Hoseok não era alto, ômegas em sua maioria não eram, mas também não tinha o tamanho comum de um, sua altura poderia ser comparada com a de um beta facilmente. Cresceu detestando seu título de príncipe, não queria que as pessoas o respeitassem apenas por isso, mas acima de tudo, Kim Hoseok, sobrinho do Rei Mingyu, detestava ser um ômega.
Aquilo começou cedo, não provinha de nenhum trauma ou algo parecido, pelo contrário, Hoseok fora bem tratado a vida toda, sempre viveu sob os privilégios da Família Real, sempre foi o centro das atenções onde quer que estivessem, e desde os seus 15 anos de idade ouvia galanteios e propostas de casamento vindas de muitas famílias, e isso o fez detestar a própria casta. Ele não queria ser doce, não queria sorrir o tempo todo e nem calar a boca na presença de alfas, não queria que alfas o assustassem com suas essências e muito menos que mandassem nele.
Então dedicou a sua vida a superá-los.
Passou a ir cada vez com mais frequência para a carpintaria de seu avô, conheceu todas as funções exercidas dentro de sua casa, aprendeu tudo o que as pessoas consideravam como “trabalho de alfa”, decidido a passar por cima de qualquer limite imposto. Mas Kim Hoseok não se tornou uma inspiração para os outros, ele podia ser forte e imponente, mas sua personalidade o tornava uma pessoa intragável na maior parte do tempo. Ele não se importava, estava feliz com os poucos amigos que tinha, e de certo modo suas palavras m*l educadas o protegiam de pessoas interessadas apenas na riqueza de sua família.
Mesmo com comportamento inadequado e músculos no corpo, ele era cortejado, mas sabia que nenhum deles estava realmente interessado em ser seu companheiro, queriam apenas unirem suas famílias com a família do Rei.
— Você tem que buscar os pregos que encomendamos. — seu tom de voz sempre mudava quando se referia ao alfa alto e silencioso, sempre fizera questão de não demonstrar qualquer empatia que fosse para com ele. Mas o rapaz apenas o ignorou — Não está me ouvindo?
Ele demorou ainda alguns segundos, sequer levantou os olhos do que fazia.
— Estou.
— E por que não fez o que mandei?
— Porque você não manda em mim.
Hoseok não sabia bem quando e como aquilo havia começado, mas ele e Chae Hyungwon, o alfa vindo de lugar nenhum, não conseguiam suportar a presença um do outro, o que era bastante irônico em vista da situação em que viviam. Hyungwon trabalhava para o avô do ômega desde que era apenas um garoto, cresceu sendo seu aprendiz e conhecendo as melhores formas de construir grandes embarcações, o Chae conhecia todos os segredos dos grandes navios de guerra, ajudara a projetar a maioria deles, e estava sempre com Siwon, o construtor.
E como neto do Choi, Hoseok também estava sempre ali, também trabalhava e projetava os navios, era até engraçado dizer que ele e Hyungwon passavam a maior parte do dia debaixo do mesmo teto, respirando o cheiro um do outro.
— Claro que mando! — o ômega já aparentava estar irritado, sempre foi pavio curto — Eu sou o neto de Choi Siwon.
Ao contrário do Kim, Hyungwon era muito calmo e quase nunca perdia sua paciência, sua paciência chegava a ser irritante em vários momentos, principalmente para o ômega, que se enraivecia diante das milhares de vezes que o mesmo ignorou seus insultos e passou por ele como se não o visse.
— Que bom pra você.
O alfa ainda não havia se dado ao trabalho de o olhar, fazendo o mais baixo bufar de raiva.
— Chae Hyungwon! — gritou seu nome — Não pode me ignorar assim!
— Posso sim.
O ômega bufou mais uma vez e saiu de perto pisando duro, fora ele mesmo buscar os tais pregos. Hyungwon não tinha a exata intenção de estar sempre ignorando tudo o que Hoseok falava, mas ele sabia quando o Kim estava fazendo de propósito apenas para o importar ou insultar. Kim Hoseok gostava de parecer mais forte, gostava de mostrar que poderia sim dar ordens a alfas. E ele podia.
Mas não para Hyungwon.
O Chae levantou a cabeça assim que o menor saiu, balançou a cabeça e riu baixo da forma com que ele parecia tão irritado. Cresceu ali, lidava bem com a presença do filho do irmão do Rei, lidava bem com as bobagens que dizia, e não se importava com seus insultos, não perderia tempo se importando.
— Vocês brigaram de novo? — Siwon, que acabara de vir da mesma direção em que Hoseok saiu, perguntou — Ele não parecia contente.
— O senhor já sabe como nossa relação é.
O mais velho apenas negou com a cabeça enquanto seus lábios se curvavam em um ar de riso. Recordava-se bem de como as coisas eram quando os mesmos ainda eram garotos, recordava-se das vezes em que seu neto ofendeu o outro gratuitamente e das vezes em que viu Hyungwon ficar triste por isso. Fora ele o primeiro a dizer para que não se importasse, que apenas ignorasse o mais novo, acreditava que um dia passaria, que Hoseok amadureceria, mas pelo visto estava errado.
Hoseok não amadureceu, e seu avô temia que ele só fosse amadurecer quando coisas ruins acontecessem.
[... Herança dos Alfas ...]
Seria a primeira vez que Jooheon compartilharia a mesa com a família de seu noivo e isso o deixava nervoso, muito nervoso. Sua Appa e sua Omma estariam presentes, queria que elas vissem que ele estava preparado para ficar ali. Queria que seus sogros vissem que ele era educado e que estava apto a ser o senhor daquela casa um dia.
Sorriu quando Hyunwoo veio acompanha-lo, ficara feliz por ter o apoio dele. Todavia, não estava nenhum pouco preparado para o que viu. A mesa dos Wu era enorme, ela tinha 21 cadeiras, e quase todas elas estavam ocupadas pelo imenso número de filhos do Lorde Wu. Em uma ponta da mesa sentava-se o Chefe da família, Wu Seokmin, e na outra ponta duas cadeiras eram ocupadas por seus dois companheiros, Seungkwan e Hansol. Cada um dos filhos tinha um lugar marcado, indo do mais velho ao mais novo, agora com uma cadeira a mais, a sua. Outras duas cadeiras também foram colocadas para que Lady Tiffany e sua esposa Taeyeon se sentassem, as mesmas o esperavam de pé.
— Já se passaram muito anos desde a última vez que estiveram ali. — todos os Wu se levantaram quando o Lorde começou a falar — Deixe que eu apresente novamente os meus filhos.
Treze, podia contar com os olhos. Quatorze com Hyunwoo ao seu lado, e soubera de mais dois bebês que dormiam em seus quartos, duas meninas, mas ainda não sabia seus nomes.
— Hyunwoo, o mais velho, acredito que se recordam da aparência dele. — o alfa lúpus começara a falar — Já conhecem Yuri, a segunda alfa. — a moça alta era muito sorridente — Kihyun, meu ômega mais velho. — o rapaz sorria mais que a irmã — Taehyung, o mais velho dos meus filhos betas. — este por sua vez era mais fechado, quase tão alto quanto Yuri — Eunwoo, também beta. — a moça também já era adulta, muitos diziam se tratar da mulher mais bonita entre os Wu, mas ela não tinha interesse nenhum em alfas — Changkyun e Siyeon, meus filhos gêmeos — que na verdade não eram gêmeos, apenas haviam nascido no mesmo dia, mas um viera de Hansol e o outro de Seungkwan — Hyunggu, ômega. — aos 17 anos se tornara o mais protegido pelos irmãos, o rapaz era muito bonito e dono de um cheiro encantador — Sojung, mais uma alfa. — alta e imponente como as irmãs, tinha 16 anos — Hongseok, alfa. — este tinha 15, se parecia muito com a família de Seungkwan, tinha os mesmos cabelos negros e grossos dos Zhang — Eunbi, alfa. — atualmente era a que passava mais tempo com Seokmin, estava na idade para isso — Sewoon, ômega. — o menino tinha 9 anos, era gordinho e faltava dois dentes bem na frente — E essa é a... é a...
A essa altura Seungkwan e Hansol já o olhavam desconfiados.
— Papai, o senhor esqueceu meu nome. — a menina dissera em um misto de mágoa e indignação.
— Eu não esqueci seu nome, é que ele é grande e complexo.
— Meu nome é Yuqi.
Seokmin era muito bom em fingir que nada havia acontecido.
— E esta é Yuqi, minha filha ômega mais bonita. — a menina o olhou desconfiada, ela tinha oito anos e era uma imensa mistura das personalidades de seus ommas — E por último, Ha... Hayoung, a mais nova das alfas. E ainda tem dois bebês lá em cima, depois eu apresento.
Era quase uma maneira escrachada de dizer que ele não lembrava do nome dos mais novos, ainda os chamava de 15 e 16. Seus filhos não o julgavam quando ele trocava seus nomes, ninguém julgava, não era fácil quando se tinha 16 filhos e mais um milhão de obrigações.
Naquela noite Jooheon ganhou um lugar fixo à mesa, uma cadeira especial foi feita para ele, ela tinha detalhes em vermelho. As cadeiras da mesa dos Wu não eram iguais, eram feitas em tamanhos e alturas adequadas para quem sentaria nelas, também eram trocadas com o tempo.
— Espero que se sintam confortáveis.
E de fato estava sendo um jantar agradável, os Wu conversavam bastante enquanto comiam, em breve iria descobrir que aquele era o momento mais íntimo do dia, onde eles dividiam tudo sobre o dia que haviam tido. Era bonito ver aquilo, eles eram uma família bem grande e alegre, todos se davam muito bem mesmo com suas diferenças, aceitavam bem as regras e os costumes da família.
Jooheon se perguntava se havia sido muito difícil criar tantos filhos, a convivência com tantas pessoas parecia ser um pouco complicada. Se perguntava se eles brigavam, se havia entre eles alguma intriga ou até mesmo alguma mágoa. Aquela seria sua família agora? Ainda sentia dúvidas quanto a muitas coisas, não tinha certeza se um dia conseguiria se adaptar a eles, se um dia seria como eles.
— Hyunwoo, querido, coloque mais comida para o seu noivo. — Hansol falou em algum momento, o beta já empurrava uma das grandes vasilhas, que a essa hora já estava pela metade — Ele comeu tão pouquinho.
O alfa já estava na direção da vasilha quando o Young se deu conta.
— Não, obrigada, eu já comi o bastante. — tentou recusar, mas ainda na dúvida se deveria fazer isso ou não, tinha medo de que seus sogros acreditassem que ele não havia gostado da comida — Eu sempre como nessa mesma quantidade.
— Mas você tem que comer mais. — Seungkwan já havia se levantado de seu lugar e agora colocava montes de comida em seu prato — É tão magrinho e vai se casar em poucos dias, nem vai ter força para aguentar a noite de núpcias, Hyunwoo é um alfa lúpus, acredite em nós, você precisa estar bem alimentado.
O ômega mais novo não sabia como reagir a isso, seu rosto ficou completamente vermelho e tudo o que conseguiu fazer foi baixar a cabeça e continuar comendo, se estivesse de boca cheia não seria obrigado a responder. Seu coração estava batendo tão rápido que ficava difícil de engolir. Aquela família era mesmo muito diferente da sua, seus sogros pareciam tão calmos com que acontecia que o Young só conseguia imaginar que aquele tipo de diálogo era muito comum entre eles.
Olhou de relance para seu noivo, mas este parecia muito alheio a tudo, comendo como um animal assim como qualquer alfa comia. Aos poucos a agitação interna começou a diminuir, precisava manter a calma, ainda tinha muito o que aprender sobre aquela família.
No fim do jantar todos se dissiparam, alguns subiam para seus quartos enquanto outros iam para os demais cômodos, se juntavam em grupos de três ou quatro para conversarem sobre qualquer banalidade antes de dormir. Jooheon sentiu-se como um peixe fora da água naquele momento, ele não tinha i********e com nenhum deles para que pudesse simplesmente se juntar em uma conversa.
Sentiu-se um tanto triste, não tinha facilidade de fazer amigos.
— Espero que tenha gostado do jantar. — assustou-se e ao mesmo tempo ficou feliz quando Hyunwoo surgiu perto de si — E peço perdão pela barulheira dos meus irmãos, a maioria fala pelos cotovelos.
— Oh, não, foi um jantar bastante agradável. — sorriu doce ao responder, a aproximação do alfa ainda o deixava muito nervoso, muitas vezes a voz queria ficar presa na garganta — Eu me diverti bastante com a conversa deles.
Hyunwoo podia ver e sentir o quanto o ômega estava nervoso, aliás, ver era algo bem fácil, pois o Young m*l se aproximava dos outros, mas ficava a observá-los de longe, seus olhos pareciam carregar bem mais do que curiosidade, ele parecia esperançoso também, esperando pelo momento em que alguém falaria com ele, mesmo que fosse apenas para perguntar qualquer trivialidade.
— Você...
Ainda estava pensando no que iria dizer quando seu pai o chamou, não se agradava nada em ver Lady Young ao lado dele, ela não era a melhor pessoa com quem poderia ter uma conversa agradável. Hyunwoo não era alguém que vivia a julgar terceiros, mas desde que a família de seu noivo chegara, não se gradara das expressões nada atrativas no rosto da alfa.
— Conversaremos em uma outra hora.
Antes que o alfa saísse, Jooheon curvou sua cabeça para ele, mas justamente por ter feito esse movimento que não conseguiu ver quando o mesmo franziu a testa para esse ato e depois saiu.
Ficou sozinho na sala de jantar novamente.
— Por que fez aquilo? — alguém surgiu em suas costas, quando se virou viu se tratar de um dos irmãos ômegas de Hyunwoo — Sabe, se curvou.
Estranhou, aquele ato lhe pareceu tão simples.
— Porque ele será meu marido, tenho que demonstrar respeito.
Mas para o outro ômega, ainda era um ato sem sentido nenhum, aliás, lhe pareceu ainda mais sem sentido agora.
— Só nos curvamos para nossos pais, Lordes, ou o próprio Rei, nossas cabeças não se curvarão para qualquer um que se sinta importante apenas por ser um alfa. — viu o quão sério ele parecia enquanto falava, ao mesmo tempo que seu tom se tornava arrogante e orgulhoso. Nunca ouvira um ômega falar assim — Hyunwoo é seu noivo, não seu pai, não nos curvamos para maridos.
— Não?
O Young parecia muito incrédulo diante disso.
— Não, não fomos criados assim, todos são iguais debaixo desse teto, nossos ommas não se curvam para nosso appa, eles o beijam e o abraçam, é assim que um casamento funciona, fomos criados para não aceitar menos que isso.
Sentiu-se estranho. Não aceitar menos que isso? Não fora criado assim, foi ensinado que respeito estava acima de qualquer coisa, que deveria demonstrar respeito por seu alfa o tempo todo. Demonstrar carinho? Não sabia como fazer isso, sequer sabia que alfas gostavam disso ou que queriam isso.
— E a propósito, meu nome é Kihyun.
[... Herança dos Alfas ...]
Ravi sentou-se na cama para poder vestir uma calça, o barulho fez com que a pessoa deitada ao seu lado também acordasse, e vendo que o mesmo iria se levantar sendo que o sol sequer havia raiado, levantou-se para que pudesse de alguma forma o impedir de ir.
— Para aonde vai? — lhe perguntou observado as costas nuas do alfa.
— Isso não lhe diz respeito. — o loiro não tinha nenhuma delicadeza em sua voz — Pegue seu pagamento e saia da minha casa.
A mulher torceu o nariz pela grosseira, mas ao invés de se afastar, a mesma agarrou-o pela cintura e pôs seu queixo sobre o ombro do mesmo, sorriu displicente.
— Não cobro de alfas tão bonitos.
Ela imaginava que ele fosse ficar feliz pelo elogio, qualquer alfa ficaria. Prostitutas sabiam usar as palavras, isso era algo ciente para qualquer um, sabiam como encher o ego dos alfas e sabiam muito bem a quem deveriam agradar e a quem não dar importância. Ela não queria o dinheiro dele, queria mantê-lo por perto, quanto mais próxima fosse de alfas importantes mais segura ficaria vivendo naquela cidade, ainda mais quando se tratava dos alfas solteiros.
— Não me agrada dever a prostitutas. — abruptamente o loiro tirou as mãos da mesma de sua cintura — Pegue o dinheiro e saia antes que eu a jogue lá fora.
Ela pareceu finalmente se dar conta, a beta vestiu suas roupas de qualquer maneira e o mais rápido que pôde para que logo pudesse sair. Estava decepcionada, essa era a sua realidade, mas quem se importaria com o desagrado de uma p**a? Não era a opinião dela que mudaria o pensamento do povo sobre Ravi.
O loiro vestiu-se elegantemente como sempre se vestia, era vaidoso e gostava de manter uma aparência sempre impecável. Alinhou seus cabelos e olhou-se uma última vez no espelho, gostava de sua aparência, a mulher não mentia ao dizer que ele era bonito. Ravi era uma benção de Freyja, seus cabelos loiros cresciam muito rápido, mas gostava de os manter sempre na altura das orelhas, era o tamanho perfeito para que pudessem balançar ao vento e deixa-lo ainda mais atraente. Beleza era algo importante, por mais que muitos alfas não ligassem tanto, se manter belo era indispensável para seus planos, seria bem mais fácil conquistar Hakyeon assim.
Deixou a casa e optou pelas ruas mais vazias, o sol ainda não nascera por completo, mas a vida na Cidade Capital começava muito cedo para grande parte das pessoas que viviam ali. Andara por muito tempo até sair da alcateia, não haviam mais florestas dentro dela, tudo havia sido desmatado para se obter mais espaço, mas ainda haviam muitas árvores e enormes bosques em redor dela, bastava apenas que caminhasse até lá. Ele poderia ter optado por ir à cavalo, mas precisava de uma solidão total para o que faria.
E era ali, onde não havia mais nada e nenhum som além dos pássaros que ele se ajoelhava, fechava seus olhos e focava naquilo que mais desejava.
— Ao deus Vidar a minha oração, deus da vingança conceda a quem te pede aquilo que mais deseja. — sua voz se enchia de algo desconhecido, variava de tom muitas vezes, quase como se o próprio deus estivesse ali agora, algo que poderia acontecer, mas o loiro jamais saberia — Entregue em minhas mãos tudo o que ainda existe da família Park, conceda-me a força e a sabedoria para dissipar da terra todos os descendentes de Park Chanyeol, e dei-me tudo o que um dia pertenceu ao homem que matou meu avô, do qual carrego o mesmo nome até meu último dia.