Capítulo 1 — O Corpo Que Tinha o Meu Rosto
O primeiro grito veio de dentro dela.
Não saiu pela boca. Não ecoou pela casa. Mas rasgou seus pensamentos como vidro.
Clara estava parada à beira do lago quando viu o próprio rosto boiando na água.
A lua refletia sobre a superfície escura, formando um brilho prateado que iluminava o corpo parcialmente submerso. Os cabelos espalhados como algas. A pele pálida demais. Os olhos semicerrados. A boca entreaberta como se tentasse terminar uma frase.
E a cicatriz na sobrancelha esquerda.
A mesma que Clara carregava desde os oito anos — oficialmente, resultado de uma queda da bicicleta. Extraoficialmente… uma lembrança que nunca conseguiu acessar completamente.
Ela sentiu o estômago virar.
— Isso não é real — murmurou, mas a voz falhou.
Deu dois passos para trás. O chão úmido cedeu sob seus pés. O cheiro de água parada e folhas apodrecidas invadiu suas narinas.
O corpo virou lentamente com o movimento da água.
Agora estava de frente.
Era ela.
Não apenas parecida. Idêntica.
Mesmo formato de queixo. Mesmo sinal discreto próximo ao lábio inferior. Mesma aliança riscada no dedo anelar direito.
Clara levou a mão ao próprio dedo.
A aliança estava lá.
Mas a do corpo também.
O mundo pareceu se dividir em dois e ela ficou presa no meio.
Um estalo ecoou atrás dela.
Alguém estava ali.
Clara se virou bruscamente.
Nada.
Somente as árvores escuras, imóveis, como testemunhas silenciosas.
Quando voltou o olhar para o lago, o corpo não estava mais na mesma posição.
Estava mais próximo da margem.
Como se tivesse sido puxado.
O coração dela disparou.
— Isso é impossível…
Então a mão do cadáver se ergueu levemente, movida pela água.
Ou não foi a água?
Clara tropeçou para trás, o pânico subindo como fogo pelo peito. Seu primeiro impulso foi correr até a casa, ligar para a polícia, para qualquer pessoa, para o mundo inteiro.
Mas algo a manteve ali.
Algo dentro dela sussurrava:
Fica.
Como se já tivesse vivido aquilo antes.
Como se soubesse o que aconteceria a seguir.
O silêncio foi quebrado por um som seco — um galho partindo.
Dessa vez não foi imaginação.
Clara virou-se e viu uma silhueta entre as árvores.
Alta.
Imóvel.
Observando.
— Quem está aí?! — gritou, tentando soar firme.
A figura não respondeu.
Mas deu um passo à frente.
A luz da lua tocou parcialmente o rosto do homem.
Ela reconheceu aquele olhar.
Mesmo antes de reconhecer o nome.
Henrique.
Seu ex-marido.
O homem que desaparecera três dias antes.
O homem que ela havia jurado nunca mais ver.
Ele estava ali.
E havia sangue em sua camisa.
Não muito. Apenas o suficiente para que o vermelho se destacasse no tecido claro.
— O que você fez? — Clara perguntou, a voz quebrando.
Henrique não parecia surpreso ao vê-la. Pelo contrário. Parecia… resignado.
— Eu tentei impedir — disse ele, a voz rouca.
— Impedir o quê?
Ele olhou para o lago.
E então para ela.
— Você não devia ter voltado.
A frase atingiu Clara como um soco.
— Do que você está falando?!
Henrique começou a caminhar na direção dela.
Passo.
Passo.
Passo.
O chão rangendo sob os sapatos.
— Eles disseram que, se você voltasse… tudo recomeçaria.
— Eles quem?!
Henrique parou a poucos metros dela.
Os olhos dele estavam diferentes. Vazios. Como se algo tivesse sido drenado.
— Você nunca se perguntou por que não lembra da infância antes dos oito anos?
O ar ficou pesado.
O lago atrás deles pareceu mais escuro.
— Isso não tem nada a ver com isso — Clara respondeu, mas a segurança já havia se perdido.
Henrique deu um riso curto.
Sem humor.
— Tem tudo a ver.
Um barulho abrupto ecoou do lago.
Os dois olharam ao mesmo tempo.
O corpo estava mais próximo da margem.
Agora claramente encalhado na lama.
Clara podia ver o rosto com nitidez.
A expressão não era de morte tranquila.
Era de terror.
Como se tivesse visto algo antes de morrer.
Henrique avançou mais um passo.
— Você lembra do incêndio?
As palavras atravessaram Clara como lâmina.
Incêndio.
Fumaça.
Calor.
Um quarto fechado.
Uma menina chorando.
A lembrança veio como um relâmpago.
Ela cambaleou.
— Eu… eu nunca estive aqui quando era criança.
Henrique a encarou com intensidade.
— Este é o problema. Você esteve.
O estalo de um disparo cortou o ar.
Por um segundo, Clara não entendeu.
Até ver Henrique arregalar os olhos.
O som foi seco. Curto. Definitivo.
O peito dele se manchou de vermelho.
Um buraco escuro abriu-se no centro da camisa.
Ele olhou para baixo, confuso.
Depois para ela.
Como se quisesse terminar algo.
Mas não conseguiu.
O corpo de Henrique caiu para trás, pesado, atingindo o chão com um som oco.
Clara gritou.
O eco atravessou as árvores.
Outro disparo.
Dessa vez atingiu o lago.
A água espirrou ao lado do cadáver.
Ela se jogou no chão instintivamente, o coração batendo tão forte que parecia explodir.
Alguém estava atirando.
Alguém que não queria testemunhas.
Clara rastejou pela lama até o corpo de Henrique.
O sangue escorria quente entre seus dedos.
— Henrique! — sussurrou desesperada.
Ele ainda respirava.
Fraco.
Quase nada.
— Eles… não podem deixar… você lembrar…
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
— Você não é quem pensa que é…
E então pararam.
Sem dramaticidade.
Sem despedida.
Apenas silêncio.
Clara ficou ali, ajoelhada na lama, segurando o ex-marido morto.
O cheiro de pólvora misturado ao cheiro de sangue.
Passos se aproximaram.
Firmes.
Controlados.
Ela ergueu lentamente a cabeça.
Um homem emergiu da escuridão.
Vestido de preto.
Arma em punho.
O rosto parcialmente coberto.
— Você não devia ter voltado, Clara — disse ele com voz fria.
Ela sentiu algo quebrar dentro de si.
Mas não foi medo.
Foi compreensão.
Porque, naquele instante, uma memória inteira explodiu em sua mente.
Ela correndo por aquele mesmo terreno.
Mais nova.
Muito mais nova.
Um homem segurando sua mão.
Fogo consumindo a casa.
Outra menina gritando lá dentro.
Outra menina com o mesmo rosto.
Ela.
Ou a outra?
— Quem sou eu? — Clara perguntou, mais para si do que para o homem armado.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— A que sobreviveu.
Um terceiro disparo.
Mas não veio da arma dele.
Veio atrás.
O homem foi atingido nas costas.
Caiu de joelhos.
Confuso.
Clara olhou e viu uma segunda figura emergindo das árvores.
Uma mulher.
Rosto pálido.
Cabelos longos.
Vestido molhado.
E a cicatriz na sobrancelha esquerda.
O corpo do lago.
Vivo.
A mulher ergueu a arma com mãos trêmulas.
E apontou para Clara.
— Você roubou minha vida.
O mundo girou.
O lago. O sangue. O cadáver de Henrique. O homem caído. A mulher idêntica a ela.
Nada fazia sentido.
Ou fazia demais.
Clara sentiu algo mudar dentro de si.
Uma peça finalmente encaixando.
Talvez ela não fosse a vítima.
Talvez fosse a substituição.
Talvez naquela noite de incêndio, apenas uma tivesse sido salva.
E alguém tivesse decidido qual delas merecia continuar.
A mulher deu um passo à frente.
— Você ficou com meu nome. Minha história. Minha família.
A arma tremia.
— Mas eu sobrevivi.
Clara ficou de pé lentamente.
Coberta de lama e sangue.
— Então quem morreu no incêndio?
A mulher sorriu.
Um sorriso que não alcançava os olhos.
— Ninguém morreu naquela noite.
O vento soprou forte.
As árvores se moveram como se sussurrassem juntas.
E Clara finalmente entendeu:
O verdadeiro assassinato não tinha acontecido ali.
Tinha acontecido vinte anos antes.
Quando decidiram apagar uma identidade.
E criar outra.
O disparo ecoou novamente.
E o capítulo da verdade começou com mais um corpo caindo no chão.