Zhang Hakyeon não era um ômega aventureiro, não se arriscava o tempo todo como um jovem inconsequente que não tinha medo de nada. Ele era obediente, responsável e educado, essas sempre foram as palavras usadas para descrevê-lo. Mas naquele dia ele desejou ser, escondeu-se por baixo de uma capa opaca e simples, passando até os estábulos sem chamar atenção e pedindo aos deuses para que ninguém estivesse ali.
E fora acreditando que uma vez não o mataria que o ômega baixinho selou o cavalo, já tinha o costume de fazer isso e não achava difícil, o problema fora mesmo subir no animal, precisou puxá-lo para perto da cerca para que pudesse usá-la como apoio e se colocar sobre a sela. Estava feliz por ter conseguido, usou o portão de trás para sair, já que o mesmo quase nunca era usado, mas estava sempre aberto. Sorriu quando finalmente estava do lado de fora, pela primeira vez agradecendo por sua appa ser ocupada demais para se importar com aquele portão.
— Para onde eu vou? — se perguntou ao finalmente se dar conta de que tinha muitas opções.
Já conhecia muito bem tudo o que havia por dentro dos portões da cidade, mas não sabia muito sobre o que havia lá fora, e julgou não ser perigoso em vista de que as grandes Fortalezas ficavam ao redor dos muros da Cidade e que elas sempre eram bem vigiadas, além de haver também a Fortaleza de sua própria família, onde vivia o principal ramo da Família Zhang, Lorde Zhang Soonyoung, Comandante das Frotas Marítimas do exército dos Lobos. Eles eram primos, o Lorde era sobrinho de seu avô, Zhang Yuta.
— É tão bonito aqui fora.
E de fato era.
Os campos ao redor dos muros tinham um cheiro delicioso de grama molhada, ainda mais pela manhã, quando o orvalho banhava tudo. A grama verdinha se estendia por todos os lados, até estranhamente sumir no Campo de Treinamento dos novos soldados, onde a terra era batida e a poeira subia enquanto os mesmos treinavam, uma vez ouvira dizer que a grama havia morrido devido ao suor salgado que pingava sobre ela enquanto os mesmos lutavam. Era poético, dizia.
Cavalgou livre pelas colinas, o sorriso não saía do rosto um só segundo, nunca se sentiu tão livre em toda a sua vida, não que fosse preso, ele podia sair, mas sozinho era algo raro. Todavia, sua alegria não durou por muito tempo, pelo menos, acreditava estar ali há poucos minutos, pois perdera a noção do tempo diante toda a emoção que sentia. O cavalo se assustou com o barulho de algo mexendo-se em uma moita e passou a correr afoito e sem freio. Hakyeon tentava pará-lo puxando as rédeas, mas isso não adiantava de nada, ficou com muito medo e acabou agarrando ao pescoço do bicho, fechou os olhos com força acreditando que logo cairia e que quando caísse não sobreviveria a queda, pois seu corpo era magro demais para suportar um impacto assim.
Estava apavorado demais para notar o som da aproximação de outro cavalo, que vinha ainda mais rápido que o seu, os olhos fechados o impediram de ver quando alguém de algum modo fez seu cavalo parar.
— Zhang Hakyeon? — ouviu a voz o chamando, mas seu coração estava tão acelerado que ainda tinha medo de abrir os olhos — Está tudo bem agora.
Demorou alguns segundos para que criasse coragem, mas finalmente soltou o pescoço do animal e abriu seus olhos, se já estava nervoso, ficou ainda mais quando viu quem estava ali, segurando as rédeas de seu cavalo e esperando qualquer reação sua.
— Ravi? — não sabia direito como chama-lo, as pessoas sempre o chamavam assim, mesmo que o ômega acreditasse ser falta de respeito chamar alguém pelo primeiro nome sem ter nenhuma i********e ou laço sanguíneo — Me desculpe, eu não sei seu sobrenome.
O loiro sorriu pequeno, por alguns segundos o Zhang acreditou que ele estava envergonhado, pelo menos, foi o que lhe pareceu naquele momento.
— Não tenho sobrenome, meu sangue é de percevejos. — ele ficou sério enquanto falava, a mesma expressão estranha voltou para o seu rosto, os lábios entortavam em um sorriso amarelo — Sou apenas Ravi, esse é o meu único nome.
O ômega queria dizer algo que o confortasse, mas não havia maneira de fazer isso, palavras não apagavam passados, dizer que sentia muito não iria trazer os pais dele de volta e dizer qualquer outra coisa também não iria mudar quem ele era e nem como as pessoas o enxergavam.
Então apenas balançou a cabeça afirmando que havia entendido.
— Sua Appa mandou cem soldados atrás de você, ela está muito preocupada com o seu sumiço. — ele avisou, algo que deixou o ômega desesperado — Preciso te levar para casa.
— Mas eu apenas saí por alguns minutos.
— Você sumiu há horas, não apareceu para o almoço e já está quase anoitecendo.
Foi só então que olhou para o horizonte, o céu vermelho declarava o fim do dia, em breve tudo ficaria escuro, só então notara que estava esfriando, passara tanto tempo ali que sequer notou o tempo passando, estava feliz demais para perceber que estava com fome ou com sede.
— Eu nem percebi. — dissera tristonho, ficaria de castigo por meses — Appa e Omma vão ficar muito chateadas.
O loiro pareceu pensar por alguns segundos.
— Venha comigo, vou te levar de volta.
O menor nada disse, apenas aceitou. Ravi segurou as rédeas de seu cavalo o tempo todo enquanto cavalgavam de volta, cada um em seu cavalo, bem devagar para que o alfa pudesse guiar os dois animais ao mesmo tempo. Hakyeon o olhava momento ou outro, vivia em um misto de estar com medo das broncas que levaria e de estar feliz e nervoso por estar perto do espadachim, em ter sido salvo por ele.
Foi salvo por ele! Devia sua vida a ele agora, precisava pensar em um modo de agradecer urgentemente. Céus! Sequer havia dito obrigado.
— Ravi! — o chamou e esperou que o loiro o olhasse — Obrigado por ter me salvado, eu achei que fosse cair e me machucar muito.
— Não precisa agradecer, fiz apenas o que era certo.
Mas aquilo de certa forma o decepcionou, ele fez porque era o certo, não porque tinha algum apreço diferente por ele, porém isso já era mais do que obvio, alguém como Ravi se arriscaria para salvar qualquer pessoa que fosse, eram assim que as coisas funcionavam entre todos os que faziam parte do Exército.
Claro, essa era a verdade.
Quando chegaram ao casarão, YooA fora a primeira a sair correndo para abraçar o filho assim que o viu descer do cavalo, estava tão preocupada que já roera todas as unhas. Havia acabado de anoitecer, Mihyun chegara a pouco para dizer que ainda não havia tido notícias, mas respirou aliviada ao ver seu filho em casa novamente.
A alfa fora ao encontro do mesmo e o abraçou, queria ter gritado e dito o quanto ele havia sido imprudente, mas seu coração amoleceu ao vê-lo chegando vivo e sem arranhões.
— Ravi! — se dirigira ao loiro que acompanhara seu filho, precisava agradecê-lo — Fico muito grata por ter trazido meu filho de volta, nossa família tem uma eterna dívida com você.
Por fora o loiro demonstrou calma, mas por dentro sorria com isso, era justamente a brecha que precisava, alfas levavam muito a sério dívidas de gratidão, e manter uma dívida com Zhang Mihyun abriria para si as portas certas.
— Fico feliz apenas em ter ajudado, Capitã Zhang.
— Quero recompensá-lo de alguma forma. — ela disse — Diga-me o que deseja e eu ficarei feliz em lhe conceder isso.
O que Ravi realmente desejava era algo que Mihyun não poderia conceder. Mas ele via ali a porta certa sendo escancarada, agora só precisava passar por ela e ficar ainda mais perto do que tanto queria. Olhou de relance para Hakyeon, que agora o encarava com um certo brilho nos olhos.
Estava no caminho certo.
— Não desejo nada, Capitã, já tenho uma vida digna, e isso já é o que sempre desejei. — suas palavras eram polidas, ele nunca falava sem pensar — Fico feliz apenas em ver seu filho está em casa novamente.
O loiro curvou a cabeça e mudou a direção do cavalo para partir, mas Mihyun pensava rápido e não se sentia confortável apenas com aquilo, ela precisava o recompensar de qualquer forma, e com algo que ele não pudesse recusar.
— Amanhã será aniversário de minha esposa YooA, junte-se a nós na comemoração, darei uma festa entre nossas famílias e ficaria muito feliz que estivesse aqui conosco, afinal, se você não tivesse trazido Hakyeon de volta essa festa não aconteceria.
De costas, Mihyun não conseguiu ver quando ele sorriu.
— Se é isso que a minha senhora deseja, eu virei.
E fora bem ali que a brecha certa fora aberta.
[... Herança dos Alfas ...]
— Como ela ficou?
Taekwoon olhou para trás ao ouvir a voz de seu irmão, o alfa estava sentado à mesa e despedaça algo que um dia havia sido um pedaço de pão, Matthew nunca o comia, mas despedaçar era quase que um passatempo dele, algo que o mais velho desaprovava e vivia dizendo ser algo ofensivo, especialmente pela fome que passaram no passado, uma época em que matariam para ter aquele pedaço de pão.
— Quem?
— A pessoa que bateu em você. — o mais alto apontou para o roxo no queixo do beta, não era nada muito chamativo, mas podia ver com clareza que havia sido um soco — Devo me preocupar com isso? Você já tem muitos inimigos nessa cidade, as pessoas falam.
Taekwoon tomou o restante do pão das mãos do mais novo.
— Não faça isso com os pães, já disse! — e logo seguida bateu com o mesmo na cabeça do alfa, fazendo as migalhas se espalharem por seu cabelo — E não, não precisa se preocupar, eu me viro muito bem sozinho, não preciso de nenhum alfa me defendendo.
— Eu sou seu irmão.
Matthew havia claramente ficado ofendido, e por mais que soubesse que Taekwoon detestava a ideia de depender de alguém, achava desagradável de sua parte não aceitar sequer a sua proteção, eles eram irmãos, irmãos se protegiam, assim as coisas deveriam ser.
— Eu sei disso, irmãozinho. — e não importava o quanto o outro fosse mais alto que ele, Matthew seria para sempre o seu irmão mais novo, seu garotinho, ao qual um dia viu nascer — Eu só não quero que se preocupe comigo, está tudo bem, ninguém pode me machucar.
Havia outra coisa, algo que o beta não havia comentado e que certamente se tornaria um problema um dia. Matthew tinha medo disso, não que julgasse os membros da família real como pessoas ruins e perigosas, mas ele era um alfa e sabia muito bem como a cabeça de um alfa jovem funcionava.
Alfas faziam besteira quando não tinham alguém que os parasse.
— Eu soube que você jogou cerveja no príncipe Hongbin. — comentou por alto, queria conversar sobre isso, mas primeiro queria saber da boca de seu irmão o que realmente havia acontecido — Estão falando disso por toda parte, alguns o chamam de louco, já outros dizem que você é um herói.
O beta olhou desconfiado.
— Um herói?
— Tem que ser muito corajoso para recusar um príncipe, especialmente quando se trata do herdeiro da coroa, Hongbin vai assumir o trono um dia. — Matthew se perguntava se isso traria paz ou ainda mais guerras — Corajoso ou simplesmente muito louco.
— Não sou louco.
Taekwoon encheu seu copo com a água do pote e voltou para a mesa. Lembrou-se daquele fatídico dia, se perguntava se teria feito mesmo já sabendo que se tratava do príncipe, e sim, ele acreditava que teria feito da mesma forma. Alfas não o assustavam, não tinham direito nenhum de fazerem o que bem entendessem e muito menos o direito de o tocar contra a sua vontade.
O príncipe Hongbin não passava de um grande i*****l aos seus olhos.
— Não há nada de especial nele, ele nem é muito bonito.
Nisso havia mentido, o maldito alfa era insuportavelmente bonito.
— Não estou falando de beleza. — Matthew começou a explicar, talvez o beta não enxergasse as coisas como um todo ainda — Estou falando de poder. Quem vai recusar se deitar com ele e perder a oportunidade de engravidar? Mesmo se tratando de um bastardo, um filho é um filho, ele pode não ter direito a coroa, mas se ele se apegar a criança pode legitimá-lo e lhe dar direito a herança. Imagine ter um filho que terá direito a herdar parte da riqueza que há dentro daquele castelo, as pessoas matariam por isso.
— Mas eu não.
Taekwoon ainda achava aquilo um absurdo, ergueu-se da cadeira mesmo sem ter um motivo para isso, detestava aquele príncipe, ouvir seu nome o deixava agoniado e desejava nunca mais ter que vê-lo.
[... Herança dos Alfas ...]
— Por que está com isso na cabeça?
Jooheon se assustou quando Kihyun surgiu atrás de si, o ômega mais baixo estava com o rosto sujo de terra, o mesmo com suas roupas e mãos, seus cabelos estavam bagunçados e ele não parecia estar se importando com isso naquele momento.
— É só uma sombrinha. — o outro falou como se o Wu não soubesse de fato o que era — Pra me proteger do sol e não deixar que ele escureça minha pele.
— Você é branco como um papel, na primeira vez que o vi achei que estivesse muito assustado, por isso estava tão pálido, mas agora vejo que você é assim mesmo. — Kihyun não tinha medo de expor as coisas que pensava, aos poucos Jooheon entendia isso — É meio estranho.
— Desagradável?
— Só estranho.
O Young parou para pensar um pouco, olhou para seu braço e notou que ele era mesmo muito pálido, especialmente quando comparava sua cor com a cor dos Wu, que eram bem mais corados e até mesmo um pouco avermelhados nas partes que ficavam mais expostas, como se estivessem o tempo todo correndo debaixo do sol. Olhou em redor e notou ser isso mesmo, ele era o único que usava uma sombrinha para andar pela propriedade.
E se Kihyun achava estranho ele ser tão pálido, Hyunwoo poderia ter a mesma opinião.
— Acha que seu irmão pode me achar estranho também?
— Hyunwoo? — Kihyun esqueceu com quem falava por dois segundos — A única coisa que ele quer reparar a cor é a cor do seu... — olhara para o futuro cunhado, era melhor não falar aquilo — Ah, não se preocupe com isso, Hyunwoo gosta de você do que jeito que você é, ele não vai se importar com quão transparente sua pele é.
No fim, optou por fechar a sombrinha, pegaria um pouco de sol.
Kihyun estava se tornando sua principal companhia, Hyunwoo era ocupado demais para lhe dar atenção o tempo todo, mas gentil demais para sair sem se despedir dele. Gostava dele, gostava dos Wu, eles eram simpáticos e o tratavam bem, além do ambiente ser bastante caloroso e bom de se estar, tudo na Fortaleza Wu transmitia aquilo, a união que eles tinham como família.
Era um lar, de fato.
— Já aprendeu o nome de todo mundo?
— Hum... acho que não.
Os dois pararam perto dos estábulos, havia um pequeno banco perto da parede onde poderiam se sentar, de lá dava para ver bem todo o movimento do local.
— Ficaria impressionado se soubesse, nem nosso Appa sabe. — o ômega mais baixo ria quando se lembrava daquele detalhe — Às vezes ele me chama de 5, e eu nem sou o 5.
— Lorde Wu tem a cabeça muito ocupada.
— “Meu sogro”. — o mais velho o corrigiu — O chame de “Meu sogro” e não de Lorde Wu, vai parecer estranho se o chamar assim, papai não vai gostar.
Kihyun queria que Jooheon se sentisse incluso na família, mas logo percebeu que não seria tão fácil, o ômega Young era muito formal, demoraria até que tratasse todos por seus nomes devidos.
— Submisso ou Dominante?
Demorou alguns segundos para que Jooheon entendesse. Olhou na direção que o outro olhava e viu mais um dos Wu, um beta, lembrava-se de seu nome, Taehyung, era um dos mais velhos, se a memória não lhe falhava ele era o beta mais velho.
— Eu ouvi que ele é dominante.
— Mas eu estou perguntando o que você acha.
O Young olhou mais uma vez para Taehyung, era difícil de dizer, ele não era muito bom em julgar as coisas, em julgar pessoas. Mas parando para analisar bem, Taehyung era alto e forte como os dominantes, mas seu rosto era doce e seu sorriso era muito gentil. Ele ajudava nos trabalhos braçais da Fortaleza, mas também ajudava na cozinha e em tarefas que eram em sua maioria preferíveis para ômegas e betas submissos.
Era muito difícil julgar o que ele era.
— Eu não sei.
— Appa me pediu para espionar o Taehyung. — Kihyun dividiu o segredo, ele não havia contado isso para mais ninguém, seus irmãos eram muito linguarudos e certamente contariam para o beta — Depois que Hyunwoo se casar nós também vamos, appa pretende nos unir com várias famílias diferentes, mas ele não quer nos obrigar a nada, só vamos nos casar com quem estivermos de acordo, e para encontrar um bom parceiro para Taehyung ele precisa descobrir se ele prefere ômega ou alfas, ou outros betas.
Fazia sentido.
— Por que não perguntam pra ele?
— Perguntamos. — o ômega deu de ombros — Dominante, mas Appa não tem certeza, Omma Hansol também se dizia dominante, mas se casou com um alfa.
— Mas tem o senhor Seungkwan, ele também se casou com ele.
Kihyun se perguntava como deveria explicar quilo.
— Olhe para nós, Jooheon, quantos de nós somos filhos de Wu Seokmin?
— Todos.
— Exatamente, Omma Seungkwan nunca gerou filhos vindos de Omma Hansol, ele não é dominante, é dominado apenas, completamente submisso ao seu alfa. — o ômega mais velho pensou mais um pouco — Nossos pais só querem ter certeza quanto ao Taehyung, ele não comenta sobre seus parceiros conosco, não comenta nada sobre a própria vida, por isso nossos pais acham que ele está escondendo alguma coisa.
Jooheon olhou novamente na direção de onde Taehyung estava, longe o suficiente para que ele não os ouvisse, mas perto o suficiente para ver bem o seu rosto. O beta estava agachado conversando com uma criança, parecia ser filho de algum dos empregados, pois sua aparência não condizia com a aparência dos Wu, o menino colocava uma pequena flor nos cabelos do beta, que sorria com aquilo.
Quem saberia julgar Wu Taehyung?