1: Teorias Falhas
Se quatro anos de faculdade de Psicologia na Universidade de Ashford me ensinaram alguma coisa, é que a mente humana adora criar ilusões de segurança.
Passei quase todo o meu curso — quase quatro anos inteiros — mantendo muros altos em volta do meu coração. Recusei convites para encontros, me esquivei de garotos que só queriam confusão e me orgulhava de ser intangível. Eu não tinha tempo para dramas românticos. Meu foco era me formar, entender a mente das pessoas e manter minha vida sob estrito controle.
Até que, quatro meses atrás, cometi o pior erro da minha vida acadêmica: resolvi dar uma chance ao amor.
Baixei a guarda para o Tyler. Achei que ele fosse diferente, que a insistência dele fosse um sinal de interesse genuíno. E o que ganhei em troca? Quatro meses de mentiras ensaiadas, sumiços injustificados e a descoberta de que eu tinha escolhido justamente o maior babaca do campus para entregar minha confiança. O término na semana passada foi feio, barulhento e me deixou com um amargor insuportável na boca. A raiva que eu sentia de mim mesma por ter sido tão ingênua era dez vezes maior do que a raiva que sentia dele.
"Quer um conselho analítico, Brooks?" — falei para mim mesma, ajustando a alça da minha bolsa no ombro enquanto atravessava o saguão principal do prédio de Humanas. — "Homens são um atraso de vida."
Se eu já estava pisando em ovos com a raça masculina, o sujeito parado no balcão da lanchonete do campus não ajudava em nada a melhorar minha estatística.
Kenji Tanaka.
Ele estava encostado na banqueta alta de madeira, usando uma jaqueta de couro preta por cima de uma camiseta cinza simples, com a mochila da Engenharia jogada no banco ao lado. Segurava um copo de café para viagem numa das mãos e conversava distraído com o Mike.
E, para variar, o olhar dele estava cravado em mim.
Não era novidade. Há meses o Kenji me encarava daquele jeito. Um olhar denso, escuro, escandalosamente direto, que parecia atravessar o saguão inteiro só para me prensar contra a parede.
Minhas teorias comportamentais não falhavam. Eu sabia exatamente o que aquele olhar significava. Kenji Tanaka tinha a reputação intocável de metrossexual misterioso da Engenharia da Computação. Ele não namorava, não dava satisfação para ninguém e mantinha uma aura de superioridade sufocante. Para mim, aquele interesse constante era pura arrogância de predador. Ele me olhava como se eu fosse um desafio não conquistado. Como se estivesse só esperando a oportunidade certa para me atrair para a cama dele e colocar o meu nome em uma lista imaginária de troféus.
Uma lista que eu jurava por Deus que existia na cabeça dele.
E como se o ego dele já não fosse o suficiente para me irritar, ainda havia a rixa histórica entre ele e o Tyler. No ano passado, muito antes de eu inventar de sair com o ex, o Tyler tinha ficado com a Hima — a irmã caçula do Kenji — e a descartou de um jeito desprezível. Desde então, Kenji e Tyler se odiavam abertamente. Frequentavam as mesmas festas por causa do grupo de amigos, mas o ar sempre virava chumbo quando os dois estavam no mesmo cômodo.
Manti a cabeça erguida e inclinei o passo. Quando passei a dois metros da bancada, cansei de ignorar aquele peso nas minhas costas e parei de uma vez.
— Perdeu alguma coisa aqui, Tanaka? — perguntei, a voz saindo afiada, baixa o bastante para não atrair a atenção do saguão inteiro.
Kenji nem piscou. Ele deu um gole lento no café, baixou o copo com calmaria exasperante e inclinou a cabeça, sustentando o meu olhar furioso. Um sorriso fraco, imperceptível e terrivelmente charmoso surgiu no canto dos lábios dele.
— Nada que eu já não esteja olhando há um bom tempo, Brooks — a voz grave dele ressoou, arrastada e tranquila.
Senti o meu maxilar travar na mesma hora.
Brooks.
Eu odiava quando ele fazia isso. Odeio. Ele nunca me chamava pelo meu nome. Todo mundo no campus me chamava de Emília, mas na boca do Kenji Tanaka era sempre o meu sobrenome. Ele pronunciava "Brooks" com uma provocação sutil, como se recusar a usar meu primeiro nome fosse a maneira dele de marcar território na nossa antipatia mútua.
— Poupe a sua energia — soltei um arfar indignado pelo nariz, cruzando os braços sobre o peito. — Eu sei exatamente o seu tipo. Você olha pra mim achando que eu vou virar mais um número no seu caderninho de conquistas.
Kenji franziu a testa de leve. Por uma fração de segundo, vi uma sombra de algo indecifrável passar pelo olhar dele, mas ele cobriu a expressão quase no mesmo instante com a sua costumeira neutralidade.
— Você acha que sabe ler todo mundo, não é, Brooks? — ele murmurou, enfatizando o sobrenome só para me testar.
— Eu não acho. Eu estudo pra isso — retruquei sem hesitar, dando um passo à frente. — E eu leio você como um livro infantil rasgado. E o meu nome é Emília, caso a sua memória de Engenharia não consiga guardar três sílabas.
Kenji se inclinou ligeiramente na minha direção por cima do balcão, diminuindo a distância entre nossos rostos. O cheiro dele — uma mistura envolvente de perfume amadeirado e café fresco — atingiu meus sentidos, fazendo meu coração dar uma batida em falso absolutamente indesejada.
Ele me encarou no fundo dos olhos, sustentando o sorriso de canto.
— A sua leitura tá completamente errada, Brooks — ele sussurrou perto do meu rosto, ignorando solenemente o meu pedido sobre o meu nome. — Mas continua tentando. É divertido ver você se esforçar tanto.
Antes que eu pudesse responder a àquela audácia com a patada que ele merecia, o som de passos apressados ecoou pelo piso de cerâmica.
— Que p***a tá acontecendo aqui? — a voz irritada do Tyler cortou o ar.
Virei a cabeça e vi meu ex-namorado se aproximando, segurando um punhado de folhetos do time de futebol. O rosto do Tyler se fechou numa careta de pura posse e raiva assim que nos viu tão próximos.
— Tá enchendo o saco da minha ex-namorada agora, Tanaka? — Tyler rosnou, parando ao meu lado e cravando um olhar fulminante no Kenji.
Kenji nem se deu ao trabalho de se levantar da banqueta. Ele apenas virou o rosto devagar, encarando o Tyler com uma frieza que parecia congelar o ambiente.
— A Brooks tem boca pra falar sozinha, Tyler. E ela não é mais nada sua — Kenji respondeu num tom tão calmo que só serviu para atiçar a fúria do outro.
— Vai se f***r, cara! — Tyler deu um passo ameaçador à frente. — Fica longe dela!
— Chega, Tyler! — me intrometi na hora, me colocando entre os dois e empurrando o peito do meu ex para trás. — Você não manda em mim, não manda em quem fala comigo e não tem o menor direito de dar showzinho aqui no meio do campus. O nosso namoro acabou na semana passada, se você não se lembra!
Tyler me encarou com a veia do pescoço saliente, incrédulo.
— Você tá defendendo esse cara, Emília? É sério isso?
— Eu não tô defendendo ninguém! — esbravejei, a paciência evaporando por completo. — Eu tô mandando você ir cuidar da sua vida e me deixar em paz!
Olhei para o Kenji de relance. Ele continuava sentado no banco, me observando com os olhos castanhos atentos, a jaqueta de couro aberta e a postura de quem não se abalava com nada. Ele parecia perfeitamente satisfeito em ver a confusão se desenrolar.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo para não surtar ali mesmo.
Eu passei quatro anos evitando relacionamentos para não ter que lidar com molecagem. Aí decidi abrir uma exceção e acabei com um ex-namorado possessivo me perseguindo pelos corredores e com o cara mais arrogante da faculdade me encarando como se eu fosse um prêmio a ser conquistado.
— Vocês dois me dão preguiça — soltei com amargor, ajeitando a bolsa no ombro e virando as costas para ambos.
Caminhei a passos largos em direção à saída do prédio, ouvindo o Tyler chamar meu nome atrás de mim e sentindo — com uma precisão irritante — os olhos de Kenji Tanaka queimando nas minhas costas até eu passar pelas portas de vidro.
Eu não queria saber de homem nenhum. Nem de ex carente, nem de veterano com lista de conquistas. E se dependesse de mim, continuaria exatamente assim até o dia da minha formatura.