Sana's pov:
Boa parte do meu amor pela música foi herdado da minha mãe, foi ela que me apresentou ao exercício lindo e intenso do violino quando eu tinha 7 anos. Todas as tardes, enquanto eu fico sentada na varanda de casa, mais e mais lembranças ressurgem em minha mente. Eu nunca me esquecerei da primeira música para violino que ela me ensinou. É uma das minhas lembranças preferidas com ela.
"Era um final de tarde. Minha mãe e eu estávamos em seu escritório, ela sentada a sua mesa, trabalhando nas partituras de mais uma composição, eu em silêncio enquanto a observava. Ela finaliza os últimos ajustes da música antes de erguer a cabeça e olhar para mim.
— Já percebi o quanto você parece interessada nisso, Sana. Então acho que está na hora de começar a ensiná-la o verdadeiro significado da música — Ela diz.
— O verdadeiro significado da música?
Eu não estou entendendo nada, mas ela vira para a esquerda, onde o estojo do seu violino repousa ao lado de outro sobre o sofá do escritório.
— Certo. Você precisa prestar atenção, porque isso é sério e é preciso dedicação. Acha que consegue se dedicar a aprender esse instrumento?
Sorrio e assinto enquanto vejo seus dedos começarem a afinar as cordas do violino. Ela coloca o instrumento sobre o queixo e fecha os olhos, à medida que a música preenche o espaço, seus dedos se movem pelas cordas e o arco desliza sobre o braço do violino. Bach Chaconne; Jascha Heifetz, ressoa pelo cômodo enquanto ela toca todas as notas, concentrada o tempo inteiro.
— Nossa — murmuro quando a música acaba.
Ela abre um sorriso divertido.
— Pois é. Tenho uma coisa para você, só um instante. — Ela se vira, abre o segundo estojo e ergue um violino. — Meu pai me deu isso quando eu era criança, e agora estou passando adiante para você. Cuide bem dele.
Fico encarando minhas palmas das mãos vazias enquanto ela o coloca nelas. Eu o abraço como se estivesse segurando o mundo nas pontas dos dedos.
— Nossa — murmuro de novo.
— Então, está pronta? Vou preparar um programa de aulas para você.
Ela guarda seu próprio violino antes de voltar para sua mesa. Passamos a noite rindo, conversando e aprendendo sobre o verdadeiro significado da música."
Fecho o estojo do meu novo instrumento e saio do quarto. Ainda tenho o violino que minha mãe me deu, mas como já não o uso mais, optei por deixá-lo em Osaka. Quando desço as escadas encontro Momo de saída para o trabalho.
— Então, vai aceitar minha carona hoje? — Diz, verificando algumas mensagens no celular.
— Desculpa, mas vou ter que recusar.
Ela ergue o olhar e me lança um sorriso travesso.
— Ainda quero entender o porquê de você gostar tanto de pegar o ônibus para ir a faculdade. Algo me diz que tem alguma coisa aí.
Sorrio.
— Bom, talvez você não esteja tão errada assim.
Coloco minha mochila no ombro e avanço em direção a porta. Mas quando estou calçando meus tênis, escuto Momo dizer meu nome. Ainda estou parada perto da porta quando ela se aproxima.
— Eu sei que você evita dirigir ao máximo — ela diz, enquanto pega as chaves de casa sobre a mesa no hall de entrada —, mas se quiser, o carro na garagem está a sua disposição.
Depois do acidente, fiquei um bom tempo afastada de muitas atividades que me eram comuns, incluindo dirigir. Mas assim que me foi possível, fiz questão de entrar em um carro. Não foi uma das melhores sensações, mas eu precisava garantir a mim mesma que seria capaz de superar ao menos isso. No entanto, ainda hoje só dirijo em situações que de fato são inevitáveis.
— Eu agradeço, Momo, mas por enquanto não há necessidade.
[…]
— Pensei que fosse se atrasar — Dahyun diz no ponto de ônibus.
Normalmente, Chaeyoung é a primeira a chegar à esquina, mas ela ainda não está aqui. Talvez tenha se atraso um pouco, mas eu sei que logo vai aparecer.
Sorrio para Dahyun e seguro na alça da mochila.
— Estava preocupada em não ter minha presença hoje?
— Não — ela diz, chutando em um movimento circular. — Mas ontem a gente combinou de ir até a sala de Prática Instrumental antes do início da primeira aula. Agora não tenho certeza se isso vai ser possível.
— Calma aí, senhorita. Se não tivermos tempo de fazer isso agora pela manhã, podemos fazer depois da última aula da tarde.
— Tudo bem — ela sussurra, parando de mexer o pé.
— Certo, vou ser direta aqui — Digo, olhando para ela. — Aconteceu alguma coisa?
— Não vou responder — Dahyun diz, esfregando as pontas dos dedos nas sobrancelhas.
Ela está sem nenhuma maquiagem e parece perfeita. As vezes eu chego a pensar que ela não é real.
— Por que não?
Dahyun guarda tanto as coisas para si que não parece justo. Às vezes eu tenho dúvidas quanto ao seu relacionamento familiar, mas não sei se devo perguntar. Se ela quisesse que eu soubesse, teria me contado. Talvez não saiba que eu estou disponível para escutá-la.
— Você pode conversar comigo, sabia… sobre suas questões familiares, se precisar conversar com alguém. Não sei se você fala sobre isso, mas só queria que soubesse que, se precisar de alguém para desabafar, estou à disposição.
Ela respira fundo e passa as mãos nos cabelos enquanto o ônibus chegava.
— Nossa, Sana! Ainda não são nem oito horas da manhã e você já está conseguindo tirar minha paciência. Vou considerar isso um péssimo sinal para o restante do nosso dia.
Meu sorriso aumenta. Ela fica linda quando está irritada.
— Cedo demais para falar sobre problemas pessoais?
— Muito cedo. Na verdade acho que nunca vai ser a hora certa para conversar sobre isso.
— Está bem — Digo com ar pensativo. — Então voltamos a falar sobre problemas pessoais na hora do almoço de hoje?
— Por que você é tão descompensada, hein?
— Porque foi assim que minha mãe me criou — respondo, deixando Dahyun entrar no ônibus antes de mim. — E isso me faz lembrar da minha próxima pergunta: posso almoçar com você e Chaeyoung?
— Eu pensei que almoçasse com o grupo de populares.
— Eu não consigo me enturmar com aquelas pessoas. A maioria deles toca algum instrumento, mas não querem conversar sobre nada relacionado aos melhores compositores do mundo nem a respeito da ideia interessante de misturar sons clássicos com música moderna.
A faculdade me irrita em alguns aspectos. Desde que eu cheguei, fui rotulada e jogada numa caixa por causa de características que são naturais para mim. Eu fui encaixada em um grupo que não tem o menor desejo de me conhecer, pois eles não se preocupam com nada além do exterior das coisas. Por fora, eu me enturmo. Por dentro, é uma tortura.
— Além disso, com base na definição de popular, aquelas pessoas são o oposto do significado da palavra. — Continuo. — Elas são cruéis por nada e completamente egoístas.
— Fica muito difícil continuar irritada com você com esse seu sotaque ridículo.
Ela sorri de um jeito brincalhão. Eu gosto desse lado dela.
— Posso falar mais, se você quiser — digo, caprichando em meu melhor sotaque de Osaka. — E então, vai permitir que eu me junte a vocês, ou, devo continuar sendo torturada durante o horário do almoço?
Quando Dahyun diz que eu posso almoçar com elas, faço uma dancinha e ela diz para eu nunca mais repeti-la.
Então claro que a repito antes de sentar ao lado dela.
— O que está fazendo? — Pergunta.
— Como Chaeyoung não está aqui, achei que o convite estava em aberto para eu sentar ao seu lado no ônibus.
— Hoje você está abusando, Sana. Quer sentar comigo no almoço e no ônibus?
Assinto com a cabeça.
— Mas também é porque assim podemos ir trabalhando no nosso projeto. Imaginei que precisamos começar a ter contato com música boa se quisermos um resultado excelente.
Enfio a mão na mochila, pego meu celular e entrego para ela um dos fones.
— Posso saber o que você está aprontando? — Ela pergunta, com um olhar confuso.
— Simples, você está prestes a vivenciar um momento único. Vai ser como uma explosão de cor.
— Você sempre está tão acordada assim de manhã?
— Todos os dias.
Cada uma coloca um dos fones. Aperto o play.
— O que temos aqui? — Ela pergunta.
— É uma playlist que fiz na casa do meu tio no fim de semana. Tem as músicas dos meus violinistas preferidos. A primeira é Bach Chaconne; Jascha Heifetz.
Quando a música começa a tocar, relaxo e começo a tocar um violino invisível, fazendo-a rir.
Dahyun não diz mais nada, então analiso os sinais sutis que uma pessoa sempre demonstra quando está curtindo uma música boa.
Ela começa a batucar os dedos em um ritmo padronizado. Então fecha os olhos e sorri.
Logo se perde na música, e eu não poderia ter ficado mais contente.
[…]
Algumas pessoas reclamam quando não me junto aos populares no horário do almoço, mas não me importo, porque Dahyun sorri para mim enquanto eu me aproximo da sua mesa.
— Minha nossa — ela diz, mexendo no seu almoço.
— Ah, obrigada. Também acho você linda, Dahyun — respondo, sentando na frente dela.
— O quê?! — Ela pergunta, corando.
Toda vez que fica nervosa, ela coloca o polegar entre os dentes e desvia o olhar.
— Desculpe, mas achei que estivesse impressionada com minha presença. Talvez até flertando comigo.
— Bem, não era isso.
— Está bem, vou aprender a conviver com sua rejeição.
Ela sorri, e eu adoro isso.
— Deixe-me ver seu celular.
Dahyun arqueia uma sobrancelha, mas me entrega o aparelho. Eu deslizo a tela e começo a digitar.
— O que está fazendo?
— Adicionando meu contato para você me mandar alguma mensagem interessante quando nós não estivermos perto. E agora estou decorando seu número para poder mandar mensagens com todos os meus pensamentos brilhantes sobre as mais variadas vertentes da música clássica e contemporânea.
— Ah, estou louca para saber todos os detalhes sobre as infinitas ideias que você deve guardar na cabeça.
Antes que eu possa responder seu comentário sarcástico, Chaeyoung aproxima-se da mesa parecendo um zumbi e se senta.
— Você está bem, Chaeyoung? — Pergunto, observando-a com um olhar atento.
Dahyun lança para ela o mesmo olhar preocupado.
— Perdi o primeiro horário — Chaeyoung murmura.
Dahyun põe a mão no coração, dramaticamente.
— Ah, não!
Dou uma risadinha enquanto levo meus hashis a boca; as senhoras da cantina disseram que meu primo pediu para que guardassem um pouco de yakisoba para mim, mas não sei muito bem o que pensar sobre isso. Ao menos o prato parece estar bem preparado.
— Qual é o problema? Eu já perdi um dia inteiro.
— Não, você não está entendendo. Eu perdi minha aula de História da Arte — Chaeyoung diz, cruzando os braços na frente do corpo.
— Essa, não! — Dahyun diz, cobrindo a boca.
Eu não estou entendendo. Elas estão agindo como se Chaeyoung tivesse acabado de revelar que matara alguém a sangue-frio. Alterno o olhar entre elas, como quem pede uma explicação, mas Chaeyoung apenas encosta a cabeça na mesa enquanto Dahyun me lança um olhar de quem vai explicar depois.
Eu deveria ter adivinhado que esse não é o melhor momento para perguntar, mas eu preciso saber por que exatamente Chaeyoung se atrasou.
— Você dormiu demais ou algo assim? — Pergunto.
— Exato. Fiquei tão absorta na criação de uma tela que acabei indo dormir tarde. Como resultado, perdi o horário hoje pela manhã.
Enquanto eu continuo comendo meu almoço e Dahyun consolando sua amiga chateada, assisto a Mina entrar no refeitório. Seus cabelos estão soltos e ela caminha com fluidez até a cantina.
Como descobri durante nossa última conversa, Mina estudou balé durante toda a infância. Mas apesar de ter talento para a coisa, ela descobriu que sua verdadeira paixão eram as telas e os pincéis. Há dois anos ela se mudou para Seul afim de estudar na KArts e desde então é considerada uma das melhores alunas do departamento de artes da faculdade.
— Ei, garotas? Eu tomei a liberdade de convidar uma amiga para se juntar a nós. — Digo, apontando na direção de Mina com a cabeça.
— Myoui Mina? — Pergunta Chaeyoung, parecendo surpresa. Seu rosto se ilumina quando ela corre os olhos pelo refeitório e para na garota em questão.
Ergo a sobrancelha.
— Ah, então vocês se conhecem?
— Mina está no meu departamento. — Ela diz, tamborilando na mesa. — Temos algumas aulas em comum.
Acho que já estou conseguindo entender o que está acontecendo aqui. Ergo a mão na direção de Mina e aceno para ela.
— Ei, Mina.
Quando ela se aproxima da nossa mesa, bandeja nas mãos, me cumprimenta. Então olha para Dahyun e depois para Chaeyoung. As duas trocam um olhar demorado, e eu estreito meus próprios olhos. Está óbvio que elas são mais que boas colegas de turma.
— Sana me convidou hoje mais cedo, mas tudo bem me juntar a vocês?
— Claro que sim. — Chaeyoung responde, sorrindo.
Os olhos de Mina voltam-se para o grande relógio do refeitório e depois para o próprio relógio de pulso.
— Eu só tenho alguns minutos para ficar com vocês.
— Alguns minutos parece ótimo — respondo.
Ela coloca a bandeja do meu lado na mesa e nós quatro ficamos em um silêncio constrangedor, encarando umas as outras.
— Você fez a pesquisa, Chaeyoung? — Pergunta Mina.
— Pesquisei o quê? — Ela responde.
— Sobre o Renascimento. Lembra? Lembra que eu comentei que seria interessante você pesquisar sobre os artistas desse período?
— Ah, na verdade, eu fiz uma breve pesquisa. Descobri que os campos de atuação desses artistas forma muito além da pintura propriamente dita.
Mina sorri.
— Exato. Eles aprendiam coisas diferentes como linguagens, instrumentos, pintura, construção, tudo isso enquanto combatiam pestes mortais. O fato de que a nossa geração m*l consiga se dedicar a uma única coisa é muito desanimador porque não estamos fazendo muita coisa com as nossas vidas.
Nossa. Eu realmente gosto do jeito dela.
O almoço correu bem. E, de alguma forma, consegui acompanhar o debate animado entre Mina e Chaeyoung. Sério, elas rapidamente entraram em um mundo de domínio quase exclusivo delas. Mas sendo sincera, isso deu a******a para que Dahyun e eu pudessemos discutir sobre o nosso projeto final. E por um momento até me esqueci dos meus problemas pessoais.
Mina olha para o relógio de pulso antes de dizer:
— Preciso ir. Minha próxima aula começa em alguns minutos.
Ela se levanta, trocando um rápido olhar com Chaeyoung, então se afasta.
— Acho que ela gosta de você — digo para a coreana que nem consegue disfarçar sua admiração.
Ela abre a boca para gritar comigo, mas logo a fecha. Seus pensamentos parecem estar a mil e as expressões faciais mostram que ela está confusa com o que eu acabei de dizer. Ela fica de pé muito rápido.
— Também está na minha hora. Não pretendo perder outra aula hoje.
Dahyun, sentada à minha frente, semicerra os olhos.
— O que é que você está aprontando?
Não respondo, porque nem eu sei direito.