Claire Davis
Mantive meus músculos relaxados, o rosto inexpressivo, a máscara perfeita que havia cultivado com tanta paciência.
Ela estava no quarto novamente. Podia sentir sua presença, uma energia hesitante pairando no ar. E então, as palavras. Aquelas malditas palavras que me atingiram como um soco no estômago, muito mais dolorosas do que qualquer tortura a qual fui submetido para fingir o meu estado.
"...nesse mesmo dia eu fugirei desta casa. Não importa o quanto sua mãe me ameace! Eu nunca vou permitir que você coloque suas mãos em mim! Nunca!"
A raiva, fria e cortante, me invadiu. Desprezo. Ela sentia desprezo por mim? Por mim, Claire Davis? O que havia de errado comigo, exceto a inércia, que me tornava tão asqueroso aos olhos de Lily Angel? Certamente o único motivo para dividir o mesmo espaço que eu, era um maldito contrato.
Sempre fui um homem admirado e desejado pela mulheres a minha volta, será que um homem moribundo é realmente tão desagradável assim?
Senti meus punhos se cerrarem sob o lençol, a fúria latejando em minhas têmporas. Fingir a inércia era um exercício de autocontrole quase insuportável naquele momento. Queria abrir os olhos, levantar-me e confrontá-la, mostrar-lhe o erro grotesco de suas palavras.
Lembrei-me do seu rosto. Da beleza fria e distante que ela ostentava, como se estivesse sempre se protegendo de algo. Do seu corpo... ah, o seu corpo. As poucas vezes que bisbilhotei... havia uma rigidez, uma relutância que me irritava profundamente. Talvez fosse apenas minha imaginação.
"Nunca permitir que eu coloque minhas mãos nela?" A audácia daquela afirmação era ultrajante. Ela era minha esposa. Minha propriedade, aos olhos da minha mãe, e em certo sentido, aos meus também. Ela assinou os papéis. Lily Angel, me pertence.
Uma onda de possessividade me invadiu. Ela não tinha o direito de me negar. Não tinha o direito de sentir repulsa. Eu a teria. Eu a faria desejar meu toque. Provaria a ela, e a mim mesmo, que ela era minha, de corpo e alma.
A impotência de meu estado fingido era uma tortura deliciosa, uma ferramenta que eu usaria a meu favor. Deixaria que ela acreditasse em sua liberdade, em sua repulsa segura. Mas eu estava acordado e irei reinvindicar o que é meu por direito mais cedo do que ela pensa.
Na escuridão sob minhas pálpebras cerradas, um sorriso frio se formou em meus lábios. Lily Angel achava que podia escapar? Ela não sabia que havia despertado a fera. E essa fera estava faminta. Ela seria minha. Em breve. E suas palavras de desprezo seriam engolidas por gemidos de... satisfação.
Lily não se demorou muito no quarto, logo ouvi os seus passos ecoando pra longe de mim. Abri os olhos devagar, e dei uma boa olhada no ambiente.
— Lindsay, cheque o perímetro — Ordenei, apesar da voz baixa, a inteligência artificial reconheceu e atendeu o meu pedido.
— Perímetro seguro, Sr. Davis. Não há ninguém por perto.
— Onde está a minha enfermeira?
— A Srta. Marie não está na mansão!
— Certo.
Sempre que tinha a oportunidade me alongava e fazia um pouco de exercício no quarto mesmo, e dependendo da movimentação na casa, tomava um banho. Normalmente deixava para tomar banho quando Marie estava no quarto, precisava de um álibi para estar perfumado. Dei um sorriso amargo diante do meu próprio reflexo no espelho, meus punhos ardiam com vontade de acertar algo.
Retirei a camiseta e fiz algumas flexões, precisava gastar energia, ou acabaria louco. Minha mente vagou para o corpo de Lily despido em sua primeira noite no meu quarto, e céus como eu gostaria de tê-la sobre os joelhos e punir aquela pele branca, até senti-la quente sob os meus dedos. Essa era uma idéia muito tentadora.
Depois de uma sessão de exercícios, observei pelas câmeras onde estavam cada pessoa da família. Ross e Cissa não estavam, Ross provavelmente estava na empresa, sentado em minha cadeira, ocupando o meu lugar. Cissa, já deve ter dado um jeito de se livrar do marido e partido em mais uma das suas viagens sem sentido. Qual o problema com as esposas da família Davis? Pelo jeito agradar o marido não está no plano de ambas.
Tomei uma ducha gelada, rápida. Precisaria secar o cabelo, antes que alguém se aproximasse do meu quarto.
Estava apenas de toalha utilizando o secador, quando o alerta disparou, alguém estava se aproximando rápido demais. Xinguei alto antes de olhar pelas câmeras, e respirei aliviado ao ver a jovem pequena no corredor que dava para a entrada do meu quarto. Marie.
— Cheguei e trouxe o que me pediu. Tudo e mais um pouco sobre Lily Angel — Sua voz tinha um tom animado que me causou um leve enjoo.
Peguei o envelope e o joguei sobre a cama, terminando de secar meu cabelo com a toalha.
— Agora estou com uma dúvida se você é muito corajoso ou louco, já pensou se alguém entra no seu quarto e te encontra assim? — Ignorei sua pergunta, o que ela pensava não me importava, mas o seu olhar demorado sobre o meu corpo me irritou. Gostava de Marie, mas se ela misturasse as coisas seria um problema grave.
Com os cabelos secos, fui até o closet, vesti algo confortável e me sentei na cama, finalmente abrindo o envelope. As folhas se espalharam enquanto eu analisava cada detalhe.
— Uma modelo bastante requisitada, fez vários trabalhos importantes, interessante... — Murmurei, observando algumas fotos.
— O pouco que pude perceber, Lily Angel tem gostos bastante refinados. E os trabalhos de modelo sem dúvida não é suficiente pra uma bolsa da Hermès. — Marie pegou uma bolsa no closet da minha mulher e desfilou diante de mim.
— Guarde isso! — Falei irritado, a verdade batendo na minha cara com a força de mil homens. Lily se casou para manter o seu padrão de vida luxuoso, e não estava disposta a se deitar com um homem para isso. Esperta.
— Sobre os hematomas que você viu, ela caiu de uma escada, nada demais — Marie falou, estendendo outro envelope em minha direção, mas uma sombra de medo transpassou rapidamente pelo seu rosto.
Olhei para ela, desconfiado, e peguei o segundo envelope.
— Essa é a cópia do relatório médico dela. Ela está bem, nada com que você precise se preocupar — Ela me observava com um brilho estranho nos olhos.
— Pelo que estou vendo, Lily Angel não passa de uma mulher ambiciosa, aquela... maldita — Joguei as folhas sobre a cama, a raiva começando a borbulhar.
— Sinto muito, Claire. — Marie falou, pensativa.
— Mas se ela pensa que esse dinheiro vai sair tão fácil assim, está muito enganada — Rosnei, sentindo o sangue ferver.
— O que pretende fazer com ela? — Marie perguntou, sentando-se ao meu lado com uma ponta de... felicidade? Aquilo me incomodou. Havia algo em seu tom, em seu olhar, que não se encaixava. Ela parecia ansiosa demais pela desgraça de Lily.
— Farei dela minha mulher de verdade. Ela vai cumprir o seu dever de esposa, mostrarei como irá me recompensar pelo golpe quando a tiver entre as minhas pernas — Sorri de canto, sentindo um prazer sombrio.
— Como você vai fazer isso? Ela não sabe que você não está em coma e você não pode confiar seu segredo a essa mulher! — Marie deu um pulo da cama, a voz saindo esganiçada, com uma irritação não disfarçada.
Lily vai pagar por ser interesseira e você Marie também vai pagar por esconder certas coisas de mim.
Olhei para a japonesinha agitada à minha frente, percebendo o rápido brilho de apreensão em seus olhos antes que ela o disfarçasse. Havia algo ali. Algo que ela não estava me contando. Mas isso ficaria para depois. Agora, minha prioridade era Lily.
— Hoje à noite, farei de Lily minha mulher.