Lily Angel
Saí do quarto como se fugisse de um incêndio, o ar preso nos pulmões e o coração martelando em um ritmo descompassado. A imagem fugaz, quase irreal, do canto dos lábios de Claire curvando-se minimamente ainda queimava em minha mente. Precisava contar para alguém, precisava de confirmação, mesmo que fosse para ser chamada de louca.
Encontrei Margareth no jardim, curvada sobre roseiras viçosas, a tesoura de poda estalando o silêncio da tarde. A luz do sol da manhã pintava reflexos dourados em seus cabelos grisalhos, mas não suavizou a dureza de suas feições.
— Margareth — minha voz saiu mais alta do que pretendia, fazendo-a sobressaltar e largar a tesoura sobre a grama.
Ela se virou lentamente, os olhos estreitos e desconfiados.
— Lily. Aconteceu alguma coisa?
— Eu... eu acho que Claire... — hesitei, as palavras presas na garganta. Tomei um fôlego profundo e continuei, sentindo a urgência me consumir. — Eu acho que ele está acordando.
O rosto de Margareth se contorceu em uma careta de descrença.
— Acordando? Não diga bobagens, Lily. Já lhe disse inúmeras vezes, os médicos foram claros. Meu filho jamais... — Sua voz falhou por um instante, antes de se recompor com uma frieza cortante. — ...jamais despertará.
— Mas eu vi! — Insisti, a adrenalina da descoberta ainda pulsando em minhas veias. — Eu estava lá, no quarto. Ele... ele sorriu. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas eu vi.
Os olhos de Margareth me percorreram de cima a baixo, como se eu fosse um inseto estranho sob uma lente de aumento. Havia algo ali, uma sombra de dúvida misturada com uma raiva crescente.
— Você está inventando coisas — ela acusou, a voz carregada de escárnio. — Está tentando me dar falsas esperanças? Depois de todo esse tempo... depois de tudo o que passamos?
— Não! Juro por Deus, Margareth. Eu vi. Ele reagiu. E não foi com isso que eu concordei, quando assinei aqueles papéis.
Um brilho perigoso acendeu nos olhos da minha sogra.
— Se meu filho despertar desse estado — ela disse, cada palavra carregada de um tom ameaçador —, será um milagre. Um milagre que encherá meu coração de alegria, acredite.
— Eu sinto muito, mas não ficarei nessa casa se Claire acordar, seria demais pra mim... — as lágrimas já enchiam os meus olhos, mas eu as impedi que rolassem por minha face.
— Você vai ficar, e me escute bem Lily — ela se aproximou, sua sombra me envolvendo —, você deverá ser uma boa esposa. Amável, doce, compreensiva. É o seu dever. Ou então...
Ela fez uma pausa, o silêncio pesando ao nosso redor, o sol se escondeu por trás das nuvens, como um prenúncio de uma possível tragédia.
— Você irá sofrer as consequências. Consequências que você nem pode imaginar.
Senti um calafrio percorrer minha espinha. A doçura forçada em sua voz não enganava. Havia uma promessa sombria pairando no ar, e eu me vi prendendo a respiração em um desespero crescente.
Sem esperar por uma resposta, Margareth se virou bruscamente e marchou em direção à casa, seus passos firmes na grama. A observei desaparecer pela porta dos fundos, o medo se instalando em meu peito como uma pedra fria.
Hesitei por um momento, antes de seguir seus passos. Precisava ver. Precisava ter certeza do que meus próprios olhos tinham testemunhado.
Entrei no quarto, o ambiente abafado e impregnado com o cheiro familiar de remédios e lençóis limpos. Claire estava ali, deitado imóvel na cama, exatamente como o deixei. Seu rosto pálido e sereno não entregava nenhum sinal de despertar.
— Eu vi — sussurrei para o homem adormecido, aproximando-me da cama. — Eu realmente vi você sorrir.
Nesse instante, Margareth trancou a porta atrás de mim, seus olhos faiscando de raiva.
— O que você pensa que está fazendo? — ela sibilou, a voz baixa e ameaçadora.
— Eu só... — tentei explicar, mas ela me cortou com um gesto impaciente da mão.
— Não brinque comigo, garota — ela disse, cada palavra destilando veneno. — Você não faz ideia do que eu sou capaz de fazer com essa sua existência medíocre. Se você acha que pode brincar com o coração de uma mãe aflita, você está enganada.
— Sra. Margareth, não foi a minha intenção...
— O que você quer menina? Eu sei, mais dinheiro, é claro. Sua morta de fome, acha que ganhará mais uma montanha de dinheiro se tiver que cumprir o seu papel de esposa como se deve. Você não passa de uma acompanhante de luxo.
— Não, a senhora está distorcendo as coisas! — respondi com raiva diante da humilhação, mas logo me arrependi.
A mãe de Claire em um gesto rápido levantou a mão e deu uma bofetada em meu rosto, o som estalado ecoava pelo quarto, amplificado pelos meus sentidos atordoados.
— Se um dia eu lhe ordenar que deite-se com o meu filho, será exatamente isso o que você irá fazer e com um belo sorriso no rosto! Pois te paguei muito bem para isso!
As lágrimas rolaram pelo meu rosto como uma torrente, eu ainda estava parada no meio do quarto em choque, quando ouvi a Sra. Margareth murmurar algo sobre o almoço que seria servido em breve, e sair do quarto batendo a porta.
Fiquei ali parada, a ardência da bofetada ainda latejando em minha face, mas uma dor muito maior se instalava em meu peito. Perplexa. Era a única palavra que descrevia o turbilhão de emoções que me assolava.
Margareth não era apenas uma mulher amargurada pela condição do filho, ela era... terrível. A frieza em seus olhos, as palavras cruéis, a agressão... tudo revelava uma faceta sombria que eu jamais imaginei.
Olhei para Claire, imóvel na cama, alheio a toda a crueldade que acabara de presenciar. Senti uma pontada de pena, mas logo a raiva tomou conta. Raiva por ele estar ali, inconsciente, enquanto eu era humilhada e ameaçada em seu nome. Raiva por ter me metido nessa situação, por ter acreditado em promessas vazias e em uma falsa sensação de segurança.
Respirei fundo, tentando acalmar o tremor que percorria meu corpo. As palavras de Margareth ecoavam em minha mente, mas agora não causavam apenas medo, causavam revolta.
— Claire — falei em voz alta, a voz embargada pelas lágrimas, mas firme em minha determinação. — Se um dia você abrir esses olhos... nesse mesmo dia eu fugirei desta casa. Não importa o quanto sua mãe me ameace! Eu nunca vou permitir que você coloque suas mãos em mim! Nunca!