Espaço Insuficiente

1170 Words
A nova triangulação apareceu às 15h42. Não era ruído. Não era erro. Não era sombra digital. Era padrão. Lorenzo atravessou a Sala de Operações com o tablet nas mãos e o olhar afiado, a energia do ambiente mudando imediatamente ao redor dele. — Temos repetição de sinal — anunciou. — Não é aleatório. As teclas pararam de bater. Cacau levantou os olhos primeiro. Luca logo depois. Lorenzo deslizou o tablet sobre a mesa central. — O notebook antigo dela respondeu de novo. Mesmo padrão de ping mascarado. O ar na sala ficou mais pesado. Alice. Qualquer sinal dela ainda fazia o coração de todos apertar. — Preciso cruzar isso manualmente com os logs mascarados — continuou Lorenzo. — Não posso jogar no servidor principal ainda. Ele olhou para Luca. — Vocês vem comigo. Luca já estava se levantando. — Claro. Rápido demais. Quase ansioso. Era a primeira vez em dias que ele via a possibilidade de trabalhar diretamente com Cacau sem o escudo da sala cheia entre eles. Então Lorenzo virou o rosto para Cacau que ainda estava sentada. — E você também. Preciso dos registros que só você filtrou. Houve um pequeno silêncio. Sutil. Mas perceptível. Cacau não se levantou imediatamente. A caneta que ela segurava entre os dedos girou uma vez antes de parar. — Posso encaminhar os arquivos por acesso remoto — sugeriu, mantendo a voz perfeitamente neutra. Luca sentiu algo afundar no peito. Ela não queria ficar sozinha com ele. Não era paranoia. Não era impressão. Era escolha. Lorenzo percebeu. Os olhos dele passaram de um para o outro com uma rapidez analítica que denunciava que nada ali lhe escapava. — Não — disse, firme. — Quero análise simultânea. Ao vivo. Sem delay. Ele apontou para o corredor lateral. — Sala secundária. Cacau respirou fundo. Por um segundo, o orgulho quase falou mais alto. Mas o trabalho vinha primeiro. Sempre. Ela se levantou. — Certo. Luca pegou o notebook da mesa. Não disse nada. Mas a pequena hesitação dela ecoava dentro dele como um golpe silencioso. Ele tinha sido o homem que ela evitava. E aquilo doía de uma forma que ele não esperava. O caminho até a sala secundária foi silencioso. O corredor parecia mais longo do que realmente era. Cacau caminhava à frente, postura impecável, o tablet contra o peito. Luca vinha meio passo atrás. Ele percebeu que, dias atrás, teria quebrado aquele silêncio com alguma piada leve. Alguma provocação. Algum comentário inútil. Agora não. Agora ele tinha medo de piorar tudo. Quando chegaram à porta de vidro fosco, Cacau abriu primeiro. O clique da fechadura eletrônica soou alto demais. A sala era pequena. Menor do que Luca lembrava. Uma mesa central, dois monitores, iluminação branca e paredes de vidro opaco. Um lugar feito para concentração absoluta. Não para duas pessoas que tentavam ignorar sentimentos complicados demais. Cacau puxou a cadeira. Luca ocupou o lugar ao lado. Próximos. Próximos demais. — Vou abrir os registros do último ping — disse ela. Técnica. Direta. Profissional. — Eu cruzo com a rota externa. A voz dele saiu mais baixa do que pretendia. Silêncio. O som das teclas começou a preencher o espaço. Mas o silêncio entre eles não era vazio. Era tensão comprimida. Luca percebeu o perfume discreto dela. Delicado. Quase invisível. E odiou perceber que sabia exatamente qual era. — Aqui. — Cacau apontou para a tela. — Mesmo horário. Dois dias diferentes. Luca se inclinou para observar melhor. O ombro dele roçou o dela. Cacau prendeu a respiração por um segundo. Ele sentiu. Recuou imediatamente. — Desculpa. — Tudo bem. Mas não estava. Nunca estava. Os minutos se transformaram em uma hora. Depois duas. Trocas técnicas. Frases curtas. Nenhum olhar prolongado. Em determinado momento, Cacau precisou pegar uma pasta atrás dele. A cadeira de Luca bloqueava parcialmente o caminho. — Posso? — ela perguntou. Ele levantou rápido demais. A cadeira quase tombou. — Claro. Os dois ficaram frente a frente por um segundo. Perto. O suficiente para que Luca percebesse algo que o incomodou imediatamente. Ela estava pálida. Mais do que o normal. — Você está bem? — escapou. Ela hesitou. Microsegundos. Depois respondeu: — Estou. Mas a mão dela tremia levemente ao abrir a pasta. E Luca viu. Ele não disse nada. Mas viu. Quando Lorenzo abriu a porta mais tarde para conferir o progresso, os dois estavam inclinados sobre a tela. — Isso pode ser um desvio intencional — disse ele. — Se for, ela está tentando proteger alguém. A palavra proteger ecoou dentro da sala. Cacau respirou fundo. — Ou tentando nos afastar. Luca virou o rosto para ela. Ali havia algo diferente. Não era apenas análise. Era medo. E perceber aquilo fez o peito dele apertar. Porque ele queria ser o tipo de homem que ela procuraria quando estivesse com medo. Mas tinha sido o tipo que ela precisava evitar. Lorenzo percebeu o clima. Os olhos dele ficaram um segundo a mais sobre os dois. Ele entendeu mais do que eles imaginavam. Mas Alice ainda estava desaparecida. E nada era mais importante do que isso. — Continuem — disse apenas. E saiu. Quando Cacau tentou ajustar um gráfico na tela, o cursor travou. Ela apertou algumas teclas com mais força. — Não agora… A frustração saiu pequena, mas real. Luca estendeu a mão para ajudar. Os dedos dele tocaram os dela. Contato. Pele. Calor. Os dois congelaram. O mundo lá fora deixou de existir. Ele sentiu o pulso dela acelerar. Ela sentiu a respiração dele falhar. Por um instante perigoso, ela não afastou a mão. E Luca quase disse. Quase disse tudo. Quase pediu desculpa. Quase admitiu o que estava crescendo dentro dele. Mas o medo de errar outra vez o paralisou. Cacau foi a primeira a recuar. — Obrigada. A palavra saiu baixa. Ele engoliu seco. — Cacau… Ela não levantou os olhos. — Vamos focar, Luca. Foco. Era isso que ela queria. Era isso que ela precisava. Era isso que ele tinha destruído. O resto da tarde foi um exercício de autocontrole. Lado a lado. Próximos e ao mesmo tempo distantes. E Luca percebeu uma coisa devastadora naquele espaço pequeno. Ele não sentia falta das paqueras. Não sentia falta das risadas vazias. Não sentia falta da versão leve e irresponsável de si mesmo. Sentia falta dela. Do jeito como ela olhava para ele antes. Do jeito como ela dizia o nome dele. Do jeito como ficava ao lado dele sem hesitar. Agora, ali, tão perto que podia tocar… Ele estava mais distante do que nunca. Quando Lorenzo voltou para recolher os dados, o clima parecia normal. Produtivo. Profissional. — Bom trabalho — disse ele. Cacau assentiu. Luca apenas fechou o notebook. Os dois saíram da sala juntos. O corredor parecia amplo demais depois de tantas horas naquele espaço pequeno. A porta se fechou atrás deles. E Luca entendeu uma verdade silenciosa. Estar perto dela não diminuía a falta. Aumentava. Porque agora ele sabia exatamente o que estava perdendo. E, pior… Sabia que talvez não tivesse direito de recuperar.
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