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2190 Words
Dahyun's pov: — Estou vendo que sua noite foi bem animada — falo para Sana no sábado de manhã, enquanto aproximo minha mão e afasto os cabelos de sua testa. Ela ronrona de leve com meu contato e seus olhos se fecham. Nós ainda mantemos nossos encontros matinais no bosque, mas hoje ela parecia não ter dormido bem na noite anterior. Apesar da expressão sorridente de sempre, seu semblante parecia cansado. Temendo que isso tivesse ralação com os pesadelos dos quais ela já me falou, eu perguntei o que tinha acontecido. Agora ela está deitada com a cabeça no meu colo enquanto me conta sobre sua aventura noturna. — Foi uma noite maluca. — Diz. — Então seu primo acabou perdendo a cabeça durante a festa? — Pois é. Ele estava meio magoado por conta de uma rejeição, então acabou descontando na bebida. Ao menos Yuta teve o bom senso de pedir para que Lisa me ligasse antes que as coisas saíssem de vez dos trilhos. — Espero que ele fique bem. — Eu também quase levei uma surra de um garota que acha que eu estou transando com você. — O quê? Quem? — Pergunto embora já saiba de quem ela está falando. — Jeon Somi. Ela disse que acabaria comigo se eu estivesse brincando com seus sentimentos porque você é muito importante para ela. Também me disse que eu estava ficando com uma tal de Eunbi, o que para mim foi uma surpresa já que nunca ouvi falar dela. Olho para ela, surpresa. — Sério? Ela disse isso para você? — Foi. Ela parecia se importar muito com você. E claro que eu entendo — Sana responde, sorrindo. Não sorrio. Estou irritada. — Meu Deus. Eu vou matar essa garota. — Ah, bem, acho que estou com um pouco de medo, mas também estranhamente excitada com esse seu lado sombrio. Se é isso que você quer, beleza. Mas hoje não. Hoje você vai ficar comigo. — Somi faz parte da minha família a muitos anos, mas ultimamente sua presença tem se tornado cada vez mais irritante. — Eu ia perguntar sobre isso. — Ela fecha os olhos de novo enquanto penteio os cabelos dela com meus dedos. — Ela parecia incomodada demais com nossa aproximação. Isso é apenas uma preocupação com seu bem estar ou vocês duas tiveram alguma coisa no passado? Pisco, passando a mão nos cabelos. É uma pergunta muito óbvia, por isso não há desculpa para o modo como ela me pegou desprevenida. — Não tivemos nada sério. — Limpo a garganta, olhando para ela. — Nosso relacionamento se resume a uma noite. Depois Somi começou a agir como se eu não existisse. O que torna irônica sua atitude atual. Ela estreita os olhos para mim quando digo isso, e me pergunto se ela compreendeu o que está subentendido nas minhas palavras. Mas quando ela inspira o ar, calada, e se senta de frente para mim, tenho certeza de que entendeu. Minha respiração está presa em minha garganta, como um nó grosso e difícil de engolir. — Você não precisa me contar os detalhes — ela diz, baixinho —, mas quero que saiba que você é especial de mais para ter passado por uma situação dessas. — E antes que eu possa sentir todo o efeito que isso provoca em mim, ela acrescenta: — E só sei que se essa tal de Somi voltar a se aproximar de você, sou eu quem vai acabar com ela. Mordo o lábio, esforçando-me para não desviar o rosto. Não sei o que dizer a respeito disso. Conhecemo-nos há um tempo que pode ser contado em meses, não em anos, e ainda me parece tão louco que tenhamos essa conexão. Além disso, ela parece ter se comprometido genuinamente com este relacionamento, assim como demonstra um interesse real pela minha pessoa. Dada a minha vontade de me proteger, não sei como me sentir a respeito disto. Sana segura meu rosto delicadamente, forçando-me a encará-la. — Desculpe, Dahyun. Eu sei que essa não é uma atitude ética, mas você é muito importante para mim. — Suas palavras saem tão naturais que quase me fazem quebrar em um milhão de pedaços. Ela expira e em seguida respira fundo. — De repente você se tornou uma parte muito grande de mim. E eu não vou deixar que mais ninguém te magoe. — Eu… acredito em você. Um sorriso adorável surge na boca dela. Sua mão pousa na minha nuca; seus dedos mergulham nos meus cabelos. Conforme ela se inclina, levanto meu rosto para ela. Seus olhos estão fechados, sua respiração compassada, e há um instante de hesitação em que sei que estamos ambas pensando: Pois é. Estamos mesmo fazendo isto. Minhas mãos descansam sobre os ombros dela e sua segurança me encoraja, impele-me a transpor a distância entre nós. Os lábios dela são quentes e pequenas explosões atravessam meu corpo como uma onda de cafeína inundando minhas veias. É um beijo perfeito, nem tão molhado, nem tão macio, e conto os segundos antes que ela se afaste, deixando sua testa descansar de encontro à minha. E quando tenho a impressão de que ela vai me beijar de novo, ela sussurra um doce e quase inaudível “obrigada”. Um vento me atravessa junto com a brisa cálida de verão. Observo enquanto Sana fecha os olhos e respira fundo. É sempre encantador ver a forma como ela parece se encontrar quando está em contato com a natureza. — Você soube que seu irmão se envolveu em uma briga na festa? — Ela pergunta. — Taehyung? Ah ele e os amigos sempre agem feito idiotas. — Foi por sua causa — Ela diz, e eu a encaro. — Alguém fez um comentário desnecessário ao seu respeito e ele literalmente encheu a pessoa de porrada. — Eu achava que ele me odiava — sussurro enquanto passo a mão sobre a grama a nossa volta. — Pelo contrário — Sana diz, e então segura minha mão. — Preciso te contar uma coisa. Pretendo ir a Osaka durante as férias de verão. Fico em silêncio. Na maior parte do tempo, sinto que estou na mesma sintonia que Sana, mas essa revelação me pega de surpresa. — Só que não é só isso. Tenho uma proposta para te fazer. — E qual seria? — Queria saber se você quer ir para Osaka comigo no próximo fim de semana? Mordo meu lábio inferior. Não sei ao certo o que dizer a ela. Sana percebe a expressão nos meus olhos e entrelaça meus dedos nos seus. — Olha, tudo bem se não quiser ir. — Voce está falando sério? Ela assente com a cabeça. — Bom, Eu adoraria, mas não sei como minha mãe vai reagir a isso. Tudo bem que sou maior de idade, mas ainda sou dependente financeiramente, então preciso da aprovação dela. Sana me lança um sorriso malicioso. — Não precisa se preocupar com isso. É só providenciar tudo o que você vai precisar. Eu me resolvo com sua mãe. […] Quando chego em casa, por volta das 11h, sou recebida por mais uma das discussões infinitas dos meus pais. — Isso é loucura — diz meu pai. Sentado no sofá, ele encara minha mãe, e eu tento lembrar quando ele me olhou da última vez. — Não estamos considerando isso a sério, né? Ele m*l olha para mim e, quando olha, é com desgosto. Alguns meses antes, eu era a menina dos seus olhos, sua filhinha modelo. Queria que ele soubesse o quanto fiquei magoada por saber que o tinha magoado. Taehyung entra em casa logo em seguida e nos encara, presenciando mais uma briga. — Você precisa aceitar as coisas como elas são — diz minha mãe. — Aceitar? Deixa disso. É ridículo! Eu não sou obrigado a concordar com absolutamente nada. — Bem, que conselho você tem a dar então? Porque ultimamente você só faz reclamar e evitar a situação, o que não é nada realista. — O que a psicóloga que nos custa uma boa quantia em dinheiro tem a dizer sobre isso? Eu não sei. A Dra. Yoo e eu conversávamos mais sobre os variados tipos de arte do que sobre qualquer outra coisa em específico. — O que você pensa ganhar agindo assim, Dahyun? — Pergunta meu pai. — Será que você não percebe o quanto isso afeta nossas vidas sociais? Permaneço em silêncio. — Droga, Dahyun! Você tem noção do que está fazendo com essa família?! — Ele grita. Então esmurra a lateral do sofá, infla o peito e enrijece a mandíbula antes de voltar a falar: — Como é que a gente pode ser realista quando ela se comporta como uma criança? — Não sei, mas é mil vezes mais difícil quando o adulto da casa surta toda vez que mencionamos o fato de sua filha ser lésbica! Ele ergue as mãos, desistindo, e se levanta do sofá. — Faça o que quiser, Eun. Pode continuar agindo como se isso tudo fosse normal. Tenho certeza de que isso não vai causar nenhum problema no futuro. — Vê se cresce, Kwan! — Grita minha mãe enquanto meu pai sai da sala cheio de ódio. Ela baixa a testa até as mãos. — Eu vou resolver isso, Dahyun. Essa situação desagradável já passou dos limites a muito tempo. Mas, se for possível, peço que você tenha um pouco de paciência. Preciso cuidar de algumas coisas antes de tomar uma atitude definitiva. Ela sai da sala com os ombros encurvados e o estresse elevado. Taehyung ainda está na entrada da casa. Ele olha para mim antes de dizer: — Que situação desgastante. Passando por ele, sinto minha respiração ficar cada vez mais forte. Entro no quarto e fecho a porta, então me sento na minha cama e levo a mão ao peito, tentando acalmar meu coração acelerado. Fecho os olhos quando ouço Taehyung entrar no quarto. Seria fácil voltar minha raiva contra ele, mas definitivamente não vou fazer isso. A última coisa que desejo no momento é começar uma discussão sem sentido com meu irmão. Me preparo para ouvir suas típicas acusações de como estou acabando com a nossa família, mas ele me surpreende perguntando: — Você está bem? — Vou ficar — digo, olhando para ele. — Soube que você se envolveu em uma briga na festa de ontem. As sobrancelhas de Taehyung se abaixam, e sua boca se estreita. Ele entra no meu quarto, se recostando na parede mais próxima e cruzando os braços na frente do corpo. — Você sabe que eu não aceitei muito bem quando contou sobre sua orientação s****l — ele diz com suavidade, e a mágoa inunda minha corrente sanguínea. — Eu tinha vergonha da reação que as pessoas teriam quando descobrissem. Não queira ser apontado como o cara que tem uma irmã lésbica, como se isso fosse uma mancha social. — Olha, Taenhyung, eu agradeço que tenha vindo ver como estou — Mordo o lábio inferior, tentando não chorar. Depois de tantas discussões e sentir raiva, não apenas me sinto fisicamente exaurida, como emoções mais suaves começam a aflorar. — Mas talvez possamos deixar essa conversa para depois. Ele passa a mão nos cabelos e se aproxima, sentando na beirada da minha cama. — Não vim aqui para discutir com você. Escute. Tudo isso é verdade, mas eu não posso negar que me senti incomodado diante de alguns comentários que vi a seu respeito na faculdade. Você é minha irmã, Dahyun. Não consigo simplesmente ficar parado enquanto alguns babacas se acha no direito de te ofender. — Obrigada — murmuro, virando-me para ficar de frente para ele. — Você não sabe o quanto isso significa para mim. — Admito que ainda não entendo muito bem essa questão, mas talvez eu só precise de um tempo… — Tudo bem. Também queria me desculpar pelo recente clima pesado dessa casa — falo para ele, sabendo que é por minha causa que nossos pais estão discutindo tanto ultimamente. Taehyung balança a cabeça antes de dizer: — Acredito que não é você que precisa se desculpar aqui — Ele se levanta e caminha até a porta. Então para e olha para mim. — Se alguém encher o seu saco de novo na faculdade, é só mandar vir falar comigo. Eu resolvo. — Certo. Mas aproveitando que você resolveu bancar o irmão mais velho, o que acha de descer até a cozinha e preparar alguma coisa para nós? Ele franze a testa por um segundo antes de sorrir. — Hoje é seu dia de sorte, porque era exatamente isso que eu ia fazer agora. Mas a louça é sua. Meu irmão sai do quarto e após mandar uma mensagem para Sana contando a novidade, faço o mesmo. Naquela noite, depois que minha mãe saiu para o trabalho, nós dois fomos ao mercado comprar algumas coisas. Quando voltamos, passamos horas na cozinha. Taehyung me contou que conseguiu um estágio em uma galeria de arte enquanto terminava o jantar. Então aproveitamos a ocasião para comemorar essa sua conquista ao mesmo tempo que recuperávamos um pouco da nossa relação entre irmãos.
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