Capítulo 1: O Preço do Sangue
As luzes de neon da cidade grande sempre pareceram distantes para Aurora, mas, naquela noite de tempestade, o reflexo vermelho e azul no asfalto molhado parecia sufocá-la. A chuva fina e gélida castigava os arranha-céus cinzentos da metrópole, transformando as ruas de paralelepípedos em espelhos escuros.
Ela apertou o casaco puído contra o corpo trêmulo, sentindo a umidade penetrar no tecido fino, mas o frio físico não era o que mais a incomodava. Desde que saíra do turno exaustivo no restaurante da parte baixa da cidade, um arrepio incômodo subia por sua espinha. Era a sensação nítida, quase física, de estar sendo caçada.
Aurora acelerou o passo pelos becos estreitos que serviam de atalho até o seu pequeno apartamento. A escuridão ali era mais densa, cortada apenas pelo piscar intermitente de um poste de luz velho.
Ela sempre soube que havia algo de errado consigo mesma. Desde a infância, sua vida fora cercada por pequenos mistérios: ferimentos que cicatrizavam rápido demais, pesadelos recorrentes com símbolos antigos e os sussurros constantes de sua avó sobre uma linhagem esquecida. Uma profecia de sangue antiga que, segundo os delírios da velha, um dia viria cobrar o seu preço.
No entanto, no mundo moderno e c***l, lendas antigas não pagavam o aluguel atrasado nem afastavam a fome. Pelo menos, era o que ela pensava até aquela noite.
O som de passos pesados ecoou logo atrás dela, quebrando o silêncio da noite chuvosa. Não eram passos comuns. O ritmo era rápido, predatório.
Quando Aurora se virou abruptamente, com o coração saltando na garganta, três sombras massivas se projetaram contra a parede de tijolos úmidos do beco. Homens corpulentos barravam sua única rota de fuga. Suas feições, contudo, eram estranhas. À medida que avançavam sob a luz fraca, Aurora sufocou um grito ao notar que os dentes deles pareciam pontiagudos demais, e seus olhos brilhavam em um tom amarelo doentio e animalesco.
— É ela — um deles rosnou. A voz era distorcida e áspera, arranhando o ar como a de um bicho sedento. — O sangue dela... o cheiro é exatamente igual ao que a lenda descreve. Finalmente a encontramos.
— O que vocês querem? Fiquem longe de mim! — Aurora gritou, procurando desesperadamente por um pedaço de madeira ou qualquer coisa que pudesse usar como defesa, enquanto recuava até suas costas colarem no muro de concreto sem saída.
Antes que os homens pudessem avançar, um estrondo violento quebrou a calada da noite. O vento mudou de direção abruptamente, soprando uma lufada de ar gélido e denso para dentro do beco.
Um magnetismo sufocante, quase palpável, inundou o espaço, fazendo os três atacantes congelarem instantaneamente. O terror nos olhos amarelos daquelas criaturas era evidente. O ar ao redor parecia ter sido congelado sob o comando de uma força superior.
Do alto do telhado, descendo pelas sombras góticas como se a própria escuridão o estivesse carregando nos braços, ele surgiu.
Ethan.
O governante implacável e temido do submundo urbano, uma criatura ancestral que ditava as regras na escuridão enquanto a humanidade dormia inocente. Vestindo uma jaqueta de couro preta perfeitamente ajustada ao corpo robusto, ele pousou com uma leveza sobrenatural, postando-se firmemente entre Aurora e os agressores. Sua postura exalava uma arrogância perigosa e letal.
Quando ele virou o rosto levemente para o lado, Aurora sentiu o impacto esmagador de seu olhar. Duas fendas de um vermelho escuro e intenso cintilavam na escuridão. Sob a pele pálida de seu pescoço e braços, marcas rúnicas intrincadas pulsavam em um tom escarlate vivo, brilhando em resposta à proximidade da garota.
— Vocês estão tocando no que me pertence por direito. — A voz de Ethan era um trovão baixo, fria, cortante e totalmente desprovida de qualquer vestígio de misericórdia. Cada palavra sua parecia vibrar no peito de Aurora.
— L-Lord Ethan... — o líder dos agressores gaguejou, com os joelhos tremendo enquanto dava passos hesitantes para trás. — Nós não sabíamos... Não sabíamos que esta humana comum estava sob a sua proteção ou que o senhor tinha interesse nela.
— Ela não está sob minha proteção. — Ethan deu um único passo à frente, e a velocidade de seu movimento desafiou as leis da física.
Antes que o monstro pudesse reagir, Ethan o agarrou pelo pescoço com uma única mão, erguendo o corpo pesado do chão sem o menor sinal de esforço. Os olhos vermelhos do lorde brilharam com um sadismo contido.
— Ela é a minha chave. O destino dela está atado ao meu poder absoluto. E ninguém toca no que é meu.
Um estalo seco e brutal de ossos se partindo ecoou pelo beco. O corpo do agressor caiu inerte no chão molhado. Ao verem a demonstração de força implacável, os outros dois homens sobreviventes soltaram ganidos de pavor e fugiram em disparada para as sombras da noite, abandonando qualquer plano de captura.
Aurora continuava encurralada contra a parede, com os dentes batendo e o coração tão acelerado que parecia prestes a rasgar seu peito. Seus olhos estavam fixos na silhueta do homem que acabara de matar alguém com as próprias mãos. Mas o pior estava por vir.
De repente, uma queimação intensa e avassaladora começou a emanar de suas próprias mãos e do centro de seu peito. Sob sua pele, um brilho vermelho fraco começou a pulsar, sincronizado perfeitamente com as runas no pescoço do desconhecido. A profecia de sangue, trancada por gerações, estava acordando com violência diante da presença dele.
Ethan se virou lentamente em sua direção. Com uma indiferença que gelou o sangue de Aurora, ele limpou um respingo do sangue inimigo dos nós de seus dedos e caminhou calmamente até ela. A presença dele era puramente magnética; um perigo silencioso que atraía os instintos mais profundos de Aurora, ao mesmo tempo em que sua mente implorava para que ela corresse.
Sem pedir qualquer permissão ou dizer uma palavra amigável, Ethan deu um passo firme, eliminando qualquer espaço entre os dois. Ele a encurralou contra o muro úmido. Suas mãos grandes, firmes e surpreendentemente frias deslizaram possessivamente pela cintura de Aurora, colando o corpo trêmulo e frágil da humana contra o seu peito largo, que era rígido e indestrutível como pedra. O choque térmico e a eletricidade do toque dele fizeram Aurora arfar.
— O que... o que você quer de mim? Quem é você? — ela sussurrou, a voz falhando por completo. Ela estava dividida entre o puro pavor de morrer ali e uma atração proibida, ardente e inexplicável que começara a inflamar suas veias no exato momento em que sentiu o aperto daquelas mãos em seu corpo.
Ethan inclinou o rosto escultural, os lábios frios roçando perigosamente perto da curva do ouvido dela, onde a pulsação de Aurora batia descontrolada. O hálito dele tinha o frescor da chuva e o aroma inebriante do poder puro, envolvendo os sentidos da garota por completo.
— Eu não quero você, Aurora — ele decretou perto de seu ouvido, apertando a cintura dela com ainda mais força e possessividade, deixando claro que qualquer tentativa de fuga seria inútil. — Eu não sinto nada por você além de desprezo pela sua fraqueza humana. Mas eu preciso desesperadamente do que está trancado no seu sangue. Você acabou de dar o primeiro passo para dentro do meu inferno pessoal, garota. E dele, você só sairá quando eu sugar até a última gota do poder do seu destino. Você foi reivindicada por mim, e sua vida agora me pertence.
O som das palavras dele pareceu ecoar nas paredes de tijolos, selando o destino de Aurora como uma sentença irrevogável. Antes que ela pudesse formular qualquer protesto ou tentar se desvencilhar daquele aperto de aço, a escuridão ao redor deles pareceu ganhar vida própria. As sombras do beco gótico se ergueram, densas e frias, envolvendo os dois em um redemoinho de névoa escura.
Aurora fechou os olhos, o coração disparado contra o peito rígido de Ethan, sabendo que, quando os abrisse novamente, o mundo pacato que conhecia estaria enterrado para sempre. Ela não era mais apenas uma humana sobrevivendo na metrópole moderna; agora, ela era a propriedade do monstro que governava a noite.