Claire Davis
— Lindsay tranque a porta, e procure por Lily nas câmeras!
— Lily Angel está na biblioteca — A voz robótica anunciou.
— Perfeito.
Havia poucos cômodos da casa que eu ainda não havia instalado o meu novo modelo de câmeras, eram praticamente invisíveis a olho nú. E a Lindsay havia sido programada para funcionar em sua totalidade apenas ao som da minha voz, para qualquer outra pessoa que entrasse no meu quarto, o painel eletrônico não passava de uma forma moderna de controlar as luzes e outras besteiras do quarto.
O problema é que como era um equipamento experimental, eu não tinha produzido quantidade suficiente de câmeras para cobrir a casa toda.
Depois do incidente no evento da empresa haviam poucas certezas na minha mente, uma delas era de que a minha família estava envolvida com algo muito errado e a segunda era que eu precisava descobrir antes que fosse tarde. E ainda havia Lily...
— Lindsay, ligue para Marie!
O som da chamada ecoou pelo quarto, enquanto eu me alongava e depois de um tempo a voz animada da minha enfermeira favorita soou pelo auto-falante.
— Claire, já está com saudade? Como está indo sua lua de mel?
— Não brinque com isso — respondi ríspido.
— Que péssimo humor, pelo jeito Lily dormiu de calça jeans... — Marie continuou com a provocação.
— Não ela não dormiu.
A lembrança do corpo esguio de Lily invadiu a minha mente, o pijama fino apesar de cobrir toda a extensão da sua pele, não foi um empecilho para que eu desse uma boa avaliada naquela bun-da arrebitada. Que animalesco, Claire.
E foi com esse pensamento que flashes da noite mais sombria da minha vida retornaram a minha mente.
Havia uma bela mulher em meus braços, eu não conseguia me lembrar do rosto, mas o que eu sentia só de lembrar dela era terrível, irracional, um desejo louco, insano e insuportável. Ela tentou escapar, mas eu não deixei, não deixaria mesmo hoje se tivesse essa opção.
Depois do acidente, apesar da culpa, eu sonhei com ela várias vezes, a mulher que havia me transformado em uma fera. Eu me recusei a acordar por vários dias, só pra encontrá-la novamente em meus sonhos.
Foi daí que tive a ideia de fingir estar em coma, em parte porque estava confuso demais e não queria falar com ninguém, mas também porque era a única forma segura de tocar aquela mulher novamente.
— CLAIREEE! — A voz de Marie soou estridente nos meus ouvidos e eu retornei do estado de torpor que me dominava — Estava pensando nela, não é mesmo? A garota do evento.
— Marie, eu...
— Porque não tenta ao menos descobrir quem é ela. Não entendo você, que obsessão doentia por uma mulher de uma única noite.
Como eu poderia explicar o que eu fiz? Como eu poderia dizer pra Marie que eu sou um monstro e que eu fiz algo imperdoável. Que estava fingindo um coma não só pra investigar a minha família, mas na vã tentativa de me livrar da culpa. Como eu lhe diria que joguei de propósito o carro em direção ao poste, na esperança de encontrar a morte e dar fim ao meu tormento.
— Marie, — Foquei minha mente em algo que eu podia controlar, Lily Angel — te liguei porque quero que acrescente algo a investigação sobre a minha esposa. Lily está com o corpo coberto de hematomas, descubra o que aconteceu!
— Ok — Como não posso sair para resolver pessoalmente tenho que confiar na competência da Marie.
Lily Angel
A noite anterior foi longa e desagradável, e agora definitivamente estava presa nesta mansão. Por um lado, era um alívio ter escapado de certos problemas, mas por outro, minha liberdade estava severamente limitada.
Esse pensamento me acompanhou enquanto descia as escadas em direção à cozinha.
— Bom dia, Sra. Davis — disse a cozinheira assim que cheguei à porta.
— Bom dia. Por favor, me chame de Lily.
Seus olhos sorriram. — O que deseja para o café?
— Qualquer coisa, ainda estou me sentindo pesada de ontem — respondi, a memória da farta refeição e das bebidas da noite anterior ainda presente. — A propósito, onde posso encontrar Marie, a enfermeira do Claire? Quero aprender um pouco sobre como cuidar dele. Afinal, sou a esposa agora, e acho que é o mínimo que posso fazer.
— Eu a vi sair da mansão mais cedo, não sei para onde foi.
— Ah, obrigada por me informar… e…
— Cristina, mas pode me chamar de Cris.
— Cris, quando ela chegar, peça para me encontrar na biblioteca, por favor.
— Direi sim — a mulher respondeu prontamente.
Sorri para ela e deixei a cozinha, levando apenas uma maçã.
O corredor me guiou até a biblioteca, um espaço imenso repleto de livros de todos os tipos e gostos. Por alguns minutos, me perdi entre os títulos e as capas, até ouvir Marie bater na porta e entrar em seguida.
— Olá, Lily. Cristina me disse que você queria me ver, falou que era algo importante.
Apontei para o sofá, convidando-a a se sentar.
— Sim, queria que você me mostrasse como devo cuidar do Claire. Quero poder fazer algo também — pensei que, se estava presa naquela casa, ao menos me sentiria útil.
— Olha, Lily, você não precisa se preocupar com ele. Eu posso cuidar dele sozinha — A japonesa pareceu visivelmente incomodada.
— Não acho justo que você lide com tudo sozinha. Se você me explicar como fazer, não ficará tudo para você. Eu aprendo rápido.
Ela permaneceu em silêncio por um instante, antes de finalmente falar:
— Tudo bem, mas podemos começar hoje à tarde? É que eu já devia ter mudado a posição dele, mas como precisei sair, ainda não fiz isso.
— Tudo bem — Peguei meu livro novamente, me despedi dela e fui buscar uma xícara de café.
Uma sonolência incomum me invadia.
Sentei-me à mesa enquanto Cris me trazia uma variedade de alimentos, frutas frescas, pães apetitosos, queijo cremoso, leite…
— Coma, menina. Você é tão magrinha que parece que vai desaparecer.
— Obrigada — respondi, rindo diante daquela fartura.
Mais tarde, depois do café, vi Marie sair do meu quarto; "meu quarto", a possessividade daquele pensamento ainda me surpreendia.
— Está tudo bem? — perguntei.
Marie me encarou de um jeito avaliativo, seus olhos fixos precisamente em meu pescoço. Lamentei ter confiado apenas na base e no corretivo para cobrir as marcas. Um lenço, por mais ridículo que pudesse parecer, teria sido mais eficiente.
— Sim, sim, já fiz tudo o que tinha para fazer no momento — Havia uma nota de preocupação e uma curiosidade intensa em sua voz.
Com passos rápidos, ela pediu licença e se retirou.
Entrei no quarto e vi que Claire já vestia outras roupas, seu cabelo estava arrumado e um perfume suave pairava no ar. Fiquei aliviada por ele estar com algo confortável, em alguns momentos da noite passada, pensei em tirar aquele terno, mas uma sensação estranha me impediu. Seja o que for, eu precisava superar aquilo. Claire Davis não podia me machucar.
— Você é um homem muito bonito e, sem dúvida, muito cheiroso também — Falei em voz alta, para que ele ouvisse. Afinal, ele ainda estava vivo, e um pequeno elogio não me mataria.
No entanto, por um ínfimo segundo, tive a nítida impressão de que algo como um sorriso torto curvou seus lábios, e meu coração deu um salto descompassado. Um calafrio percorreu minhas entranhas, gelando meu sangue.
Não, meu marido não podia estar acordado! Isso seria o meu fim!