Lily Angel
O quarto estava mergulhado na penumbra, uma luz indireta lançava um feixe de luz delicado sobre a cama, iluminando parcialmente o rosto de Claire.
A imagem dele imóvel na cama, vestido com um elegante terno, chegava a ser mórbida. Aproximei-me da cama com cautela, um frio percorreu a minha espinha, causando desconforto.
O semblante de Claire, apesar de sereno, era de um homem poderoso, o formato quadrado do queixo transmitia um ar aristocrático, em perfeita harmonia com o seu cabelo, que provavelmente foi aparado recentemente.
Algumas cicatrizes ainda eram visíveis em seu rosto, um pequeno corte na bochecha era a cicatriz mais profunda, com certeza ficaria marcado para o resto da vida.
Segundo Margareth, o filho jamais acordaria, era a sentença dada pelos médicos, Claire estava aprisionado dentro da própria mente, e o máximo que poderia acontecer era ele desistir.
Não! Definitivamente, Claire Davis não tem autorização para me deixar viúva. Senti uma pressão no peito que logo foi substituída por satisfação.
Claire era sem dúvida o marido perfeito. Bonito e inofensivo! Talvez cumprisse com o que havia dito para a japonesinha atrevida e dormisse na cama ao lado dele.
Por um momento a ideia daquele corpo forte me embalando fez algo esquentar em mim, mas logo os pensamentos foram substituídos por mãos pesadas e dolorosas me marcando, me abrindo como se quisesse entrar na minha pele, o corpo duro me esmagando, a boca me mordendo, fazendo sangrar e aquela maldita voz grossa no meu ouvido, submetendo o meu corpo e a minha mente.
— Desgraçado! — Dei um salto para trás, sobressaltada pela lembrança fresca em minha mente, meu salto enganchou na cauda do vestido e eu caí de joelhos no chão.
Algumas lágrimas escaparam dos meus olhos, e a dor em partes específicas do meu corpo me fizeram recordar o motivo de estar ali. O medo era como uma sombra à espreita, sempre presente, sempre esperando, ao menos ali com aquele homem moribundo eu me sentia segura.
Levantei-me do chão, retirei os saltos para não correr o risco de cair novamente, em seguida estiquei os braços para abrir os botões do vestido e deixei que o pano pesado escorregasse pelo meu corpo.
O meu próprio reflexo no espelho me apavorava, então passei rapidamente pelo objeto emoldurado com elegância em tons de vinho e dourado. Ainda assim tive a sensação de que Claire havia virado o rosto na minha direção.
Paralisei no lugar por um instante, me sentindo completamente exposta, já que o meu corpo estava coberto apenas por uma pequena calcinha branca transparente.
Virei-me lentamente em direção à cama e Claire estava imóvel, exatamente do jeito que estava quando entrei no quarto, petrificado em seu sono.
Respirei fundo, buscando pela minha sanidade e continuei o meu trajeto até o banheiro. Assim como o quarto, o banheiro era amplo e luxuoso, a banheira estava cercada por velas aromatizadas e havia um balde de gelo com uma champanhe dentro, em uma banqueta ao lado da banheira.
Não podia negar que a recepção ao quarto do Sr. Davis estava sendo até agradável.
O cansaço do dia turbulento me atingiu, e eu procurei no closet por um pijama leve de manga longa, no dia seguinte teria que disfarçar os hematomas no pescoço com maquiagem ou apelar para um lenço.
O sofá de couro preto realmente parecia muito confortável, uma coberta felpuda estava dobrada com perfeição em cima dele.
Lancei um olhar de esguelha para Claire, e antes de me deitar fui até o painel que controlava as luzes, cortinas, ar condicionado e outras coisas e ativei o modo sono. Escutei um clique da porta sendo trancada, e o quarto ficou completamente escuro, me deitei encolhida no sofá, puxando o cobertor sobre a cabeça.
Enfim, os meus pensamentos silenciaram e eu adormeci.
Claire Davis
Podia sentir os olhos de Lily cravados em mim, mas eu já havia me acostumado com a sensação e treinado minha mente para ficar tão inerte quanto possível. Lily xingou e deu um pulo para longe da cama, caindo de quatro.
Olhei rapidamente para a mulher no chão, e senti o peito chiar de rancor. O bom de acharem que você é um morto vivo é que as pessoas não escondem o seu lado negativo. E lá estava Lily com raiva por ter que ficar comigo. O que achou querida esposa? Assinaria um papel e ficaria livre para sair com quem quisesse? Não mesmo, se eu estava sendo arrastado para isso por Lily Angel, ela cairia junto comigo.
O meu inferno irá se tornar o inferno dela.
Sem Lily eu podia sair escondido durante a noite para seguir com a minha investigação. Não havia avançado muito desde que comecei, se ao menos eu me lembrasse do que exatamente aconteceu na noite do acidente...
Precisava achar um jeito de Lily ir para outro quarto.
Sabia que Margareth levaria aquela moça ao limite naquela casa, e pela primeira vez me senti feliz pelo gênio terrível da minha mãe. A exigência de que Lily ficasse no mesmo quarto sem dúvida era para atormentar a garota.
Abri os olhos novamente e Lily estava retirando o vestido, exibindo o corpo magrelo, sabia que não podia ficar espiando, acabaria sendo pego. Tinha que concordar com Marie, apesar de não valer um real, Lily tinha uma beleza muito singular.
Sempre achei as modelos muito parecidas e completamente sem graça, mas Lily era diferente, apesar de magra, ela possuía curvas nos lugares certos. O cabelo castanho ondulado, caía sobre os ombros com delicadeza.
Quando o vestido finalmente tombou no chão e vi o corpo despido de Lily em minha frente, senti meu corpo tensionar no colchão. "Céus, o que era aquilo?"
O corpo de Lily estava coberto por hematomas desproporcionais, manchas irregulares marcando sua pele clara, apesar da luz baixa era possível ver um machucado coberto com uma gaze no quadril.
Contive o impulso de me levantar e ir até ela. Meu coração estava tão descompassado e a minha mente tão perturbada que eu não conseguia parar de olhar, até ela me flagrar no espelho.
Fechei os olhos com força, a imagem impregnada em minha mente, só quando ouvi o barulho da porta do banheiro sendo empurrada é que tornei a relaxar.
Quem machucou daquele jeito a minha mulher? Seja quem for, eu o farei pagar.