Lyana
Fechei os olhos com força desejando que de alguma forma tudo se transformasse em apenas mais um pesadelo estranho, mesmo lutando contra essas sensações diferentes causadas por estar nos braços de um monstro.
—Abra os olhos Lyana. — A voz grave ordena.
Incapaz de desobedecer vejo o seu olhar analisando cada detalhe meu, sinto a agitação de antes voltar com mais força ainda, desvio os olhos observando o mesmo quarto no qual acordei. Ele parece esperar por alguma palavra minha, mas não tenho nada a dizer, finalmente deixa que fique de pé e o mais estranho é sentir falta do calor dele.
— Não ouse fazer isso novamente, posso não ser tão compassivo.
Rapidamente viro a cabeça para olha-lo sinto as bochechas queimando com raiva segurando as lágrimas pela dor em meus pés queimados pelo gelo, as lágrimas pela frustração de estar machucada, frágil e aprisionada por culpa dele.
—Não pode me obrigar a ficar aqui!
Em um piscar de olhos perco a rapidez do seu movimento a mão firme segura a minha nuca com força subjugando os meus movimentos, fico presa ao seu olhar.
— Eu posso fazer o que quiser, criança.
Estremeço com a autoridade tão forte na sua voz, pela primeira vez tão próxima posso ver o quão forte o azul intenso lembra o oceano tão distante, é uma imensidão tão forte quanto uma força da natureza cheia de detalhes cinzentos como se estivesse se transformando em uma tempestade.
Fico assustada com o toque carinhoso da sua mão livre o que faz o canto dos lábios cheios se curvarem deixando a barba ainda mais marcada contra a face, mostrando algumas marcas do tempo. É assustador como a sua energia deixa tão claro sua crueldade, sinto que estou ofegando, as mãos dele estão sujas de sangue e mesmo assim sou tocada por elas.
—Diferente das palavras que saem da sua boca o seu corpo parece desejar outra coisa.
— Você é um monstro.
—Então já deveria saber que monstros foram feitos para devorar crianças assustadas como você.
Ergo a mão para estapear o seu rosto, mas tenho o punho preso seus olhos se tornam escuros e perversos. Sou puxada contra o peitoral forte nossa diferença de altura obrigando-me a erguer a cabeça a mão que prendia a minha nuca se enrosca nos fios soltos do meu cabelo, com um único puxão forte abro a boca para gritar mas nenhum som sai. A língua maldosa entra na minha boca iniciando uma guerra sem fim, roubando o folego e causando um incêndio.
Estamos com os olhos abertos enquanto de uma maneira louca acabo retribuindo o beijo com força é um desafio entre nós, sou consumida por um ódio que jamais imaginei ser capaz de sentir por alguém, quando sinto a língua dele exigindo cada vez mais fecho os dentes com força arrancando um gemido doloroso, sou solta no mesmo momento enquanto o sangue escorre no canto direito dos seus lábios. Observo enquanto leva as pontas dos dedos enxugando o liquido carmesim. Mas o pior é ver como se perde no meio dos dedos sujos de sangue seco, dou um passo para trás diante da constatação, ele pode muito bem me matar apenas por isso.
Nossos olhares se encontram, sinto estar um pouco mais condenada porquê a beleza dele é inegável mesmo diante da crueldade assustadora estampada na face. Espero receber algo c***l, ser atacada, torturada ou morta. Mas ele se vira para a porta retirando a chave e sai, escuto o som da tranca girando fechando as portas pesadas de madeira. Estou definitivamente presa aqui, bato na porta com as mãos abertas até sentir a dormência dominando os dedos, gritando até perder a voz. Mas ninguém vem, ninguém virá porque estou dentro do recinto do d***o e ninguém ousaria desafia-lo muito menos depois daquela demonstração de poder. Sinto os meus machucados ainda doloridos o que pouco importa quando o quarto parece estar diminuindo ao redor, as paredes encolhendo e se aproximando cada vez mais rápido, encolho o corpo em busca de caber nesse espaço minúsculo, mas sou grande demais.
Meus pulmões se apertam com força, estou cada vez mais desesperada cada vez mais sem espaço os pontos pretos embaçam a minha visão o tremor engole a minha consciência e abraço a escuridão.