarto de hóspedes?
Ri de leve, mas minha resposta saiu sincera demais.
— Talvez se eu deitasse, me perdesse nos meus pensamentos e me sentisse pior.
Apolio não respondeu de imediato.
Apenas ficou me olhando por alguns segundos, como se tentasse entender o que eu realmente quis dizer.
Mas, no final, apenas pegou um dos petiscos e deu de ombros.
— Faz sentido.
Ficamos ali, bebendo, conversando sobre coisas aleatórias, sobre Nova York, sobre como a cidade nunca parava.
Não falamos de Josh.
Não falamos do Texas.
E isso foi um alívio.
Apenas existimos ali, sem rótulos, sem perguntas desconfortáveis, sem expectativas.
Quando o primeiro raio de sol apareceu no horizonte, os olhos de Apolio brilharam ligeiramente com o reflexo da luz.
Ele soltou um longo suspiro, descansando a cabeça no encosto do sofá.
— Olha só. Nem percebemos o tempo passar.
Eu também não percebi.
E talvez, só talvez…
Isso fosse algo bom.