Os dias não melhoraram.
Só ficaram mais organizados.
Mais silenciosos.
Mais distantes.
A rotina da Guardian voltou a funcionar com precisão cirúrgica. Relatórios entregues no horário. Reuniões objetivas. A investigação avançando em pequenos passos controlados.
Tudo parecia no lugar.
Exceto eles.
Luca tentou.
Nos primeiros dias, tentou de forma direta.
— Cacau, a gente pode conversar?
— Agora não, Luca. Estou com prazo.
Sempre havia um prazo.
Sempre havia algo mais importante.
Depois, tentou de forma sutil.
Esperava por ela no corredor.
Ela saía antes.
Tentou oferecer ajuda.
— Posso revisar esse material com você.
— Já está resolvido, obrigada.
Sempre educada.
Sempre impecável.
Sempre distante.
Na Sala de Operações, trabalhavam lado a lado.
Sem troca de olhares.
Sem desvios.
Sem nada além do necessário.
— Linha cruzada confirmada.
— Recebido.
— Atualizei o log.
— Ok.
Duas pessoas que funcionavam perfeitamente juntas.
Como se nunca tivessem sido mais do que isso.
Com o passar dos dias, algo nele começou a mudar.
Não de forma consciente.
Mas inevitável.
Uma estagiária do setor jurídico encostou na mesa dele numa tarde qualquer.
— Luca… você sempre foge das confraternizações. A gente podia sair qualquer dia desses.
Ele olhou para ela.
E não sentiu nada.
Nenhuma vontade de sorrir.
Nenhuma vontade de provocar.
Nenhum impulso automático.
Só… incômodo.
— Não — respondeu, simples. — Não posso.
Ela riu, achando que era charme.
— Ah, para. Você sempre pode.
Ele a encarou de novo.
Dessa vez, mais firme.
— Não quero.
O silêncio que se seguiu foi estranho.
Ela se afastou.
E Luca ficou parado, olhando para a tela sem ver nada.
Aquilo não era normal.
Ele sempre quis.
Sempre.
E agora…
Parecia errado.
Parecia vazio.
Parecia… sujo.
Ele passou a mão no rosto, incomodado consigo mesmo.
Ele não reconhecia mais o homem que tinha sido.
E, pela primeira vez, isso não era libertador.
Era incômodo.
— Você está estranho.
A voz de Lorenzo veio sem aviso.
Luca não desviou o olhar da tela.
— Sempre fui.
— Não desse jeito.
Silêncio.
— O que você fez dessa vez?
Luca soltou um riso curto, sem humor.
— Eu não sei.
Lorenzo cruzou os braços.
— Sabe, sim.
Luca respirou fundo.
Demorou alguns segundos.
— Eu não consigo consertar o que eu estraguei.
Lorenzo arqueou levemente a sobrancelha.
— Com quem?
Luca abriu a boca.
E travou.
O nome ficou preso.
Pesado demais para sair.
Lorenzo entendeu.
Sempre entendia.
— Então para de ir atrás.
Luca franziu o cenho.
— Eu não estou indo atrás.
— Está, sim. — Lorenzo foi direto. — E ela está se afastando por causa disso.
A frase atingiu em cheio.
Luca desviou o olhar.
— O que eu faço?
Lorenzo respondeu sem hesitar:
— Nada.
Luca soltou uma risada amarga.
— Ótimo conselho.
— É o único que funciona.
Pausa.
— Dá tempo a ela.
Mais uma pausa.
— Pelo menos até a gente trazer Alice de volta.
O nome de Alice assentou tudo.
Colocou as prioridades no lugar.
Mas não diminuiu o incômodo.
Não diminuiu a falta.
Naquela mesma tarde, Giovanna anunciou oficialmente:
— O fundo de apoio às vítimas de violência doméstica será estruturado nas próximas semanas. E eu quero a Cacau na linha de frente dessa operação.
Alguns acenos de aprovação.
Cacau assentiu.
Profissional.
Composta.
— Pode contar comigo.
Luca ficou imóvel.
Aquilo significava menos tempo na Sala de Operações.
Menos cruzamentos.
Menos proximidade.
Menos qualquer chance.
Ele percebeu algo simples e devastador:
Ela não estava apenas se afastando.
Ela estava seguindo.
E ele não fazia mais parte do caminho.
A chuva tinha passado horas antes, mas o chão ainda estava úmido.
O céu estava nublado, pesado, como se segurasse algo que não queria cair.
Cacau caminhava entre as fileiras de lápides com passos firmes.
Como sempre.
Como em tudo.
Mas, daquela vez, havia algo diferente.
Ela parou diante da lápide simples.
Passou os dedos pelo nome gravado.
Respirou fundo.
E, pela primeira vez em dias…
deixou os ombros cederem um pouco.
— Oi, mãe…
A voz saiu baixa.
Mais frágil do que ela permitiria em qualquer outro lugar.
Silêncio.
— Eu achei que estava tudo sob controle.
Um pequeno riso sem humor.
— Como sempre, né?
Ela desviou o olhar por um instante.
Respirou.
Voltou.
— Eu estou trabalhando em um projeto novo. Grande. Importante.
— Do tipo que você diria que eu devia aceitar sem pensar.
Um leve tremor passou pela voz.
— E eu aceitei.
Pausa.
— Porque eu preciso… me ocupar.
Os olhos dela marejaram.
Ela piscou rápido.
Tentando conter.
Nem ali ela queria desmoronar completamente.
— Eu não quero sentir isso.
A confissão veio mais baixa.
Mais honesta.
Mais perigosa.
— Eu não queria…
Ela engoliu seco.
— Mas eu estou apaixonada.
O silêncio ao redor pareceu absorver tudo.
— E eu não posso.
A voz falhou levemente.
— Não por ele.
Ela balançou a cabeça, pequena, firme.
— Não pelo Luca.
Um sopro de ar saiu tremido.
— Ele não é o tipo de homem que fica.
— E eu… — ela fechou os olhos por um segundo — eu não quero ser o tipo de mulher que espera.
As palavras ficaram suspensas.
Pesadas.
Reais.
— Então eu vou fazer o que você me ensinou.
Ela endireitou os ombros.
Mesmo com os olhos brilhando.
— Vou trabalhar.
— Vou seguir.
— Vou deixar isso passar.
Uma última pausa.
Mais longa.
Mais difícil.
— Mesmo que doa.
Ela passou os dedos mais uma vez pela lápide.
Com carinho.
Com saudade.
Com controle.
— Eu sinto sua falta.
E então se virou.
Postura impecável.
Passos firmes.
Coração quebrado em silêncio.
A música era baixa demais para distrair.
O tipo de lugar onde as pessoas iam justamente para não pensar — e, ainda assim, acabavam pensando mais.
Luca apoiou o copo no balcão e girou o líquido âmbar com um movimento lento. O gelo bateu nas laterais com um som seco, repetitivo. Hipnótico.
— Mais um? — perguntou o bartender.
Luca assentiu.
O primeiro gole desceu fácil.
O segundo também.
Era automático. Familiar.
Um ritual que ele conhecia bem demais.
Do outro lado do balcão, uma mulher cruzou o olhar com o dele.
Sorriso fácil.
Olhar direto.
Confiança ensaiada.
Ela inclinou levemente a cabeça, como quem já sabia o resultado.
Luca sustentou o olhar por um segundo.
Em outro tempo, teria sido suficiente.
Um gesto.
Um sorriso torto.
Uma frase qualquer.
E a noite estaria resolvida.
Ele levou o copo aos lábios.
Bebeu.
Mais um.
Era isso que ele fazia.
Sempre foi.
Se não podia ter o que queria…
Pegava o que era fácil.
Simples.
Sem peso.
Sem consequência.
Sem… verdade.
Ele soltou um riso baixo, sem humor.
Então volta a ser quem você sempre foi.
Era o mais lógico.
Era o mais fácil.
Era o mais confortável.
Ele virou mais um gole.
Mas, dessa vez, o gosto veio diferente.
Amargo.
Pesado.
Errado.
A imagem veio sem pedir licença.
Cacau.
De pé, na Sala de Operações.
Concentrada. Precisa.
A voz firme, o olhar atento.
O jeito como ela dizia o nome dele.
O jeito como corrigia algo dele sem humilhar.
O jeito como segurava o caos sem fazer barulho.
Ele fechou os olhos por um instante.
Ele nunca tinha percebido.
Nunca tinha parado para perceber.
Que as melhores partes do dia dele…
eram pequenas.
E quase todas tinham ela.
Uma troca rápida de olhar.
Uma observação sarcástica.
Um comentário seco que fazia ele rir sem entender por quê.
Coisas mínimas.
Coisas que ele nunca valorizou.
Porque sempre achou que teria mais.
Mais tempo.
Mais chances.
Mais momentos.
Sempre mais.
Ele abriu os olhos devagar.
O bar parecia mais vazio agora.
Ou talvez fosse ele.
— Mais um — pediu, empurrando o copo.
O bartender serviu.
Luca não bebeu imediatamente.
Ficou olhando.
Como se estivesse tentando decidir algo.
Você nunca quis ficar.
A verdade veio crua.
Ele nunca quis.
Nunca quis se estabelecer.
Nunca quis escolher.
Nunca quis… lutar.
Era mais fácil flertar com todas.
Mais fácil não se comprometer com nenhuma.
Mais fácil manter tudo leve.
Superficial.
Seguro.
Ele passou a mão no rosto.
E então pensou em Mateo.
Mateo, que tinha virado o mundo de cabeça para baixo por Alice.
Que tinha enfrentado imprensa, conselho, riscos, ameaças… tudo.
Sem hesitar.
Sem medir.
Porque sabia.
Porque sentia.
Porque escolheu.
Luca soltou o ar devagar.
Eu nunca fiz isso.
Nunca teve coragem.
Nunca teve certeza.
Nunca se permitiu.
E agora…
Agora que tinha certeza…
não tinha mais direito.
A garganta apertou.
Ele engoliu seco.
Eu perdi.
Não foi de repente.
Não foi injusto.
Foi consequência.
De cada escolha leve.
De cada atitude vazia.
De cada vez que ele não levou nada a sério.
Ele tinha perdido.
E, junto com ela…
parecia ter perdido algo maior.
A leveza.
A alegria.
O sentido.
— Posso me sentar?
A voz feminina o trouxe de volta.
A mulher do outro lado do balcão agora estava ao lado dele.
Sorrindo.
Confiante.
Esperando.
Como tantas outras antes.
Luca olhou para ela.
De verdade.
E não sentiu nada.
Nenhuma vontade.
Nenhuma curiosidade.
Nenhum impulso.
Só um cansaço profundo.
Ele desviou o olhar para o copo.
Depois, para as mãos.
E então entendeu.
Aquilo não era mais ele.
Ou, pelo menos…
não era quem ele queria continuar sendo.
Ele empurrou o copo de volta para o balcão.
— Não — disse, calmo. — Não precisa.
A mulher hesitou, surpresa.
— Tem certeza?
Luca assentiu.
— Tenho.
Ela deu de ombros e se afastou.
Simples assim.
Como tudo sempre foi.
Mas, dessa vez…
não parecia vitória.
Parecia… escolha.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois passou a mão pelos cabelos, respirou fundo e murmurou, quase para si mesmo:
— Chega.
Levantou-se.
Deixou o dinheiro sobre o balcão.
E saiu.
A noite estava fria.
O ar bateu no rosto dele com força suficiente para clarear alguma coisa.
Ele colocou as mãos nos bolsos.
Olhou para frente.
E tomou uma decisão simples.
Silenciosa.
Mas definitiva.
Se ele tinha perdido a chance com Cacau, respeitaria a decisão dela… mas não queria mais — e não seria — o homem que foi capaz de machucá-la.
Nunca mais.