O Começo da Falta

1773 Words
O dia seguinte começou estranho para Luca — mas dessa vez, não foi a ressaca emocional que o incomodou, nem o cansaço acumulado. Foi o silêncio. O silêncio dele mesmo. Porque Luca Bianchi sempre acordava com barulho interno: adrenalina, impulsos, fome de vida, irritação com coisas pequenas, vontade de quebrar rotina, necessidade de preencher o vazio com movimento. Mas naquela manhã… não havia movimento. Havia peso. Havia falta. Havia arrependimento. E, pior que tudo… havia clareza. Clareza sobre quem ele tinha sido. E quem ele nunca deveria ter sido com ela. Tomou banho devagar, a água quente batendo nas costas enquanto ele apoiava as mãos na parede de azulejo, a cabeça baixa, sentindo o peito pesar mais do que o corpo. As palavras dela ecoavam como um mantra c***l e verdadeiro: “Não deveria se incomodar comigo, Luca. Eu sou muito certinha. Não faço seu tipo.” Ele apertou os olhos, como se pudesse expulsar aquela lembrança. Mas a dor estava ali. Grudada. Teimosa. E a pior parte não era o incômodo. Era a certeza. Ele pensou em todas as mulheres com quem flertou por esporte. Em quantas vezes falou coisas sem sentido só pela sensação vazia de ser desejado. Em como colecionou olhares para anestesiar um vazio que ele nunca admitiu ter. E agora… agora que finalmente sentia algo real, algo diferente, algo que não sabia nomear… Agora ele percebia o tamanho da própria mediocridade. “Ela merece alguém melhor.” A frase surgiu sozinha — seca, amarga, verdadeira. E, pela primeira vez na vida, ele não tinha como discordar. Giovanna a chamou no corredor de vidro do 10º andar, onde a luz branca se refletia nos espelhos e deixava tudo mais claro do que Cacau gostaria que fosse. Ela se virou com a postura impecável de sempre, a prancheta apoiada contra o corpo e a expressão neutra — quase neutra — porque nada naqueles dias conseguia ficar realmente estável dentro dela. — Cacau — disse Giovanna, se aproximando com passos firmes. — Preciso falar com você. Ela assentiu. — Claro. A chefe de comunicação respirou fundo, como quem está prestes a dar uma notícia importante — e boa. — Conversei com o Conselho e com o Jurídico. O fundo de apoio às vítimas de violência doméstica vai começar a fase de consolidação. Precisamos de alguém para assessorar as operações, organizar fluxos, criar diretrizes e preparar comunicação sensível. — E eu pensei em você. Por um instante, Cacau não entendeu. Ou entendeu tão rápido que precisou de um segundo para processar. Os olhos dela piscaram devagar — aquele piscar suave que só surgia quando algo mexia mais fundo do que deveria. — Em mim? — repetiu, com a voz perfeitamente controlada. — Sim. — Giovanna sorriu. Aquele sorriso genuíno que poucas vezes aparecia no escritório. — Você tem o perfil exato para isso: é organizada, sensível sem ser emocional, firme sem ser agressiva. E, acima de tudo, confiável. Ninguém lida com dor como você lida. Cacau sentiu o peito puxar para dentro, como se algo tivesse soltado um nó que ela não sabia que prendia sua respiração. Ser reconhecida por aquilo… pela força silenciosa que carregava… por sua capacidade de fechar feridas sem abrir outras… Aquilo tocava um pedaço dela que ninguém nunca via. — Seria uma honra — disse, com um pequeno sorriso que era quase um agradecimento. Giovanna assentiu, satisfeita. — Ótimo. Então vamos fazer assim: eu marco reunião com o jurídico e o setor de compliance. Você vai começar a transição ainda esta semana. — Ah — completou, tornando a voz mais suave — e isso significa que você ficará menos na Sala de Operações. Sua rotina vai mudar bastante. Cacau percebeu a última frase. Percebeu a pausa. Percebeu o olhar gentil — talvez até preocupado. E foi ali, naquele exato momento, que a verdade veio como um golpe silencioso: Talvez isso fosse exatamente o que ela precisava. Não apenas um projeto grande. Não apenas uma responsabilidade nova. Mas um desvio. Uma rota alternativa. Um lugar para colocar sua energia. Um motivo para não estar onde seu coração insistia em quebrar um pouco mais a cada dia. Porque, por mais magoada que estivesse… Por mais dignidade que mantivesse intacta como um escudo… Ela sentia. Sentia falta. Sentia presença. Sentia ausência. Sentia tudo o que não deveria sentir. E não queria. Não queria sentir o peito apertar quando ele entrava na sala. Não queria perder o fôlego quando ele dizia seu nome. Não queria lembrar do abraço no subsolo. Não queria lembrar da dor nos olhos dele ontem. Não queria lembrar da própria dor. Ela não queria desejar algo que não podia ter. Algo que ele mesmo tinha deixado claro que não estava disposto a oferecer. Algo que ela sabia — sabia — que só a machucaria de novo. O fundo, o projeto, o novo papel… Era mais que trabalho. Era salvação. Era distância. Era o que restava para que ela pudesse voltar a respirar sem sentir aquele nó constante entre as costelas. Giovanna continuava explicando detalhes — prazos, comitês, cronogramas — mas as palavras já estavam longe. Cacau apenas assentiu no momento certo, com a elegância automática que treinou a vida inteira. Mas por dentro… Por dentro, ela dizia a si mesma: “É isso. É isso que você precisa para esquecer. Para parar de sentir. Para parar de quebrar.” E, pela primeira vez em dias, ela conseguiu respirar fundo sem o peito doer. Mesmo sabendo que era fuga. Era o que ela tinha. E Cacau, que sempre cuidou de todos, que sempre segurou as dores dos outros sem soltar as próprias, finalmente escolhia cuidar de si mesma. De forma elegante. Discreta. E devastadoramente solitária. Na Guardian, o dia estava mais movimentado que o habitual. Pessoas passando com pressa. Reuniões extraordinárias. Fluxo acelerado. Mas Luca só enxergou uma coisa: Cacau. Ao lado de Giovanna. Serena. Focada. Distante. E então ouviu a conversa: — Parabéns, Cacau. Você é a pessoa perfeita para assessorar o fundo — dizia Giovanna. O mundo dele pareceu diminuir. O fundo de apoio às vítimas de violência doméstica era um projeto grande. Relevante. Visível. E significava uma coisa simples, c***l e óbvia: ela ficaria longe. Longe dele. Longe da Sala de Operações. Longe da rotina deles. Longe do pequeno universo que os aproximava dentro do caos. Cacau sorriu para Giovanna — aquele sorriso delicado, elegante, discreto — e Luca sentiu como se alguém tivesse tirado algo do peito dele. Não era ciúme. Era perda antecipada. A sensação de perder algo que ele só agora percebeu que queria. No corredor, uma estagiária se aproximou, animada: — Luca! Bom dia! Ele m*l conseguiu responder. Algo nele desligou. Ou melhor — algo nele percebeu o ridículo que sempre carregou. Quando ela sorriu demais, ele não se sentiu lisonjeado. Sentiu… vergonha. Vergonha por já ter vivido de pequenos flertes descartáveis. Vergonha por ter usado sorrisos como moeda barata. Vergonha por ter sido raso. “Que porcaria de homem você foi?”, pensou, furioso consigo mesmo. E, sem notar, respondeu seco: — Bom dia. E continuou andando. A estagiária ficou parada, confusa. Ele não ligou. Pela primeira vez, flertar parecia sujo. Parecia errado. Parecia… traição. Não a ela — porque não havia nada entre eles. Mas traição ao que ele estava começando a querer ser. Quando entrou na Sala de Operações e viu Cacau de costas — centrada, elegante, intocável — sentiu o mundo inteiro parecer pequeno demais para o corpo dele. Queria falar com ela. Queria pedir desculpas. Queria dizer que não quis machucar. Que estava mudando. Que ela era diferente. Que ele era diferente com ela. Mas quando disse: — Bom dia. Ela respondeu: — Bom dia. Sem olhar. Sem hesitar. Sem permitir espaço. E foi aí que Luca percebeu que o silêncio dela era mais alto que qualquer grito. O silêncio dela era punição. Era p******o. Era distância medida com precisão cirúrgica. E ele merecia. Durante o dia, ele percebeu outros detalhes dolorosos: Cacau evitava ficar sozinha na mesma sala com ele. Ela falava com Lorenzo, com Giovanna, com qualquer um — menos com ele. Quando precisava entregar algo, deixava os papéis na mesa sem se aproximar. Ela não o olhava. Nem por acaso. Nem por engano. Esse tipo de distanciamento… Essas pequenas ausências… Doíam de um jeito que ele nunca tinha sentido. E era ali, naquele incômodo, que ele começou a mudar. Na hora do almoço, Lorenzo o encontrou encostado na parede, olhando fixamente para um ponto inexistente no corredor. — Você tá esquisito — disse Lorenzo. — Parecendo um cachorro abandonado na chuva. — Vai se ferrar. — Sério. Que que você fez dessa vez? Luca apertou a ponte do nariz. — Nada. — Nada? — Lorenzo riu, dando-lhe um tapinha no braço. — Luca, quando você começa a agir como funcionário recém demitido, é porque fez algo bem grande. — Vai cuidar da sua vida. Lorenzo cruzou os braços. — Tá. Vou ajudar. Com quem você estragou tudo dessa vez? Silêncio. O tipo de silêncio que fala mais do que palavras. Luca apertou o maxilar. — Eu… — começou. Mas não conseguiu terminar. Porque admitir seria pior. Admitir significaria colocar nome no caos que estava dentro dele. Significaria aceitar que se importava — de verdade — pela primeira vez. Lorenzo estreitou os olhos, percebendo a hesitação. — Com quem, Luca? Luca desviou o olhar para o chão, os ombros tensionados. — Eu estraguei tudo — murmurou, baixo demais. — Satisfeito? — Não — Lorenzo respondeu de imediato. — Quero saber com quem. O silêncio se alongou. Luca não respondeu. Porque não conseguia. Porque dizer o nome dela seria o mesmo que confessar uma verdade que ele ainda não estava pronto para encarar. À tarde, quando viu Cacau passar com a pasta do novo projeto, sorrindo para Giovanna, confiante, brilhante — um sorriso que não era para ele — Luca sentiu a garganta fechar. Ele queria ser digno daquele sorriso. Queria ser alguém que ela pudesse confiar. Queria ser alguém que ela pudesse respeitar. Queria ser alguém que combinasse com a elegância dela. Mas tudo que ele conseguia pensar era: “Você não merece ela. Não desse jeito. Não como você é agora.” E isso era o peso mais devastador de todos. Porque não era dor de rejeição. Era dor de indignidade. Ele não queria apenas que ela olhasse para ele. Ele queria ser alguém digno de ser olhado por ela. E, pela primeira vez em trinta anos, Luca Bianchi pensou: “Talvez eu precise mudar. De verdade. Não por ela. Mas por mim.” E isso… foi o começo de tudo.
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