O cheiro de ozônio, sangue e chuva ainda pairava pesadamente no ar quando Aurora finalmente abriu os olhos. Ela não estava em seus próprios aposentos.
O teto abobadado e as pesadas cortinas de veludo carmesim revelavam que ela havia sido trazida para o santuário pessoal de Ethan.
A cama sob ela era macia e vasta, mas o que realmente chamou sua atenção foi o silêncio. Era um silêncio denso, quase palpável, o tipo de calmaria que precede uma tempestade ainda pior do que a que castigava os vidros lá fora.
Ela tentou se sentar, mas um gemido de dor escapou de seus lábios. Cada músculo do seu corpo protestou, queimando com uma exaustão que ia até os ossos. Era como se ela tivesse corrido uma maratona com pesos amarrados aos tornozelos.
— Não se mova muito rápido. — A voz grave e aveludada de Ethan cortou as sombras do quarto.
Aurora virou o rosto e o encontrou. Ele estava encostado na imensa janela panorâmica, observando a cidade através da chuva incessante. Ele já havia trocado as roupas rasgadas da batalha.
Agora, vestia uma camisa social n***a, com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando as runas inativas em seus antebraços. O cabelo escuro estava levemente bagunçado, e a expressão em seu rosto era ilegível, mas a postura rígida de seus ombros denunciava uma tensão letal.
— O que... o que há de errado comigo? — ela sussurrou, a garganta seca.
Ao levar a mão ao peito, sentiu a segunda runa latejando sob o tecido do roupão. Estava quente, mas não de forma dolorosa; parecia viva.
Ethan afastou-se da janela e caminhou lentamente até a beira da cama. Os olhos cinzentos dele estavam fixos nela, carregando uma intensidade que a fez prender a respiração, lembrando-se imediatamente da brutalidade do beijo que haviam trocado no corredor horas antes.
— Você canalizou a magia pura do submundo através de um corpo humano, Aurora. — Ele se sentou na beirada do colchão, a proximidade fazendo o ar ao redor deles estalar com eletricidade estática.
— O sangue da profecia permitiu que você não fosse desintegrada no processo, mas isso não significa que não haja um preço. A magia drena a vitalidade. Se você não aprender a controlá-la, ela vai consumir você de dentro para fora.
Aurora engoliu em seco. A lembrança do lobisomem sendo esmagado contra o mármore pela força invisível de sua vontade ainda piscava em sua mente. O poder que ela havia sentido... era inebriante, aterrorizante e viciante.
— Como eles entraram? — ela perguntou, mudando de assunto para tentar afastar o pânico crescente. — Você disse que a cobertura era impenetrável. Que as proteções rúnicas impediriam qualquer criatura.
Um músculo saltou na mandíbula de Ethan. O olhar dele escureceu, assumindo o tom de nuvens de tempestade.
— As proteções são impenetráveis para ameaças externas — ele respondeu, a voz perigosamente baixa. — Mas elas não funcionam se alguém de dentro as desligar temporariamente. Os lobos não invadiram, Aurora. Eles foram convidados a entrar.
O choque paralisou Aurora.
— O Conselho... — ela sussurrou, lembrando-se dos olhos frios e gananciosos de Malachi.
— Exatamente. Malachi testou a nossa ligação e percebeu que o meu controle sobre a cidade poderia se tornar absoluto se você sobrevivesse aos rituais. Ele e os outros conselheiros sabiam que eu estaria focado no segundo selo esta noite, então facilitaram a entrada dos lobisomens do sul.
— Eles esperavam que os cães fizessem o trabalho sujo deles. — Ethan soltou uma risada sombria e sem humor. — Eles subestimaram a minha fúria. E, mais importante, subestimaram você.
Ele estendeu a mão, os nós dos dedos frios e calejados roçando a pele do pescoço de Aurora, bem onde a primeira runa estava desenhada. O toque enviou um arrepio instantâneo por toda a extensão de sua coluna.
Ela deveria recuar. Ela deveria odiá-lo por tê-la arrastado para o meio daquela guerra. Mas o sangue da profecia pulsava em sincronia com o dele, implorando por mais contato.
— Você subjugou um batedor lobisomem, uma criatura que teme apenas a morte e a prata, com uma única palavra — Ethan murmurou, inclinando-se um pouco mais, o rosto a poucos centímetros do dela. O cheiro de sândalo e magia inebriou os sentidos de Aurora.
— O seu instinto foi perfeito. Mas o seu controle é inexistente. Se um de nós não intervir e ancorar essa energia, a sua próxima explosão de poder vai fritar os seus neurônios.
— O que quer dizer com ancorar? — ela perguntou, a voz saindo não mais alta que um sopro.
Ethan não respondeu com palavras. Em vez disso, ele deslizou a mão do pescoço dela para o centro do seu peito, espalmando os dedos longos exatamente sobre a segunda runa.
O impacto foi imediato. A exaustão excruciante que esmagava os ossos de Aurora pareceu evaporar.
Uma onda de calor profundo e estabilizador irradiou da mão de Ethan, penetrando em seus pulmões e acalmando a tempestade caótica que rondava sua mente. Ele estava transferindo a própria força vital para ela, servindo como um filtro para a magia bruta que ameaça consumi-la.
Aurora ofegou, fechando os olhos enquanto a sensação de alívio e poder a inundava. Involuntariamente, as mãos dela subiram, segurando os pulsos de Ethan.
— Sinta a corrente — ele comandou, a voz grave vibrando no peito dele e ecoando no dela através do contato físico. — A magia não é um escudo ou uma arma que você simplesmente atira. Ela é uma extensão da sua própria corrente sanguínea. Feche os olhos, Aurora. Visualize o calor que está queimando debaixo dos meus dedos.
Ela obedeceu. Na escuridão da sua própria mente, ela não via mais o medo. Ela via feixes de luz escarlate cruzando suas veias, dançando de forma errática.
— Agora — sussurrou Ethan, o hálito quente batendo no rosto dela. — Puxe-o de volta. Não deixe que ele dite o ritmo do seu coração. Você é a mestra do seu corpo. Ordene que o fogo se acalme. Ordene.
Aurora apertou os pulsos dele. Ela focou toda a sua vontade naquela luz escarlate. Recue, ela pensou, canalizando a teimosia que a mantivera viva nas ruas perigosas da metrópole durante toda a sua vida humana. Recue e obedeça.
Lentamente, a queimação começou a ceder. A luz escarlate em sua mente estabilizou, fluindo não mais como uma torrente caótica, mas como um rio profundo e silencioso.
Quando ela abriu os olhos, ofegante pelo esforço mental, a sala parecia mais nítida. O zumbido insuportável em seus ouvidos havia desaparecido.
Ela olhou para Ethan. Os olhos cinzentos dele estavam arregalados, uma surpresa rara rompendo a máscara de lorde inabalável. Ele retirou a mão do peito dela, mas não se afastou.
— Você aprende rápido, pequena humana — ele disse, um tom de respeito relutante colorindo suas palavras. — A maioria dos imortais leva décadas para dominar a contenção. Você fez isso em minutos.
— Eu não quero ser um perigo para mim mesma — ela respondeu, sentando-se lentamente. A dor física havia ido embora, substituída por uma clareza cortante. — Se o Conselho me quer morta, e se toda a cidade está vindo atrás de nós... eu não posso ser apenas uma donzela apavorada trancada em uma torre de vidro.
Um sorriso predestinado e c***l, afiado como uma lâmina, curvou os lábios de Ethan.
Ele se levantou em um movimento fluido, a postura assumindo mais uma vez a arrogância letal do soberano das sombras.
— Não precisa se preocupar com a cidade, Aurora. Eles acham que podem nos encurralar porque quebramos as leis. Eles acham que eu sou o mesmo governante passivo que permite que velhos caducos ditem as regras.
Ethan caminhou até um antigo armário esculpido em madeira escura e o abriu, revelando um arsenal de lâminas rúnicas e armas de fogo modificadas que emanavam uma luz espectral. Ele começou a ajustar um cinto de couro n***o com adagas duplas na cintura.
— O que você vai fazer? — ela perguntou, o coração dando um salto no peito. A aura de Ethan estava mudando, passando da calmaria do santuário para a pura e irrestrita intenção assassina.
— O Conselho cruzou uma linha que não pode ser desfeita, Aurora. Eles trouxeram a guerra para o meu território, colocaram a minha prisioneira em risco e testaram a minha paciência pela última vez.
Ethan virou-se para ela, os olhos novamente tomados pelo vermelho infernal, as runas em seus braços acendendo-se em uníssono.
— Levante-se e vista-se. Nós não vamos ficar aqui esperando o próximo ataque. Nós não somos as presas desta história.
Aurora colocou os pés descalços no chão, a magia recém-domada pulsando em suas veias como uma confirmação de guerra.
— Para onde estamos indo? — ela perguntou, a voz firme, despida de qualquer traço de hesitação.
— Ao submundo. Ao coração do território deles — Ethan declarou, a sombra da morte envolvendo-o como um manto invisível. — É hora de o Conselho descobrir por que me deram o título de Lorde. E é hora de eles conhecerem a Rainha que selará o destino de todos eles.