~Ariadne~
Finalmente chego em casa e m*al cruzo a porta antes de bater ela com força atrás de mim. Passo as mãos pelos cabelos, tentando processar tudo o que aconteceu em apenas alguns minutos, tentando entender quando a minha realidade se despedaçou assim.
E pensar que, se não fosse por aquela m*aldita pasta que esqueci na mesa, eu jamais teria descoberto que aquele desgraçado estava me traindo com tanta calma.
Cercada por essas paredes luxuosas, imaculadas, frias e silenciosas, sinto-me mais sozinha do que nunca. Não consigo me conter. Desabo em lágrimas, descontroladamente e sem dignidade. As lágrimas correm grossas, quentes e incontroláveis, escorrendo pelas minhas bochechas como pequenas cachoeiras.
Aperto o punho na testa e bato repetidamente, me punindo por não ter percebido os sinais.
— To*la. Repito para mim mesma com raiva e autodesprezo. — Mil vezes to*la, cega, ingênua.
As minhas costas deslizam lentamente contra a porta até que acabo sentada no chão frio, derrotada, com as pernas dobradas e o peito subindo e descendo com dificuldade. Não consigo acreditar. Recuso-me a aceitar que a minha vida quase perfeita tenha ido por água abaixo em questão de segundos, que o casamento que eu considerava sólido, estável e respeitável tenha sido profanado de uma forma tão vulgar.
O que mais me corrói não é apenas a traição, mas não saber quando tudo começou, como, quando ele parou de me olhar como antes e por quê. Eu não era suficiente para ele? Onde foi que eu errei? O que ela tem que eu não tenho?
Olho ao redor e vejo os meus esforços refletidos em cada canto desta casa. Tudo está impecavelmente arrumado, limpo, brilhando, sem um único grão de poeira. A cozinha está impecável, a sala de estar perfeita, as almofadas arrumadas. A comida está sempre pronta na hora, quente, esperando por ele. No quarto, as suas roupas estão passadas, dobradas com cuidado e organizadas por cor. Cada detalhe foi pensado para o conforto dele, para a paz de espírito dele.
Depois de tratá-lo como um rei, depois de colocar as minhas necessidades em último lugar para priorizar as dele, é assim que ele me retribui.
A raiva começa a ferver sob a minha pele. Quanto mais contemplo a perfeição artificial de tudo isso, mais raiva sinto. Não vou ficar aqui sentada, chorando como uma boba no canto do meu quarto, esperando que ele volte e me dê uma explicação que certamente será mais uma mentira bem ensaiada. Não vou ficar parada enquanto a minha dignidade se desfaz.
Levanto-me e começo a destruir tudo o que construí com as minhas próprias mãos nesses últimos dois anos.
Pego os pratos valiosos da cozinha, aqueles que ele me deu e que ele exibe com tanta pompa quando temos visitas, e os atiro no chão com toda a minha força. Um após o outro. Cada m*aldito prato, cada xícara, cada travessa elegante acaba em pedaços. Varro a bancada com um golpe violento, jogando os talheres, os recipientes, as decorações. Reviro tudo descuidadamente, sem me importar com a bagunça. Até a comida acaba espalhada pelo chão brilhante, sujando-o, arruinando a limpeza impecável que tanto me esforcei para manter.
Se o meu casamento está desmoronando, esta casa perfeita também pode desmoronar.
Quando termino, uma profunda e sombria satisfação me invade. Não é felicidade, é libertação. Desfiz aquela perfeição sufocante, aquela que me mantinha presa todos os dias, cumprindo um papel que nunca questionei.
Para quê? Para nada.
— Eram esses os seus ensinamentos, mãe? Grito enquanto caminho até o armário de bebidas e pego uma garrafa de vinho. — Pois bem, enfie os seus valores no seu ra*bo e veja se eles dão frutos lá.
Ela sempre repetia que uma mulher casada vive para agradar o marido o tempo todo. Que o seu lugar é em casa, atendendo a todas as suas necessidades, dentro e fora da cama. Que esse era o meu dever. Minha obrigação. Eu deveria ter feito isso sem discutir, sem reclamar.
Eu nem conseguia trabalhar. Fiquei em casa para me tornar a esposa perfeita. M*al tinha terminado a faculdade quando tive o azar de me apaixonar, e depois de me casar com ele, as minhas asas foram cortadas sem que eu percebesse. Achei que estava tudo bem. Minha mãe me garantiu que eu não deveria me preocupar, que a minha vida de verdade começaria sob a proteção do meu marido, que eu encontraria estabilidade e propósito ali.
Quem foi o idi*ota que inventou essa bobagem?
Dou um longo gole na garrafa, depois outro. Acabo bebendo quase todo o vinho, mas não estou bêbada. Sempre fui resiliente. O álcool m*al aquece o meu corpo. Tudo o que faz é clarear um pouco a minha mente, atenuar a dor e, ao mesmo tempo, alimentar a raiva que queima dentro de mim.
No meio da confusão que criei, o meu telefone começa a tocar. Vou até onde o deixei e o pego. O nome do meu marido infiel aparece na tela.
Deixo a chamada cair. Não atendo. Mas quando vejo que ele parou de ligar, abro o chat e digito antes de mudar de ideia.
Você se divertiu no restaurante com a sua amante?
Ele leva apenas alguns minutos para ler, mas não responde.
Consigo imaginar a sua expressão sem nem mesmo vê-lo. Ele deve estar assustado, apavorado agora.
Um divórcio não é do interesse dele. Muito menos ser rotulado como adúltero. A reputação dele é intocável. O cargo que ocupa na empresa mais prestigiosa do país não permite escândalos. Então ele virá, eu sei. Virá para ne*gar tudo, inventar desculpas, tentar me convencer de que o que eu vi não foi o que eu vi.
Eu conheço aquele desgraçado. Dois anos desse tormento ao menos me ensinaram a ler a linguagem corporal dele.
Não me mexo. Continuo sentada no sofá, esperando por ele. Sei que ele chegará a qualquer minuto. Estou até contando os minutos no relógio de parede suíço, aquele que ele tanto adora.
É verdade, é o favorito dele porque foi um presente do pai, então eu o levanto, tiro da mesa e jogo no chão.
Nesse exato momento, a porta se abre e ele entra, bem na hora em que o relógio se estilhaça.
— Ariadne? Ele ofega. Está agitado, suando, como se tivesse acabado de fugir em alta velocidade. — O que está acontecendo aqui?
— Você não vê? Eu disparo, apontando para a bagunça. — Você também é cego, além de infiel?
Ele empalidece. Os seus olhos percorrem o lugar destruído, sem saber onde focar, porque eu não deixei nada intocado.
— Não entendo do que você está falando ou por que está agindo assim. Diz ele com um sorriso nervoso. — Amor...
De onde estou, consigo sentir o perfume feminino impregnado nas suas roupas. Não é o meu.
— Você deixou alguns documentos sobre a mesa. Interrompo antes que ele se aproxime mais. — Como uma idi*ota, fui ao escritório buscar esses documentos para você. Você me disse que eram importantes, que precisava deles para a 'reunião'." Que choque eu levei quando descobri que a tal reunião não era na empresa, depois de você ter me garantido exatamente o contrário ontem à noite.
— Foi uma mudança de planos de última hora. O presidente mudou o local, e eu...
— Não minta! Gritei, furiosa. — Eu estava passando perto daquele restaurante, Otávio. Vi você abraçando aquela mulher. Eu ficava me dizendo que você não seria capaz de uma coisa dessas, que eu devia estar enganada, mas entrei e vi vocês. Você estava beijando ela. Ela estava acariciando o seu rosto, e você a segurava pela nuca. Quer provas? Vá pegar as imagens da câmera de segurança. Não ne*gue. Você tem outra mulher. Você tem uma amante!
Ele permaneceu imóvel, em choque. Abriu a boca, tentou dizer algo, mas as palavras não saíam. Eu o peguei em flagrante, então não havia tempo para inventar uma história coerente tão rapidamente.
— E para piorar tudo. Continuei. — A comida que preparei com tanto cuidado encontrei numa lixeira. O que eu fiz de errado? Diga-me. Pensei que me comportar como a esposa perfeita, como a escrava que a minha mãe queria que eu fosse, seria suficiente para um homem tão exigente e perfeccionista quanto você.
— Meu amor, deixe-me explicar. O seu rosto se contorce em angústia, ele dá um passo na minha direção. — O que você viu não significa nada. Eu… eu sinto muito, é que…
— Apenas diga na minha cara. Que você me traiu, e pronto. Isso me deixaria menos irritada do que ouvir as suas desculpas patéticas.
Ele engole em seco. Pensa sobre isso por um tempo que parece uma eternidade… e acena com a cabeça. Fico surpresa quando ele começa a chorar. Os seus ombros tremem e a sua respiração fica presa na garganta.
— Meu amor, deixe-me explicar. Diz ele. — É verdade… Ele murmura. — Eu estava te traindo com…
— Com uma qualquer. Eu o interrompo. Ele levanta o olhar, surpreso. — Não sei quem é essa mulher, mas ela é uma va*dia.
— Então você não…?
— Você está mais preocupado se eu vi o rosto dela ou não? Eu o interrompo. — Bastava eu te ver para abrir os olhos. Há quanto tempo você está me traindo?
— Ariadne…
— Me diga!
— Só… alguns meses. Ele confessa, balançando a cabeça. — Foi um erro, meu amor. Eu me deixei levar, cedi à tentação, mas quero que você saiba que não significou nada para mim. Eu juro.
— Significou tão pouco que você a leva para um restaurante caro enquanto joga fora a comida que a sua esposa preparou para você?
— Querida… Ele se inclina para frente com cuidado. Os seus olhos estão vermelhos. — Não é o que você está pensando, tá bem? Vou terminar com ela. Prometo que foi só um deslize, eu te amo, você sabe disso.
Não acredito que me casei com alguém tão cínico.
Amor? Que tipo de amor é esse?
Ele me traiu por meses, e aqui estava eu, como uma idi*ota, esperando por ele até altas horas da madrugada, preocupada porque ele supostamente sairia tarde do escritório. Enquanto eu representava o papel da esposa perfeita, ele estava na cama com outra pessoa.
— Me perdoe, Ari. Diz Otavio, caindo de joelhos na minha frente, chorando inconsolavelmente. — Eu te amo e não quero te perder por causa desse erro. Tivemos dois anos maravilhosos de casamento. Não vamos arruiná-los.
— Você me ama? Pergunto, olhando para ele.
— Claro que sim. Ele diz, envolvendo os seus braços em volta da minha cintura e encostando a testa na minha barriga, beijando-a desesperadamente. — Eu te amo, Ari. Você é a coisa mais importante para mim.
A versão ingênua de mim teria acreditado nele. Aquela que vivia para agradá-lo, aquela que precisava se sentir amada.
Mas essa mulher se foi.
— Eu te perdoo. Digo suavemente, acariciando a sua bochecha. Ele me olha, perplexo, quase esperançoso. — Porque eu também te amo e não consigo te deixar, apesar dos seus erros.
Vamos ver se ele gosta da sua esposa perfeita entrando no jogo dele.
Fim de jogo. E não será para mim.