Mandy Brown
Não tinha como esse dia ficar pior.
Esse pensamento normalmente é um prelúdio de uma imensa catástrofe. Mas, enquanto os gritos chorosos da mimada da Patricia ecoavam pela casa, e nós, os empregados, organizamos o que restou do jantar, eu realmente não acreditei que as coisas pudessem ficar pior.
No fundo eu estava até orgulhosa do rapaz, pela coragem que ele teve de romper com a Patrícia, e ao mesmo tempo, eu senti muita raiva por ele escolher logo essa noite. Uma coisa era certa, nenhum de nós seria dispensado enquanto as coisas não se acalmassem, e o barulho de coisas quebrando pela casa, me dizia que estava longe de acabar.
O silêncio era quase ensurdecedor entre os funcionários, e eu deveria dizer algo para eles, para aliviar a pressão deles perderem a folga de sexta a noite.
A minha mãe sempre fazia isso.
Pensar nela no passado apertou o meu coração, e eu definitivamente, não falaria nada para ninguém.
Era só esperar acabar.
Terminei de tirar o restante das flores, espalhando com cuidado na sala anexa de suporte a jantares, para que na manhã seguinte fossem jogadas fora. Suspirei ao olhar um dos vasos de girassois. Era quase um pecado jogar fora, enquanto eles estavam tão lindos, tão vivos …
- Mandy? - A voz de John Walker me atingiu e eu dei um pulo de susto. - Desculpe se te assustei.
Encarei a sombra do homem que um dia ele já foi, parado na porta do anexo.
- Precisa de mim para alguma coisa, senhor? - Ele não me encarou nos olhos, apenas suspirou, olhando para as flores. Eu esperei.
- Precisamos conversar. - O meu estômago revirou.
Pensar que não tinha como ficar pior, uma hora antes, de fato se provou um prelúdio para outra catástrofe.
Ele ia me demitir.
Eu não tinha dúvidas disso. Eu podia ver a vergonha nas feições dele. Como se ele não quisesse fazer aquilo, mas depois do incidente do champanhe, ele não poderia mais ignorar o ódio que a Patricia sentia por mim.
Ela nunca foi com a minha cara, nem quando éramos crianças.
Ela sempre agiu como superior, por ser a única herdeira de uma família abastada e eu filha da empregada.
Fui humilhada, xingada e muito maltratada por ela, e chegou o momento em que ela deu o golpe final.
O incidente do champanhe me colocou na mira dela, mesmo que eu não tivesse nenhuma responsabilidade sobre o rompimento do noivado da menina.
- Certo. - Respondi, prendendo o ar.
- Me acompanhe, por favor. - John Walker nunca foi do tipo que trata com simpatia e sorrisos os empregados. Ele sempre foi frio, distante e inalcançável para nós.
Menos com a minha mãe.
Ele sempre foi muito gentil com ela, e sei que ele me contratou quando pedi, por ela. Não pela minha competência e dedicação. Sei que estou nesta casa, como governanta, com 19 anos, como um favor pela vida inteira da minha mãe dedicada a essa família.
O escritório dele era grande, forrado por tapetes, obras de arte e livros para todos os lados.
Era o tipo de lugar que representava a força da segunda família mais rica de Londres, mas nada tinha da personalidade do meu patrão. Nitidamente ele não escolheu a decoração ou mesmo os móveis.
A foto de família perfeita, no fundo da sala, que mostrava ele, a esposa e a filha, com sorrisos falsos, com certeza não foi escolha dele também. Imagino que os quadros deveriam ter imagens de cavalos e carros, o que de fato era o gosto do homem.
Ele segurou a porta para que eu entrasse e indicou o sofá que ficava no canto.
- Sente-se, Mandy, por favor. - A educação impecável e a gentileza, ao fechar a porta depois que eu passei, me deixou um pouco desconcertada.
Sentei e tomei um pouco de ar fresco.
- O que você toma? - Ele perguntou, diante do bar disposto em um dos cantos.
- Estou bem, senhor. - Ele balançou a cabeça.
- Acredite em mim quando digo que você vai querer beber. - Ele me deu um sorriso, pela primeira vez, durante toda a minha vida.
- Aceito um scoot, senhor, obrigada. - Ele serviu dois copos de whisky e me entregou um deles, antes de sentar na poltrona, de frente para mim.
Bebemos ao mesmo tempo, e a queimação da bebida me ajudou a relaxar, antes de ser demitida.
- Como está a sua mãe? - A pergunta me pegou desprevenida e eu encarei o chão.
- Em coma. - Respondi por fim, falando em voz alta pela primeira vez. - Soube durante o jantar.
Ele pareceu abalado, de uma forma que eu nunca imaginei ver esse homem.
- Eu, realmente, sinto muito. - Ele suspirou. - Precisa de algo? - Foi a minha vez de suspirar.
- Na verdade, não tive tempo de pensar no que fazer. - Ele assentiu, e deu um novo gole na bebida.
- A sua mãe veio trabalhar nessa casa quando eu tinha a sua idade. - Ele contou. - Eu era apenas um garoto, assim como você. - Ele deu um sorriso, acredito que para a própria lembrança. - Ela veio para Londres para estudar, mas a vida dela mudou quando ela engravidou. - Ele respirou fundo. - O meu pai queria demiti-la, mas por sorte, a minha mãe interviu. - Eu assenti. Eu conhecia aquela história, contada pela minha própria mãe tantas vezes.
Uma noite de bebedeira, com um desconhecido, mudou completamente o futuro dela, que apenas com 19 anos, engravidou e nunca mais pensou nos próprios sonhos.
- Ela queria ser dançarina. - Completei para ele e ele assentiu.
- Ela tinha passado na Royal Academy, e infelizmente, estar grávida a fez ser desclassificada da bolsa. - Pisquei, absorvendo essa nova informação. - Ela ficou muito triste, e eu pensei que poderíamos dar um jeito ... - Eu assenti.
Me dei conta agora, que ele tinha informações que eu mesma não tinha. Por isso ele sempre a tratou com simpatia: eles eram amigos.
- Mas, ela decidiu manter a gravidez. - Completei mais uma vez e ele suspirou, olhando para a janela.
- Ser um Walker nos obriga a fazer coisas que não queremos, Mandy. - Me mantive imóvel, sabendo que esse era o momento que ele me demitira. - Mas, agora, eu me arrependo profundamente dos meus erros. - Senti o meu corpo congelar. - Eu deveria ter sido mais como o Luca, e assumido as rédeas do meu destino.
- Senhor … ? - Aquela confissão estava indo para um lado muito íntimo, para ser discutido com uma empregada.
- Quando a sua mãe me contou que estava grávida, eu queria fugir com ela. - Senti os meus olhos arregalando, a minha boca secou, e o meu mundo pareceu parar. - Ela se recusou. - Ele sorriu mais uma vez, e dessa vez, eu vi a tristeza neles. - Ela não queria o peso de ter atrapalhado o futuro brilhante do único herdeiro homem dos Walkers, mesmo que, eu não ligasse para isso. - Os meus olhos estavam queimando. - Eu era jovem e estava apaixonado, Mandy. Mas, a sua mãe sempre foi muito mais forte que eu, e ela rompeu tudo entre nós, ameaçando até pedir demissão. - Coloquei uma mãe sobre a boca, chocada com a história. - Os meus pais descobriram, claro. - Eu senti que o sofá estava me engolindo, a cada palavra. - O meu pai queria mandar ela para bem longe, mas a minha mãe intercedeu, e eu acabei partindo para os EUA, onde o casamento com a Ruth já estava pronto, esperando por mim. - Ele piscou os olhos, afastando as lágrimas, e agora eu não conseguia deixar de encarar os olhos deles. Olhos verdes, como os meus.
- Senhor … ? - Eu precisava que ele dissesse que aquilo tudo era uma grande brincadeira. Que ele estava apenas tirando uma com a minha cara, mas eu não tinha coragem de acusar ele de mentiroso. Não quando ele estava visivelmente arrasado pela própria história.
- Amanda. - Ele usou o meu nome, falando com força. - Eu errei ao não assumir as minhas responsabilidades, e errei ao não ficar com a mulher que eu amava. - Engoli em seco, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. - Vou reparar os meus erros. - Respirei fundo, ainda com a cabeça fervendo.
- Senhor Walker, não sei no que acredita, mas …
- Não é só crença, Amanda. É uma certeza. Uma que eu ignorei durante toda a minha vida, mas que ao saber que a sua mãe estava em coma … Quando o doutor me avisou. - Ele apertou os lábios, exatamente como eu estava fazendo.
Era possível ver semelhanças incríveis entre nós, e eu lutei contra isso. Então me dei conta de outra coisa.
- O Doutor te ligou? - Ele assentiu.
- Eu acompanho a evolução da situação desde o inicio. - Ele virou o restante do whisky na boca e eu imitei o gesto, mesmo que no meu copo tivesse o dobro de liquido. - É injusto que você sofra pelas escolhas incoerentes dos seus pais. - Segurei o copo com mais força, ao ouvir aquela frase. - Você é minha filha, Amanda, e de agora em diante, será reconhecida e tratada como tal.
Sim, tinha muito como esse dia ficar pior.