Taehyung precisou engolir todo o seu orgulho quando precisou pedir o favor de alguém. Ele não gostava de pedir coisas, sempre fora independente e pedir ajuda era quase uma tortura, ainda mais quando se tratava de um alfa que vira pouquíssimas vezes e não tinha qualquer tipo de amizade. Mas a quem mais pediria aquele tipo de ajuda? Seu Appa já conhecia todos os alfas a quem tinha amizade, e seus demais amantes estavam inalcançáveis naquele momento, sendo por compromisso ou por distância em quilômetros.
No fim lhe restava alguém com quem quase dividira uma noite, todavia, alguém que se encaixava exatamente na descrição que dera ao seu pai.
— Preciso falar com você. — o beta o parou no meio do serviço, o porto estava cheio como normalmente eram, barcos iam e voltavam, cargas desciam e cargas subiam, era um dos locais mais movimentados da cidade, o segundo, se comparado com as feiras livres — Pode me dar um minuto?
Jung Matthew não ocupava a posição mais importante entre os navegantes, mas o barco não iria sair sem o piloto.
— Pode falar.
— É um assunto... delicado, podemos ir para um lugar sem tantos ouvidos?
Não tinha motivo nenhum para interromper o próprio serviço, porém estava curioso. Taehyung e ele trocaram poucas palavras na vida, mas já era certo que nenhum deles havia esquecido o que quase aconteceu. O Wu lembrava-se dele, e ele não iria esquecer o Wu nem mesmo se quisesse.
Já afastados o suficiente dos demais, o alfa encarou o outro, que mesmo sendo beta tinha quase a mesma altura e um porte físico que nem todos os alfas conseguiam ter.
— E então?
— Preciso de um favor. — se fosse direto ao ponto seria mais fácil — Quero que vá até minha casa hoje à noite para um jantar e diga que estamos juntos.
Era muita informação de uma vez só, além de serem duas coisas que o Jung nunca esperou na vida.
— E por quê?
— Bom, porque as coisas na minha Casa funcionam assim, meu appa quer que eu me case, um casamento arranjado como a maioria dos casamentos em famílias grandes é, e consigo evitar isso dizendo que já tenho alguém e que só me casarei quando tiver certeza de que estou com a pessoa certa. — falar a verdade era o melhor jeito de tornar as coisas mais simples, inventar desculpas só o faria perder tempo — Faça isso por mim, diga ao meu appa que estamos juntos.
— Por que eu faria isso? — Matthew tinha muitos motivos para se negar — Seu pai é o Lorde Comandante do Exército, não é muito seguro ficar mentindo pra ele.
— Ele não vai descobrir.
— E o que me garante isso?
Nada, e Taehyung não tinha nada em mente para dar como garantia. Wu Seokmin certamente ficaria irado caso descobrisse uma mentira assim e muitas cabeças rolaram da última vez que ele viu seu pai com raiva.
Literalmente.
— Posso pagar muito bem.
Mas do que iria adiantar ter dinheiro se fosse morrer? Jung Matthew tinha muito mais amor à vida do que Taehyung imaginava. O alfa deu as costas e seguiu retornando para o que fazia antes de ser interrompido por uma proposta aparentemente absurda demais.
— Sou um Wu, tenho muita influência, posso te colocar em uma posição muito mais elevada da que está agora, incluí-lo entre os nobres.
No passado, Matthew perdeu sua família e o pouco que tinham, ficou sozinho no mundo com seu irmão, roubara para não morrer de fome, subiram degrau por degrau para estarem onde estavam hoje, tudo sempre foi muito difícil.
Ele merecia que algo na vida viesse fácil, pelo menos, uma vez.
— O que eu tenho que fazer?
[... Herança dos Alfas ...]
Hakyeon sentia todos os pelos de seu corpo se arrepiarem sempre que Ravi o tocava, mesmo que esse toque fosse mínimo. Seu coração estava acelerando cada vez mais e precisava contar até dez em sua mente para se manter calmo.
Em sua primeira aula de arco e flecha, o Zhang descobriu não ter o menor talento para aquilo, e já era claro que sua appa esperava isso, pois mandou que armassem um campo de treino longe o suficiente do movimento dos empregados, para que o ômega não acabasse por acertar alguém por acidente, e ele já teria matado muitos, caso houvessem pessoas por perto.
E talvez esse fosse o detalhe certo que o deixava mais nervoso, estava sozinho com Ravi.
— Eu sou horrível. — constatou ao ver que a última flecha atingira o muro do outro lado, passando muito longe do alvo — Não acertei o alvo uma única vez, Appa tinha razão, isso não é coisa para ômegas.
— E o que seria uma coisa para ômegas?
O Zhang não esperava essa pergunta. Ravi recolhia as diversas flechas presas nos lugares, espalhadas como se Hakyeon estivesse atirando a esmo ou perseguindo alguém que corria em zigue-zague. Já acompanhara o treino de muitos soldados pessoas, a maioria eram agricultores que perderam tudo em períodos sem chuva, ou quando chovia demais. Pessoas desesperadas sem ter para onde ir, órfãos e bastardos como ele, ninguém começava sabendo, os primeiros dias eram sempre os mais difíceis, especialmente pela insegurança.
E pelo medo de serem mandados para casa, especialmente os que nem tinham uma casa para voltar.
— Ficar em casa, cozinhar, bordar... coisas simples, sem perigo nenhum. — o lúpus sentia-se desconfortável ao dizer aquilo, pois não era o que acreditava, ele sempre quis muito mais do que aquilo, mas não tinha forças para reivindicar tais coisas.
Iria se casar e dedicar-se ao lar, era o certo a ser feito.
— Você já viu um alfa cozinhando? É algo muito perigoso para ele e quem estiver por perto. — o loiro riu fazendo com que o outro risse também — Não existe isso de lugar, cada um fica onde quer e luta para estar.
— Eu não entendo.
Ravi sentou-se na pedra ao lado de onde Hakyeon estava, as nuvens cobriam o sol e o dia não era tão quente, o inverno iria chegar em breve e os ventos gelados sopravam no fim da tarde.
— Olhe pra mim, não tenho nada e nem ninguém, mas estou aqui sendo seu professor, alguém como eu deveria estar catando miséria nas ruas, carregando caixas pesadas em troca de um pedaço de pão ou quem sabe já morto e jogado em uma vala rasa.
— Isso é tão...
— Mórbido? É, é horrível. — reafirmou — Mas assim é a vida de alguém que é sangue de percevejo, nascemos sem nada, sem direitos e com poucas chances de passar da infância.
— Mas você está aqui.
— É o que eu estou tentando te dizer, Hakyeon, as pessoas ficam onde elas lutam para estar. — foi a primeira vez que o Zhang viu aquele olhar nele, seus olhos brilhavam de um jeito diferente, ele contava sobre sua vitória, porém parecia estar infeliz — Não foi fácil ganhar o direito de andar com a cabeça erguida.
Haviam muitas outras coisas que Ravi jamais contaria para Hakyeon, coisas estas que o machucavam, por mais forte que ele fosse agora. Nada veio fácil, tudo doeu muito para ser alcançado, fizera muitos sacrifícios, todas as suas lembranças carregavam suor e sangue.
— Queria ser forte como você. — se Hakyeon já o admirava, esse sentimento havia crescido ainda mais — Mas agora já é tarde demais. Eu vou me casar.
— Por que parece tão triste ao falar de seu casamento?
Na maior parte do tempo aquilo nunca importou, mas agora era diferente. Com o tempo, Hakyeon passara a enxergar o mundo de uma forma diferente, a admirar coisas que não admirava antes e a querer alcançar horizontes distantes. Não era apaixonado por Seonghwa, não admirava Seonghwa, não do jeito que sentia isso por Ravi.
— Porque não sinto nada por meu noivo. — confessou.
— E sente algo por alguém?
Ele não precisava perguntar, Ravi sabia, estava muito obvio diante de todas as reações do Zhang quem era o alvo de seus sentimentos. E por pior que o alfa fosse — ou que ele acreditava ser —, estava ansioso, sentia-a um tanto estranho, um embrulho no estômago que não esperava sentir.
— Acho que... — timidamente o ômega deixou uma das mãos sobre o pulso do loiro, em um movimento que deixava bastante à mostra a pulseira de pedras azuis que o mesmo o havia presenteado — Acho que gosto de alguém.
Zhang Hakyeon estava longe de ser a pessoa mais corajosa do mundo, suas mãos tremiam só de pensar em fazer algo, mas um dia ouvira a frase “não importa o quanto tente, o tempo não vai voltar”, e talvez tenha sido por medo, medo de perder a única chance de sentir a emoção correndo por seu corpo. É, com certeza foi pelo medo de nunca sentir aquilo de novo.
O beijou.
Mesmo sem saber o que fazer, como fazer, tudo o que Hakyeon pensou naquele momento foi que queria saber qual era o gosto dos lábios de Ravi, independente do que viesse a ocorrer depois. Já o alfa o correspondeu, estava surpreso por alguém como Hakyeon — que aparentava tanta timidez — fosse capaz de tomar aquela iniciativa.
E ele, o ômega, sentiu que beijar Ravi foi a melhor coisa de sua vida.
— O que eu fiz?
Mas a realidade bateu logo, ergueu-se rapidamente de onde estava e se afastou poucos passos, o coração parecia que iria explodir no peito. Todavia, o loiro sabia muito bem como lidar com uma reação como aquelas, preferindo não usar palavras. Ravi se aproximou dele e o beijou novamente, dessa vez com ainda mais intensidade, de uma forma que Hakyeon sequer conseguisse se concentrar em pensamentos.
E sem ar, o Zhang encostou a cabeça no peito alheio, sentia medo, o abraçou e sussurrou para que só o alfa ouvisse:
— Não posso gostar de você, mas gosto.
[... Herança dos Alfas ...]
Aquele lugar dava arrepios.
As sentinelas mantiveram as flechas apontadas para sua cabeça desde o momento em que o avistaram ainda de longe, e Matthew sentia que o que estava fazendo era a coisa mais i****a de sua vida, isto é, uma flecha daquelas no meio de seu olho era um adeus para a vida. Mas que merda! Havia perdido completamente o juízo, porque só estando completamente louco para ir até ali sem ter muitas certezas.
E lá estava ela bem diante de seus olhos, a Fortaleza impenetrável.
Seu estômago pareceu ficar gelado quando o barulho do grande portão sendo aberto ecoou por toda parte, não sabia o que havia lá dentro e ouvira muitas histórias. Taehyung o esperava do outro lado, estava com um sorriso no rosto — o máximo que ele conseguia —, já pronto para recebe-lo. Sentiu-se um pouco mais calmo, o beta era a figura de maior confiança que tinha ali, a única aliás.
— Obrigado por vir, Matthew.
E lá dentro era muito diferente do que as histórias diziam. Taehyung fez caminho para os estábulos, onde deixariam o cavalo preso, e sendo um tanto distante das sentinelas, eles podiam falar sem que estes os ouvissem.
— Aqui é bem diferente do que as pessoas dizem por aí, onde estão as jaulas? As estacas com pessoas empaladas vivas? As cabeças arrancadas?
— Onde ouviu essas coisas?
— Por aí, sempre aparecem em versões diferentes, uma vez me disseram que vocês comiam os olhos dos inimigos mortos.
Taehyung apenas o encarou, esperou que ele risse, mas aparentemente estava falando sério. As pessoas falavam muitas coisas, inventavam aquilo que não sabiam e a história ia sendo modificada a cada vez que era contada. Uma vez seu appa falara algo sobre isso, dizendo que aquilo não importava e que de certa forma era bom. Quanto mais temidos fossem, mais fortes eles ficavam.
— Temos comida em casa, não precisamos comer olhos.
Matthew o acompanhou para dentro da grande casa. Tudo lá parecia escolhido a esmo, mas que estranhamente tinham uma harmonia, os móveis pareciam caros, feitos sob medida, além de brilharem como se tivessem sido limpos a pouco tempo. Tirando toda a riqueza — a qual não era muito acostumado —, aquela casa parecia-se com as outras, longe de ser como os boatos diziam.
Mas a sala de jantar não era como as outras, a enorme mesa, além de comportar um banquete, era rodeada de incontáveis cadeiras de tamanhos diferentes. Haviam muitos rostos ali, todos de pé educadamente o recebendo, algo que o Jung não esperava que fosse ocorrer.
— Matthew, esta é a minha família, meu Appa, Lorde Wu Seokmin, meus Ommas, Kim Hansol e Zhang Seungkwan, meus irmãos e meu cunhado.
Tentar apresentar todas aquelas pessoas seria uma perca de tempo, Matthew não iria decorar de qualquer forma.
— Seja bem vindo, Matthew, sente-se conosco. — o Lorde lhe apontou as duas cadeiras vazias.
A cadeira destinada a ele parecia ter sido feita com suas medidas. Taehyung não havia lhe contado tudo, aquele jantar havia sido uma armação de Hansol e Seungkwan, algo dito ainda naquela manhã, forçando o filho a trazer o alfa ali, e ainda a escolher uma cadeira do tamanho certo. Muitas dessas coisas vinham da cabeça dos dois, que depois de tantos anos ali se sentiam entediados e estavam sempre investindo em inventar algo.
A história das cadeiras, os móveis brilhando mesmo de noite, o banquete.
Mas aquilo era bom, Seokmin queria que Matthew fosse tratado da mesma forma que os demais foram, o receberia com tudo o que tinha direito, independente de sua posição na sociedade em que viviam. Naquela noite, Jung Matthew seria tratado com a mesma importância que qualquer Lorde que já tenha pisado naquele chão.
— Ficamos felizes que Taehyung esteja com alguém, todo pai deseja que seu filho tenha alguém com quem contar após sua partida. — Seokmin dizia enquanto servia-se de vinho.
Taehyung estava muito perdido quanto ao que deveria fazer, não tinham i********e e não sabiam nada sobre a vida um do outro, sentia que a qualquer momento algo errado poderia ser dito e a farsa acabar antes mesmo de começar direito.
— Taehyung deve ter dito que eu não tenho nenhum grande título, trabalho no porto pilotando os navios, não tenho nenhuma grandeza a ser oferecida. — em partes, Matthew queria entender como funcionavam as coisas dentro.
Como o grande Lorde Comandante pensava.
— Caráter é a grandeza de um alfa, Matthew. — o Lorde o corrigiu, colocou a taça de volta na mesa e encarou o mais novo por cerca de três segundos — E se você tem isso a oferecer, já tem o bastante.
Aquilo fez o Jung perder o chão sob os pés. Wu Seokmin era diferente quando se olhava de perto, o Lorde não morava dentro daquela casa, ali vivia apenas o pai de Taehyung, alguém com um olhar e palavras muito diferentes das que o mundo lá fora via.
Seokmin tinha um sorriso, uma calma.
— Você é muito grande, tem parentesco com lúpus? — Seungkwan apoiou os cotovelos sobre a mesa para parecer mais alto enquanto perguntava, nunca fora alguém de ficar na curiosidade.
— Ah, eu não sei dizer, meus pais morreram antes que eu pudesse perguntar, mas meu irmão deve saber.
— Você tem um irmão? — fora a vez de Hansol perguntar.
— Sim, um irmão mais velho, um beta, o nome dele é Taekwon.
Taehyung já deveria imaginar que sua família faria um interrogatório, sempre era da mesma maneira, todos eram curiosos demais, e já sem nenhum limite, especialmente seus ommas, que falavam pelos cotovelos e queriam saber absolutamente tudo sobre a vida de todo mundo.
Mas no fim, sentia-se aliviado ao notar o quanto Matthew estava sendo aceito por todos, dessa forma não haveriam desconfianças, e uma vez aprovado por seus pais, o Jung serviria de desculpa por muito tempo, assim o beta Wu não precisaria se preocupar com seu casamento tão cedo.
E no fim do jantar, a conversa se seguiu, até tomar proporções que o beta não esperava.
— O casamento de meu filho Kihyun será em poucos dias, você me disse que é navegante, será muito bom ter a sua companhia em nossa viagem para o Norte.
— Me sinto honrado pelo convite, senhor.
Depois disso, Taehyung arrumou uma desculpa para fazer Matthew ir embora, ou pelo rumo das coisas ele acabaria dormindo ali.
O levou direto para os estábulos para buscar o cavalo, e também pela distância, onde podia fazer suas reclamações sem correr o risco de alguém o escutar, a audição de seus irmãos era muito boa.
— Seu pai pareceu gostar de mim. — o Jung comentou.
— Esse é o problema! — o beta agoniou-se — Gostou demais, vai querer que volte outras vezes, vai conversar mais, e uma hora vai acabar descobrindo que não temos nada, que tudo é mentira.
— Só confie em mim.
Mas não era fácil para Taehyung acreditar nisso, temia o pior advindo de seu falso alfa passar muito tempo perto de seu appa. Seokmin não gostava de ser enganado, poderia acontecer qualquer coisa, e dessas coisas, apenas coisas ruins.
Todavia, o alfa parecia confiante demais, era aquela confiança estúpida que os alfas tinham em si mesmos, e que na maioria das vezes os colocava em perigo. Abruptamente o Jung o puxou pela cintura, um ato que o surpreendeu, e quando estava pronto para reclamar, ele sussurrou em seu ouvido:
— Me procure quando quiser que tudo seja real.
[... Herança dos Alfas ...]
Jooheon ficou mesmo quando Hyunwoo subiu para o quarto, a conversa com seus cunhados estava boa, além de estar em clima de despedida para Kihyun, que passaria a viver longe dali em poucos dias.
Subiu após sentir-se cansado, e o sono tomar conta. Ao entrar no quarto, não demorou ao notar que havia algo estranho. Hyunwoo estava sentado na cama, o calor o obrigara a abandonar a camisa, seus cabelos estavam presos no alto da cabeça, e ele parecia estar em outro mundo enquanto girava a ponta de uma faca sobre seu dedo, a faca o furava, mas a dor parecia não ser importante.
— Tem algo errado, querido? — o ômega perguntou já sentindo-se afoito, tinha certeza de que era algo muito r**m.
O lúpus não o olhou.
— Precisa saber de algo... que eu vou fazer.
O ômega ficou ainda mais assustado, olhava para seu marido e para a faca em suas mãos. Não queria acreditar na possibilidade de um dia Hyunwoo lhe fazer algum m*l, mas recordava-se das vezes que ouviu entre aquelas paredes que devemos desconfiar até da própria sombra.
— O que você vai fazer?
Hyunwoo o olhou em silêncio por segundos que pareceram eternidades.
— Vou matar Lady Young Tiffany.
As palavras vieram como flechas para dentro de sua mente, e demorou-se muito para juntá-las, quanto as repetia, mais sem sentido elas ficavam. Jooheon se viu perdendo o chão sob os pés, e sendo aos poucos levado para um lado do mundo que ainda lhe era desconhecido.
Uma vez Hyunwoo lhe dissera que alianças eram desfeitas, pessoas morriam e os mais fortes ficavam vivos.
— O que?
O alfa fechou os olhos com força e suspirou, precisa explicar, por mais que soubesse que nada do que dissesse mudaria as coisas. Tudo já havia começado, precisava terminar.
— São ordens do Rei, Jooheon, sua appa cometeu crimes graves contra a coroa e contra a vida de seu próprio povo. E como ela se recusa a se entregar, a resposta do Rei é condená-la a morte.
Jooheon sabia.
Mesmo vivendo sob o véu do filho perfeito, o ômega sabia que haviam muitas coisas erradas acontecendo em seu lar. Não podia ver nada, não podia ouvir nada e muito menos se meter. Mas ouvia o choro de sua mãe e o medo que ela sentia.
Era medo daquilo, medo do que um dia iria acontecer.
— Por que você tem que ser o carrasco? — diante do choque, era tudo o que conseguia pensar.
— Porque eu sou Wu Hyunwoo, primogênito de Wu Seokmin, Lorde Comandante de todo o exército dos Lobos, herdeiro de seus títulos e sua riqueza, mas também herdeiro de seus fardos. — o alfa segurou o rosto de seu ômega com uma das mãos, o olhou nos olhos e sentiu toda a dor que havia ali dentro — Eu sou seu alfa, Jooheon, e estou mandando você me odiar por isso.
O menor tremia, sentia que seu corpo desabaria a qualquer momento. Queria estar em qualquer lugar, menos ali.
— Eu...
— Segure isso. — o Wu colocou a faca que carregava entre os dedos do outro, que sequer tinha firmeza com ela. Jooheon teve sua mão levada ao peito do alfa, onde a ponta da faca se apoiava em sua carne — Me odeie, me queira morto, fure meu peito com essa faca e me impeça de matar sua appa.
A respiração do ômega se cortou, como ele podia fazer aquilo?
Jooheon jamais teria forças ou coragem para tal, a mão de Hyunwoo se movia contra si próprio, aos poucos apunhalando o próprio peito, a pequena mão do Young era esmagada entre a faca e a mão do outro, todavia, o que mais doía era ver o sangue começando a se espalhar sobre o corpo alheio.
Ele estava matando Hyunwoo.
— Não! — gritou ao se dar conta disso, e nervoso puxou a faca com força e a jogou no chão.
Chorava, sentia-se desesperado e para onde olhava não conseguia encontrar uma saída. As paredes se fechavam contra ele. Não conseguia mais respirar, e sem forças, caiu de joelhos sobre o chão.
— Como escolher entre minha appa e o homem que amo?
Hyunwoo se ajoelhou diante dele, a ferida em seu peito não era nada comparada com o que sentia por dentro, ver Jooheon assim o destruiu.
— Por favor, Hyunwoo, não mate minha appa, me deixa convencê-la a se entregar, eu estou implorando, por favor, eu faço qualquer coisa, não a mate.
O alfa suspirou, como negaria isso a ele?
— Tudo bem, você tem uma chance.