Enfermeira

1096 Words
Claire Davis — Como estão as coisas, Marie? — Perguntei, enquanto ajeitava a gravata borboleta diante do espelho. — Sr. Davis, vai acabar me metendo em problemas! Quando descobrirem que eu te acobertei nessa farsa, a sua mãe vai mandar me fatiar em pedaços e me servir aos cachorros. Olhei para a jovem pequena diante de mim, com um sorriso amplo no rosto. Marie, era enfermeira e apesar do rosto doce e da voz suave, ela era bastante perspicaz, não demorou muito para descobrir que eu não estava tão doente como aparentava. Eu sofri um grave acidente de carro, após um evento da minha empresa, dirigi completamente desnorteado em alta velocidade, gostaria de ter colocado um fim no buraco que se abriu no meu peito naquela noite, mas por ironia do destino todas as minhas feridas eram tratáveis, exceto uma. Algo aconteceu dentro da minha cabeça e todas as minhas lembranças eram um amontoado de flashes de um filme de terror, onde eu era a fera. Não, eu não queria pensar naquilo agora. Não enquanto havia uma jovem desfilando pela casa com um anel com o meu nome dentro. Um anel que eu não lhe dei. — Marie, responde! — Ordenei, o sorriso facilmente substituído por um semblante sombrio, carregado de uma raiva que eu nunca experimentei antes. — Ela assinou os papéis, senhor — A enfermeira respondeu, e tratou de se ocupar com uma dobra imaginária no lençol de seda vinho, perfeitamente esticado sobre a cama. — Desgraçada! — Não consegui evitar desferir um soco na parede. — Senhor Davis, se controle. Se perceberem novos machucados no senhor, não poderá seguir com os seus planos. Olhei para o meu próprio punho, os nós dos dedos possuíam cortes e sangravam de um jeito inesperado, não achei que havia usado tanta força. Mais um pouco e teria quebrado os dedos. Novamente aquela névoa escura tomou conta da minha mente, confusão, fúria e vazio. No final só restava o vazio, não havia compreensão ou lógica, só o terrível vazio. Marie estava parada diante de mim, os olhos arregalados, chamando o meu nome, mas porque eu não conseguia simplesmente responder? Os meus sentidos captavam desde os seus batimentos cardíacos, até o tilintar distante dos talheres na mesa do jantar. Isso é impossível, estou enlouquecendo. Seja como for, nem mesmo Marie pode saber que embora o meu corpo pareça saudável, a minha mente está doente. Minha família me trancaria em uma clínica psiquiátrica se soubesse, e eu nunca conseguiria descobrir o que de fato aconteceu na maldita noite do evento. Usei toda a minha força de vontade para me concentrar na jovem diante de mim, que apesar das mãos trêmulas, limpava o meu novo machucado e passava uma pomada. — Isso deve ajudar! De qualquer forma, mantenha as mãos debaixo da coberta. — Marie recomendou. Fiz uma careta, mas concordei. — Como ela é? — Perguntei, me referindo a minha esposa interesseira. — Magrela — Marie respondeu prontamente — Eu já te disse, Lily Angel é modelo e tem aquele jeito de "por favor alguém me dê um lanche". — Será que a minha mãe acredita mesmo que eu poderia gostar desse tipo de mulher? Odeio futilidades. — Se me permite dizer, ela é uma mulher muito bonita. Magra, alta, com a pele desbotada, cabelo castanho uniforme. Sinceramente, não sei porque você não gostaria dela. Andei de um lado para o outro no quarto, impaciente. A névoa ameaçando tomar a minha mente mais uma vez, mas eu resisti, focando no caos presente. — Essa mulher casou-se com um moribundo em troca de dinheiro. Não passa de uma maldita interesseira! — Deveria ficar com raiva da Sra. Margareth que ofereceu dinheiro pra ela se casar com você! Uma mulher precisa de dinheiro Sr. Davis! Balancei a cabeça inconformado. — Está defendendo Lily Angel? — Não senhor! Estou me defendendo, porque acha que faço isso tudo por você? Arrisco o meu emprego, o meu futuro... — Porque eu sou um cara legal — Dei um sorriso torto para Marie, já sabia como desarmá-la, ela ficava toda sem graça, com as bochechas da cor de um tomate — Você é muito baixo, Sr. Davis. Já pra cama, daqui a pouco sua esposa vai estar aqui e nós não queremos que ela descubra o seu segredinho, certo? — Ok! Marie, sabe aquele sapatos com solado vermelho que você vive olhando na internet? — Claro que eu sei! Louboutin! Meu sonho... — Perfeito, providencie um dossiê completo sobre a minha esposa e eu te darei uma coleção desses sapatos! — Você está brincando. É sério? — Marie dava pulinhos, enquanto eu me alongava antes de me preparar para ficar imóvel por muito tempo, uma tarefa que se tornaria ainda mais desagradável com a presença de Lily no quarto. — Seríssimo! Marie, quero saber absolutamente tudo sobre essa garota! Qualquer ponto fraco que eu possa explorar. Não poderei seguir tranquilo com os meus planos com Lily Angel enfiada no meu quarto. — Só no seu quarto não, na sua cama! — Não quero essa aproveitadora na minha cama, coloque um cobertor no sofá, talvez assim ela entenda qual o lugar dela! Não escutei o que Marie falou, meus ouvidos aguçados buscavam os sons dos convidados do meu casamento na sala de jantar, mas a música havia cessado e as vozes também. Me deitei rapidamente enquanto Marie ajeitava o cobertor em volta de mim, fechei os olhos e ainda assim pude ouvir o salto alto encostando no chão e um tecido pesado sendo arrastado, provavelmente a cauda do vestido, ou o véu da noiva. Uma batida leve na porta soou antes de Marie atender. — Olá, eu sou Lily... Davis. E esse também é o meu quarto agora! — A voz ecoou pelo quarto, um tom carregado de nervosismo apesar da petulância. — Sra. Margareth me informou sobre esse ham... arranjo. — Certamente... — Preparei tudo e espero que lhe agrade. Imagino que queira tomar um banho, deixei a banheira cheia, se a água estiver fria basta apertar o botão do aquecedor. — Muito obrigada, Marie. Vou tomar um banho e descansar. — Sra. Davis, o sofá é bastante confortável! — Marie e o seu jeitinho discreto. — Lily. Me chame apenas de Lily. E essa é a minha noite de núpcias, dormirei ao lado do meu marido! Nenhuma contra indicação, certo? — Não senhora. A porta bateu, e eu soube que estava sozinho com Lily, eu desgostava completamente daquela mulher, mas não podia negar que ela tinha um cheiro que despertava desejos bastante impuros em mim.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD