Episódio 1
~Ariadne~
Acordei bem cedo, preparando o café da manhã. O sono pesa sobre as minhas pálpebras e os meus pés estão inchados novamente depois de passar quase o dia inteiro cuidando da casa.
— Querida, está tudo pronto? Pergunta o meu marido enquanto desce correndo as escadas, pasta na mão e olhos grudados no relógio. — Meu Deus, já é tão tarde.
— Sim, aqui está. Respondo, entregando-lhe a marmita. — A sua gravata está torta...
— Não se preocupe, eu ajeito no caminho. Ele responde apressadamente, indo em direção à porta.
— Boa sorte... Murmuro, mas as palavras se perdem porque ele já saiu sem me dar o nosso beijo matinal de costume.
Suspiro e volto para a mesa para terminar o meu café da manhã sozinha, como já fiz tantas vezes. Ele sempre sai correndo para o escritório. Mesmo assim, não consigo evitar a sensação de inquietação com o distanciamento que cresceu entre nós. Ele chega em casa cada vez mais tarde. Ele praticamente só volta para casa para dormir, e isso não deve ser bom para a saúde dele. Por que ele é tão exigente?
Suponho que seja por causa "dele". Ele quer se destacar, se impor, ofuscar aquele inimigo de quem fala todos os dias quando algo no escritório não sai como planejado.
Depois de lavar a louça e arrumar a cozinha, noto alguns documentos esquecidos na mesa da sala. Otávio estava trabalhando neles ontem à noite e mencionou que precisaria deles para a reunião de hoje. Se algo der errado com os planos dele, ele voltará furioso. Isso é quase uma certeza.
Tento ligar para ele para avisá-lo, mas ele não atende. E se ele já estiver na reunião?
— Droga. Praguejo em silêncio. Corro para o meu quarto, visto a primeira coisa que encontro e saio correndo para o escritório. Pego um táxi porque o meu carro ainda está na oficina.
Todos os olhares voltam-se para mim quando atravesso as grandes portas de vidro. Alguns me cumprimentam educadamente. Eles já sabem quem eu sou. Outros, porém, me observam com uma curiosidade incômoda que me faz sentir pequena.
Ao passar por um espelho, paro por um instante. Então me dou conta: são as minhas roupas. Não acredito que vim a uma empresa tão importante vestida assim. Tenho até uma mancha na blusa. Nem percebi, de tanta pressa.
Droga. Não quero constranger o Otávio. Quando ele me vir, vai ficar furioso.
— Bom dia, Sra. Ferrer. Precisa de alguma coisa? Cumprimenta a secretária com um sorriso forçado. Sei que ela não me suporta.
— Bom dia, Becky. Vim trazer estes documentos para o meu marido. Mostro a pasta. — Ele os deixou em cima da mesa. Tentei ligar para ele, mas não atendeu. A senhora sabe se ele já foi para a reunião?
— Que reunião? Ela ergue uma sobrancelha avermelhada.
— Ele me disse que... tinha uma reunião importante. Murmurei, confusa. — Eu pensei...
— Ah, aquela reunião. A expressão dela mudou instantaneamente. — Posso entregar a ele, não se preocupe. Embora... seja uma pena, ele já tenha ido.
— Ele saiu? Para onde?
— Ela não te disse? A reunião não é aqui no escritório, é num lugar fora daqui.
Que estranho. Ontem à noite ele me garantiu que se reuniria com os acionistas aqui e que era extremamente importante. Por que a secretária dele está dizendo o contrário?
— Certo, então vou deixar com você, Becky. Deixo a pasta com ela. — Diga a ele para me ligar quando terminar, ok?
— Claro.
Claro que ela não vai. Eu a conheço. Becky é a secretária do meu marido e nunca me olhou com simpatia. Não entendo por quê... talvez ela tenha sentimentos por Otávio.
Eu praticamente saio correndo do escritório. Os olhares ainda me seguem. Não estou usando maquiagem, nem estou vestida como deveria, e isso só me deixa mais desconfortável.
Paro na calçada para chamar outro táxi. Então, pelo canto do olho, vejo uma lata de lixo ao meu lado. O meu coração afunda quando reconheço o que está dentro: a marmita que dei ao meu marido antes de sairmos.
O que isso significa?
Um táxi para na minha frente e eu entro com um nó na garganta. Não pode ser. Otávio não faria uma coisa dessas. Ele sempre diz que adora a minha comida… ele não jogaria fora o que eu preparo para ele.
Abano o rosto com as mãos para tentar clarear os pensamentos. Algo deve ter acontecido. Tem que haver uma explicação.
Tento me distrair olhando pela janela do táxi, mas a situação só piora quando, ao passarmos por um restaurante, vejo um rosto familiar.
— Senhor, pare o táxi. Digo, tocando no seu ombro. — Por favor, dê a volta. Preciso confirmar algo. Pagarei pelo tempo extra.
O homem acena com a cabeça e manobra para voltar. Sinalizo onde devo parar, mas não há mais ninguém na entrada. Mesmo assim, tenho certeza do que vi. Não estou louca. Otávio estava abraçando alguém. Foi só um segundo, mas eu reconheceria aquele blazer azul-escuro e a camisa listrada que escolhi para ele naquela manhã em qualquer lugar.
— Espere aqui, já volto. Digo ao motorista antes de sair e atravessar a rua.
Antes de entrar no restaurante, vejo o carro do meu marido estacionado ao lado de outros veículos de luxo. E se a reunião for aqui e eu estiver prestes a estragar algo importante?
Mas aquela mulher estava muito perto dele.
— Relaxa. Só dá uma olhada. Digo a mim mesma.
Respiro fundo e entro sem pensar se estou vestida adequadamente. Isso não importa agora.
O lugar é elegante. Vários olhares voltam-se para mim e, por um instante, quero fugir, mas me obrigo a continuar. Algo dentro de mim grita que isso não está certo.
E confirmo isso quando o vejo no outro extremo da sala. Otávio está de pé ao lado de uma mesa, puxando uma cadeira para uma jovem e deslumbrante loira, vestida com uma meticulosidade três vezes maior que a minha.
Não há sócios. Nem acionistas. Apenas os dois.
Ele sorri para ela. Sinto o meu peito se partir quando ela levanta a mão e acaricia o seu rosto, e ele não se afasta. O que finalmente me despedaça é vê-los se beijando.
Otávio a segura pela nuca e a beija com urgência. Ela corresponde com a mesma intensidade.
Não tinha reunião nenhuma. Ele mentiu para mim. Essa era a m*aldita reunião dele. Um encontro com a amante.
Desde quando? Desde quando ele me trai?
Desvio o olhar e percebo as pessoas me encarando, algumas com desprezo, outras com pena, como se eu fosse uma mendiga.
Saio dali quase sem sentir o chão sob os meus pés e volto para o táxi que me esperava. As minhas mãos tremem. Os meus olhos ardem com lágrimas que ainda não consigo conter.
Dois anos de casamento jogados no lixo, assim como aquela lancheira. Tanto esforço, tanta dedicação… para nada. Otávio está me traindo, e eu não sei como lidar com uma traição que jamais imaginei que viveria.