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2793 Words
Sana's pov: "Eu me afastei o máximo que pude dos problemas. Eu me concentrei na minha música. Eu me concentrei no meu curso. Porém, em vez de me preparar para a apresentação que farei em poucas horas, eu estou levando Bang Chan para o hospital mais próximo. Ele mexe nos dedos, olhando para o chão. — Não quero mais passar por situações assim, Sana. E estava pensando. — Ele olha para mim antes de desviar o olhar e baixá-lo de novo. — Talvez eu não devesse mais frequentar esse tipo de lugar. — Bang Chan. — Eu sei, eu sei. Eu estraguei tudo… — Você não estragou nada — corrijo, olhando para a estrada. — Mas sabe como essa zona da cidade é perigosa. — Eu sei. Mas, você também sabe. O único momento em que realmente posso ser… — Ele hesita. Mexe-se no banco, inquieto. Faço uma careta. — O único momento em que realmente posso ser eu mesmo é em festas como essas. Meu estômago embrulha, e não faço nenhum comentário sobre isso. Mudo de assunto: — Você precisa fazer um boletim de ocorrência quando sair do hospital. Seus olhos se arregalam e ele balança a cabeça em negativa. — Não. Não posso envolver a polícia — recusa. — Por quê? Por causa dos seus pais? Ele assente com a cabeça. — Até quando pretende viver assim, Bang Chan? — Pergunto, irritada. — Isso não importa. — Lanço um olhar frio e ele suspira. — Você conhece meus pais e o meio social no qual eles estão inseridos. Eu não posso simplesmente envolvê-los em um escândalo como esse! De que diabos ele está falando? Não é possível que ainda esteja pensando nisso depois do que passou? — Escândalo? — Pergunto, meu sangue fervendo. — Estamos falando da sua vida, Bang Chan! Enquanto eu estou freneticamente considerando a situação, um flashe de luz parece invadir o interior do meu carro. Por um momento, eu não vejo nada demais nisso, mas em seguida, um carro se choca violentamente contra o nosso. Sou jogada para a frente, meu cinto de segurança pressionando firmemente contra meu peito, minha cabeça colidindo contra a janela. Minha visão fica turva, ruídos altos parecem me envolver de todas as direções. Ruídos de coisas sendo quebradas e esmagadas, explodem e invadem meu ouvidos. Eu penso ouvir Bang Chan gritar alguma coisa, mas então estou perdendo a consciência. Eu não lembro quanto tempo se passou, mas quando minha mente registra mais uma vez, eu estou sobre minhas costas. Não dentro do carro, em outro lugar. Tem muita luz. Fortes flashes que machucam minha visão. Dor, frio, medo. Meu cérebro não consegue se mover para além de três palavras cantadas. Uma pessoa diz alguma coisa, mas não consigo distinguir suas palavras. Eu tenho certeza de que meus olhos estão abertos, mas também não consigo visualizar nada além de luz. Luz branca. Luz brilhante. Eu tento me mover. As instruções que dou ao meu corpo são claras, mas há uma violação em algum ponto de conexão, eu não consigo me mover. Tento gritar. Não posso. A última coisa que sinto é uma lágrima deslizando. A última coisa que penso é "Eu não quero morrer". Eu quero viver. Então a consciência volta. Alguém segura minha mão. Eu reconheço esse toque. Minha mãe. Dor. Frio. Medo. Sinto como se alguém tivesse me quebrado por completo, mas, pensando bem, isso meio que aconteceu mesmo. Quase dou as boas-vindas à dor, porque sei que isso significa que estou viva. Mas fico no quase, porque dói demais. E eu quero mesmo é que a dor vá embora. Uma voz profunda, distante, enche meus ouvidos. Não tenho certeza se é alguém de fato distante ou só mentalmente distante. Mas acho que está com raiva. Não consigo entender o que está dizendo. Mas acabei de acordar. Por que alguém estaria com raiva de mim? Tento abrir os olhos. É muito difícil, minhas pálpebras parecem inchadas e pesadas. Sinto o cheiro de hospital. Vejo as paredes brancas. Sinto a dor… principalmente no braço esquerdo. Os bipes do monitor enchem meus ouvidos. A enfermeira está ao meu lado. Ela sorri. — Está tudo bem. Apenas relaxe. Você está indo bem. Fecho os olhos e me deixo vagar para longe. Então tudo desaparece. O medo. A dor no braço. E de repente eu não estou mais lá. Estou aqui." Não é a primeira vez que eu acordo completamente agitada, mas tampouco acredito que seja a última. Jogo minhas cobertas de lado e me sento sobre o chão, puxando as pernas contra o peito. Eu devia sair do quarto, ir para o bosque e tocar violino, mas não é isso que faço. Continuo sentada ali, esperando que tudo isso seja apenas um pesadelo, e que, ao acordar, tudo vai estar como antes do acidente. Passo a noite inteira acordada, tentando acordar desse pesadelo. Eu estou exausta. Acho que não é normal uma garota de 23 anos se sentir tão cansada. Eu estou cansada de fingir que estou feliz na faculdade. Estou cansada de me preocupar com a possibilidade de em algum momento precisar largar a música. Estou cansada de me perguntar se um dia vou conseguir de fato superar o que aconteceu. Estou cansada do pesadelo que é minha vida, e tudo que eu quero é acordar. […] Na manhã seguinte, por volta das 6h, Dahyun aparece no Yongsan Park. Eu estou exausta por causa do estresse com os pesadelos na noite anterior. Meu corpo está dolorido e encurvado. Eu não dormi nada. Dahyun para longe de mim. Inclina a cabeça na minha direção. — Você está bem? — Ela pergunta. Tento sorrir, mas não consigo. Qualquer outra pessoa teria recebido meu maior sorriso e uma mentira, mas com ela isso não parece necessário. Com ela, estar destruída não parece um problema. Balanço a cabeça. — Não — Digo, encostando numa árvore. Assentindo com a cabeça, ela se aproxima. Então se encosta na árvore mais próxima e se vira para mim. Coloco as mãos no bolso da calça de moletom e ficamos ali encarando uma a outra em silêncio, mas dizendo muitas coisas. Pela primeira vez, eu mostro a Dahyun quem eu realmente sou. Eu lhe mostro a minha verdade. Em meus olhos, ela vê o isolamento que eu nunca mostro para ninguém. Ela vê o sofrimento em minha alma que eu escondo por trás de sorrisos e mentiras. — Pode conversar comigo — ela diz. — Se quiser. Passo a mão nos cabelos e me pergunto se eu quero conversar ou não. Conversar vai tornar tudo real. Talvez isso seja o que eu mais preciso. — Há oito meses me envolvi em um acidente, onde meu amigo faleceu e, eu perdi os movimentos da mão esquerda. Depois que me recuperei, eu quis me afastar de tudo isso o máximo possível, por isso me mudei para Seul. Achei que seria mais fácil, sabe? Mas continuo sendo assombrada pelas lembranças todas as noites e não sei como lidar com isso. — Meu Deus, Sana. Sinto muito. É muita coisa — ela sussurra. — É coisa demais. Assinto com a cabeça. — Sabe o que é pior? Isso só aconteceu por que meu amigo fora vítima de homofobia. Ele estava ferido e não podia contar com mais ninguém além de mim. — Enquanto falo, as lembranças vão ressurgindo. E me obrigo a manter a calma. — Nós estávamos a caminho do hospital quando fomos atingidos por um carro em alta velocidade. Ele morreu na hora. Você tem noção do que uma atitude de intolerância desencadeou? — Infelizmente essa é uma realidade com a qual temos que conviver — ela diz, com um sorriso triste. — A vida é assim. A gente se envolve muito com os outros, mas ao mesmo tempo estamos todos sozinhos. Não dissemos mais nada. Ela não está tentando me alegrar. Eu não estou querendo me sentir alegre, e Dahyun entende. Tudo o que ela faz é segurar minha mão e delicadamente entrelaçar nossos dedos. Seu toque é quente, macio, reconfortante. — Por que não me disse que estava triste? — Ela pergunta, encarando nossos sapatos e chutando algumas folhas. — Eu não sabia que podia me sentir assim. Meus pais já estavam lidando com suas próprias questões, então parecia que eu não tinha o direito de trazer mais preocupação. Quando ela para de mexer os pés, olho para cima e vejo que seus olhos escuros me encaram. — Você pode ficar triste comigo — ela oferece. — Não precisa mais esconder. Seu olhar é compreensivo, caloroso. De alguma forma, provoca a mesma sensação que o sol traz ao aquecer um ambiente frio. Eu só havia sentindo algo assim ao tocar violino, momentos em que eu consigo escapar da realidade por um tempinho. Fechar os olhos e sentir o arco deslizar por cima das cordas era meu único consolo até Dahyun olhar para mim. Ela olha para mim como se realmente me enxergasse, enxergasse quem eu realmente sou. E Dahyun aceita isso. Assinto com a cabeça. — Obrigada, Dahyun. — De nada, Sana. […] Na quinta, Mina me convida para ir a sua casa para “conversarmos sobre um determinado assunto”, segundo suas próprias palavras. Todo esse tempo, eu pensei que ela morasse a várias quadras da minha casa, mas dou uma das caminhadas mais curtas da vida e chego à casa dela do outro lado da rua. Sua mãe abre a porta. — Bom dia, posso ajudá-la? — Ela diz, sorrindo. — Sim. Meu nome é Minatozaki Sana, sou amiga da Mina. Combinei de me encontrar com ela aqui hoje. Seu rosto se alegra, e ela coloca as mãos nos quadris. — Você é amiga da Mina?! — Sim, a gente se conheceu na faculdade e… — Isso é algo realmente bom. Pode entrar, Sana — diz a mulher, segurando meu braço e me puxando para dentro. — Meu nome é Kaori. Espere aqui enquanto eu chamo a Mina. Talvez pareça muito estranho, e um pouco exagerado, o drama que a mãe de Mina está fazendo por ela ter uma amiga, mas na verdade acho que ela só está… muito feliz. Mina surge pelo corredor, sendo seguida por sua mãe. — Você não precisa assustá-la, mãe. Oi, Sana, tudo bem? Pode vir para o meu quarto. — Vou fazer brownies! — Diz Kaori. — Sana, você gosta de brownies? — Mãe, por favor, vamos manter a calma. Nós só vamos conversar um pouco. — Adoro brownies — Interrompo. Uma pessoa sábia jamais recusaria a oportunidade de comer brownies caseiros. Mina revira os olhos e eu sorrio. Ela me leva até seu quarto. Observo todos os retratos de família nas paredes, e acabo percebendo que ainda tem um detalhe que desconheço sobre minha nova amiga. Entramos no quarto dela e Mina fecha a porta atrás de si. — Acho que você já percebeu que eu não recebo muitos amigos, né? — Mas isso não é um problema. — Tem certeza disso? Você viu a reação da minha mãe só porque alguém veio me visitar. Enfim, fico feliz por você estar aqui porque preciso da sua opinião. Dou uma olhada no quarto extremamente limpo. Não há nada fora do lugar. No closet, as roupas estão organizadas. Na prateleira, estão dispostos livros dos mais variados gêneros. — Então, no que exatamente você precisa da minha opinião? — Pergunto, sentando em um dos seus pufes. — Você acha que eu tenho alguma chance com Chaeyoung? Inclino a cabeça e semicerro os olhos. Ela mexe as mãos antes de continuar: — Tudo bem que a gente já saiu algumas vezes, mas não sei dizer se ela sente alguma coisa por mim ou se está sendo apenas gentil. — Ela diz, suspirando pesadamente ao sentar na sua cama. — Afinal, nós não tínhamos trocado mais que poucas palavras até algumas semanas atrás. Talvez eu esteja interpretando a situação de uma maneira totalmente errada. Sorrio. — Ela gosta de você, Mina. — Ah, eu sei. Também gosto dela — ela diz, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Não, ela realmente gosta de você. — Ah — Mina parece surpresa ao ouvir isso, mas então sorri de forma singela. — Então você sugere… — Que você converse com ela. Ela fica em silêncio, pensativa. — Sabe de uma coisa? Pode dar certo. — Certo, agora que essa situação já foi resolvida — Digo, sorrindo. Então me levanto e caminho até sua prateleira de livros. — Você se importa se eu der uma conferida na sua coleção literária? — Claro, sinta-se a vontade. Tentando soar casual enquanto olho um dos exemplares de Mina, digo: — Vi as fotos da sua família no corredor. Ela pigarreia. — Ah, sim. Minha mãe é fotógrafa, então você deve imaginar o quanto ela gosta desse tipo de coisa. — Não sabia que você tinha uma irmã gêmea. Ela olha para as mãos enquanto fala. — Sharon vivia doente, indo e voltando do hospital entre os 5 e os 7 anos. Ela sofria de uma doença cardíaca. Mesmo depois de algumas cirurgias, os médicos disseram que ela não sobreviveria. Então, um dia, ele simplesmente perdeu a batalha pela vida. — Nossa. Sinto muito, Mina. Vejo a tristeza em seus olhos enquanto ela olha para um ponto qualquer do seu quarto. — Próximo assunto? — Pergunta, sem querer falar mais sobre isso. Eu não vou insistir. Então, mudo para um tópico mais tranquilo. — Então, eu estava pensando sobre Dahyun… — Isso sim é surpreendente. Ela sorri maliciosamente, relaxando de novo. — O que você quis dizer com isso? — Ah, vejamos. Talvez seja o fato de que você passa todos os segundos em que estão juntas olhando para ela com cara de apaixonada? — Tenha paciência, Mina. Eu não faço isso. Enfim, preciso de uma sugestão de um lugar para levar ela porque ainda não estou totalmente familiarizada com os eventos da cidade. Mina ergue a sobrancelha. — E quer que eu te dê uma sugestão? Assinto com a cabeça. — Bem, já que ela também estuda música, suponho que algo relacionado a isso vá funcionar. Na verdade, tem um festival de música clássica programado para esse fim de semana. Mas a entrada é um pouco cara. — Estou ouvindo. Ela me conta, e o preço me faz estremecer. Faz muito tempo que eu não gasto tanto dinheiro, mas com toda certeza vai valer a pena. […] — Nós vamos sair esse fim de semana, Dahyun — falo para ela na sexta, enquanto ela se aproxima de mim no Yongsan Park às 6h. Ela vem apreciar o nascer do sol comigo quase todos os dias em que está se sentindo bem. Quando não aparece, eu interpreto que esta em um dia r**m e dou um jeito de passar na sua casa sem que seu pai perceba. — Do que você está falando? — Ela pergunta, me encarando com um olhar confuso. — Amanhã. Nós. Vamos. Sair — repito mais lentamente. — Não comece, Sana — Ela responde, encostando-se numa árvore. Eu me encosto na árvore ao lado. — Vamos, garota linda que vai passar o fim de semana comigo, me deixe continuar. — Ah, por favor… — Dahyun sorri, desviando o olhar. Ela geralmente faz isso quando está envergonhada ou refletindo sobre algo, então é necessário prestar muita atenção para saber qual é o caso. Mas não é trabalhoso. Na verdade, é muito fácil prestar atenção nela. — O que? Eu realmente acho você linda. — Aposto que você diz isso para todas as garotas da faculdade. Eu não consigo parar de sorrir. — E por que a gente faria isso, hein? — Ela pergunta. Coloco a mão no bolso de trás e tiro dois ingressos. Os olhos de Dahyun focam neles. — Achei que talvez você se interessasse por isso. Ela arranca os ingressos da minha mão. — Você comprou ingressos para a o festival de música clássica? — Sim, comprei, mas ele acontece somente nesse fim de semana. Ela franze a testa. — É em Busan. Fica a três horas de trem daqui. — Então acho que a gente vai precisar sair cedo. — Você quer mesmo fazer isso? — Ela pergunta, com a voz esperançosa. "Desde que você esteja ao meu lado." — Sim. Ela não responde imediatamente. Fica ali olhando os ingressos enquanto eu a encaro. Analiso todos os detalhes do seu rosto delicado e, quando termino, começo de novo. — Eu nunca fiz nada desse tipo. — Sempre bate uma empolgação quando fazemos algo pela primeira vez. Ela sorri. — Então, acho que temos uma viagem marcada para o fim de semana.
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