QUINZE: O Direito de Odiar

3182 Words
— E depois de mirar, atire sem perder tempo. Os dedos de Jooheon soltaram-se rapidamente e tudo o que conseguiu acompanhar foi o momento em que a flecha atingiu o alvo em cheio alguns metros mais a frente. O ômega sorriu, foram muitas tentativas até conseguir, não resistiu em pular pela felicidade e sentiu ainda mais satisfeito quando seu marido o abraçou. — Eu consegui, Hyunwoo! — ele exclamava — Finalmente consegui! O Young demorou a acreditar que um dia aquilo surtiria efeito, e até mesmo achava muito desnecessário, mas não se opôs quando o alfa disse que ele precisava treinar sua autodefesa. A Fortaleza Wu era o lugar mais seguro em que ele já estivera, todavia todos os Wu, até mesmo os ômegas, treinavam o manuseio de armas desde a infância. Estava casado com Hyunwoo há pouco tempo, mas o tempo que estivera ali já fora o suficiente para que ele presenciasse cenas que nunca imaginou, como seus cunhados lutando com espadas e aparentando serem melhores que muitos alfas que já vira lutar em torneios. A vida naquele lugar era mesmo muito diferente da que viveu, distante demais do que era costumeiro ver ao imposto aos ômegas. E talvez fosse isso que os tornava tão especiais, os Wu se distinguiam demais dos outros. — Está gostando disso? — Sim. — Precisava admitir, a ideia de defender-se sozinho o deixava confortável, fazia com que se sentisse independente — Eu me sinto... — Livre? — Livre. E era exatamente isso que Hyunwoo queria, seu pequeno ômega estava livre agora, livre de qualquer coisa que houvesse sido obrigado a passar um dia. Era satisfatório enxergar as mudanças acontecendo, o rapaz tímido e ansioso aos poucos percebendo que não haveriam mais repreensões, e que ali ele poderia ser quem quisesse, viver por si e não para agradar alguém. Era bom ver um sorriso sincero nos lábios dele. — Depois vou te ensinar luta corporal. — o alfa informou — Não, vou pedir para o Hyunggu fazer isso, seria injusto lutar contra mim. — Acha que não posso derrubá-lo, alfa? — Pelo contrário, eu é que não posso derrubar você. — o alfa ajoelhou-se aos pés do mais baixo, algo que fez o outro rir — Já estou completamente fora de combate. As bochechas de Jooheon ardiam, mas ele não conseguia parar de sorrir. Hyunwoo o fazia se sentir o ômega mais sortudo do mundo, o deixava com o coração balançando, e não demorou muito para notar o quanto estava apaixonado por ele, e a vontade de estar para sempre ao lado do Wu só crescia. Jooheon sabia que não era mais só a marca que os ligava, mas sim seus próprios sentimentos. Ele estava ali porque queria estar, simplesmente por isso. — Você é um bobo. — o disse. — Mas um bobo feliz. — o mais velho o respondeu — Feliz por ter você como meu ômega. Hyunwoo tinha muitas obrigações, não era sempre que tinha tempo, então todos os segundos ao seu lado eram mais do que especiais, e ele os aproveitava ao máximo. Todos os dias via seu marido ir e voltar muitas vezes, e seu coração se aquecia por ele sempre lembrar de vir vê-lo e perguntar se estava tudo bem com ele, mesmo que fosse por apenas poucos segundos, segundos que lhe proporcionavam ver seu rosto, sorrir e dizer que estava bem. Podia ir quantas vezes quisesse, pois o importante era que ele sempre voltava. — Senhor Hyunwoo? Um dos empregados parara timidamente perto do casal. — Sim? — Lorde Seokmin deseja vê-lo. — Já estou indo. Jooheon não relutou em o deixar ir, mesmo que soubesse que aquela conversa provavelmente gastaria todo o restante do tempo que Hyunwoo ainda tinha naquele dia. O alfa beijou seus lábios e rumou para dentro da grande casa. Subiu a passos apressados as inúmeras escadas até a sala onde sabia que seu pai estava, onde as paredes eram mais grossas e os demais não ouviriam o conteúdo da conversa. Seokmin não gostava de ter segredos entre sua família, mas alguns assuntos pediam isso, especialmente quando se era casado com Seungkwan e Hansol, que adoravam opinar em assuntos sérios e muitas vezes acabar o impedindo de muitas coisas. Sua família sempre esteve acima de tudo, mas como Comandante do Exército, Seokmin precisava fazer sacrifícios. Sacrifícios estes que nem sempre eram bem aceitos por seus companheiros. — Deseja falar comigo, Appa? O filho mais velho fechou a porta atrás de si, trancando-a com o pesado cadeado. — Sente-se. Após Hyunwoo estar devidamente acomodado, Seokmin lhe estendeu um papel dourado, o carimbo no fim da folha não deixava dúvidas de que se tratava de algo muito sério, era um decreto assinado pelo próprio Rei Kim Mingyu. — Não é como se não quisesse fazer isso. — as palavras deveriam amenizar. Mas não amenizaram. — Não posso fazer isso com ele, não posso matar Lady Young. Pouco tempo atrás as coisas começaram a desandar em Templos, cidade controlada por Tiffany. Noticias de mortes e grande miséria haviam chegado aos ouvidos do Rei, e não demorou muito para encontrar o motivo. Lady Young estava roubando seu próprio povo, desviando os impostos para enriquecer a si mesma e deixando a cidade cada vez mais pobre. Mingyu tentou reverter a situação, deu-lhe uma chance para que se explicasse, porém a mesma se recusou a vir a Capital. Não demorou muito para que tudo piorasse ainda mais, a alfa estava sob diversas acusações, incluindo até mesmo rebeldia e inicio a motim. Tiffany estava fechando a cidade, e as pessoas estavam morrendo lá dentro, algo que deixou o Rei completamente sem escolhas a não ser sentencia-la a morte. E ali estava o decreto nas mãos de quem deveria ser o carrasco. — Precisa fazer isso, é uma ordem do Rei. — Mas por que justamente eu? — indagou, sentia-a preso contra a parede. E realmente estava. — Porque eu quis que fosse assim. — Seokmin era direto com suas palavras, mesmo que falar a verdade fosse difícil, especialmente em situações como aquela — Você será o Lorde de nossa Casa, será Comandante de todo o nosso exército, obrigações estas que o colocarão em situações muito difíceis, terá que fazer escolhas quase impossíveis e sacrificar-se dia após dia. — Pelo que? — Pelo povo, por quem não pode se defender sozinho. — e talvez aquele fosse o ponto mais difícil — Eduquei seus irmãos para amarem a Família acima de tudo, e eduquei você para amar o povo acima de tudo. Esse é o seu verdadeiro motivo para viver, para ser forte e proteger quem precisa de você. Eram palavras bonitas, mas não mudavam a dor que seu ômega seria obrigado a passar. Hyunwoo odiava sua sogra, mas ela ainda era Appa de Jooheon, e saber que seu próprio marido a matou seria demais para que seu pequeno ômega suportar. — Temos uma aliança com ela. — Nossa aliança com o Rei veio primeiro, e é a esta aliança que vamos honrar. — Seokmin segurou a mão de seu filho, olhou fixamente em seus olhos — Jooheon irá entender, ele foi criado para entender tudo o que você quiser que ele entenda. Por mais doentio que isso seja, foi assim que ela o criou. — Eu não quero que ele entenda, quero que sinta raiva, Jooheon tem direito a sentir muita raiva, se ele baixar a cabeça e aceitar, saberei que falhei em torna-lo livre.     [... Herança dos Alfas ...]     — É que... eu não sei mais o que fazer, Seungcheol. O ômega suspirou, não imaginava que o problema fosse crescer a esse ponto. Falavam a respeito de Hoseok, o filho que tanto buscaram dar uma boa educação, mas sentiam que haviam falhado nisso. Era seu menino, o pequeno ômega amado, nenhum dos dois conseguia ser forte o suficiente para o proibir de algo, o obrigar a parar de agir como agia. Era difícil para Jeonghan, os que estavam ao seu redor lhe diziam para dar limites ao seu filho, dar um jeito no que ele estava se tornando. Mas ele não queria ser esse tipo de pai para Hoseok. — Nosso filho tem um instinto livre, meu amor. — Não, nosso filho é m*l educado e grosseiro! — e talvez essa fosse a parte mais difícil de aceitar — Não sei em que momento Hoseok passou a acreditar que desrespeitar as pessoas era liberdade, só sei que ele perdeu completamente a noção das coisas, nosso filho é grosseiro com todo mundo, e as pessoas só não revidam porque ele é sobrinho do Rei, mas ele não percebe isso! — E o que você sugere? — Seungcheol perguntou já aflito, ele tinha medo — Não está pensando em forçá-lo, está?   O alfa balançou a cabeça em negação, ele também tinha medo. — Eu não sei, mas acho que precisamos ter uma conversa séria com ele, fazê-lo entender de uma vez por todas que o tempo está passando e tudo o que ele está fazendo é afastar as pessoas de perto dele. Mas o que nenhum dos dois percebeu naquele momento, era que Hoseok estava parado atrás da porta ouvindo cada palavra. O ômega pensou em entrar e dizer muitas coisas, cobrar as verdades que ele deveria saber. Todavia, segurou-se, seus pais estavam certos. Era difícil aceitar aquilo, mas era verdade. Hoseok deixou a casa pouco tempo depois, ainda era manhã e as ruas estavam muito movimentadas. Gostava de ver as pessoas indo e vindo, servia para pensar. A maioria dos que estavam ali tinha apenas o suficiente para sobreviver e eram gratas por isso, e talvez esse fosse o maior problema do Kim, ele não era grato por nada, tinha tudo e estava sempre a procurar problemas em sua vida, pior que isso, estava sempre a criar seus próprios problemas. E, de repente, sua rebeldia perdeu o sentido, assim, de um momento para o outro. Pelo que ele lutava? No começo acreditava lutar pela liberdade de expressão dos ômegas, mas com o tempo notou que nada mudava, os ômegas estavam bem vivendo como viviam e ninguém queria ser como ele. Hoseok se viu sem proposito nenhum, ele não era um exemplo a ser seguido, tornou-se na verdade exatamente aquilo que os ômegas evitavam ser. Ele estava sozinho, sozinho com toda a sua arrogância. — O movimento está interessante hoje? O ômega se assustou com a voz repentina, mas ver a figura de Hyungwon parado ao seu lado o acalmou. O Chae parecia estar em toda parte, poderia jurar que ele o seguia. — Está me seguindo? — Não, você está parado na frente da oficina. Olhou para trás e constatou que estava mesmo, havia ido parar ali inconscientemente, talvez por ser um caminho que seguia quase todos os dias, ou porque seus instintos lhe diziam que ali ele estava seguro. Era até engraçado pensar assim. — Aconteceu alguma coisa? — Não. — mentiu, não era como se fosse dividir seus sentimentos com o Chae — E não aja como se isso importasse pra você. Hoseok se afastou, porém o alfa segurou seu pulso o impedindo de ir. — Claro que importa. — afirmou — Por que não consegue acreditar em nada do que eu falo? — Porque você só diz mentiras, quanto o meu avô paga pra você agir como se gostasse de mim? Sei que me odeia, nunca te dei motivos para gostar, pelo contrário, sempre o tratei como um nada. No fundo, se eu não fosse sobrinho do Rei, você já teria me batido e me colocado no lugar devido. — É isso que pensa de mim? Não, no fundo não era. Mas de que importava? O alfa soltou seu pulso e logo depois ele próprio se afastou, talvez Hoseok estivesse certo, ele não tinha nenhum motivo para se importar, e sim, talvez fosse melhor que ficasse longe. Hyungwon voltou para dentro da oficina e sentou-se próximo à parede por um instante, estava cansado, e não um cansaço físico, ele estava cansado de várias coisas ao seu redor. Não era uma má pessoa, nunca foi, Chae Hyungwon sempre foi grato por sobreviver, feliz pelo que tinha, feliz por, mesmo não sendo alguém de títulos ou nobreza, conquistou lugar até mesmo entre a parentela do próprio Rei. Não, ele não tinha um coração mau, e por mais que Hoseok merecesse sua raiva, ele não conseguia sentir isso. — Está cansado? — Siwon sentou-se em um banquinho bem próximo de onde ele estava. — Já vou voltar ao trabalho. — Não, estou perguntando se está cansado do Hoseok. Soltou o ar dos pulmões, sentia-se inquieto. — Seu neto sempre foi uma pessoa difícil. — era a única resposta que tinha naquele momento, pensara em outras coisas, mas preferiu guardar para si. Siwon negou com a cabeça. — E por que você não dá um soco no olho dele? A pergunta o pegara de surpresa, era o tipo de coisa que fazia alguém rir pelo nervosismo do momento e buscar a resposta mais óbvia que pudesse dar. — Alfas não batem em ômegas. — E quem te ensinou isso? — Meu pai. O mais velho abriu os braços, olhou em redor. — Ele não está mais aqui para o repreender se fizer isso. Hyungwon passageou os pulsos, por alguns momentos chegou a acreditar que Siwon queria que ele fizesse aquilo, que batesse em Hoseok, mas isso não fazia sentido nenhum. O Chae deslizou as pernas pelo chão de terra sem se importar em sujar-se ou não, deixou os braços relaxarem ao lado do corpo e fechou os olhos. Sequer conseguia se imaginar fazendo algo assim. — Não quero vê-lo machucado. — Hoseok em algum momento se perguntou se estava machucando você? As palavras de Siwon tinha cada vez menos sentido. — Por que está me dizendo isso? O mais velho se virou para ele, ficou em silêncio por dois ou três segundos pensando nas palavras certas, ou nas palavras mais simples e fáceis de serem entendidas. Hyungwon trazia consigo o mesmo olhar do menino assustado que chegou ali há vinte anos atrás, ainda tinha o mesmo coração. E talvez esse fosse o problema. — Hoseok é meu neto, eu o amo muito. — ele disse — Mas você também é importante pra mim, é meu filho, e se não o visse assim não teria feito o que fiz. Você não está sozinho no mundo, nós somos sua família, respeite a si mesmo, está na hora de ser um pouco mais egoísta e cuidar de você mesmo. — E o que sugere, appa? — Hum... se casar, talvez, ter um ômega ou beta para cuidar de você, ou um alfa, mas alfas não são bons em cuidar nem de si mesmos. O mais novo riu. — Não sei. — Se interessa por alguém? — Não. — pelo menos, não mais — Vou... pensar nisso, acho que agora já tenho o que preciso para dar uma boa vida ao meu companheiro.       [... Herança dos Alfas ...]     — Quero ter aulas de arco e flecha! Mihyun estava sentada em uma poltrona na sala, concentrada em sua leitura ela demorou a prestar atenção em seu filho parado na frente da mesma. — Pra que? — Pra me defender sozinho. — respondeu, Hakyeon estava pronto para teimar por horas sobre aquele assunto, chegou até mesmo a juntar argumentos antes — Por favor, appa. A alfa tirou os olhos do livro pesado e encarou os olhos pidões do filho, o mesmo olhar que lançara a vida toda sempre que pedia algo, e precisava admitir que quase sempre funcionava. — Não precisa se defender sozinho, tem muitas pessoas aqui para defenderem você. Mas não era isso que Hakyeon queria ouvir. O ômega lúpus continuou parado na mesma posição que estava antes, meio agoniado com aquilo. Estava com aquela ideia na cabeça desde sua última visita aos Wu, queria ser tão bom quanto Hyunggu ou Kihyun. — Mas eu quero. — Ômegas não precisam disso. — Ômegas o que? Só então Mihyun notara YooA parada perto da porta, talvez fosse por isso que seu appa costumava dizer que após o casamento um alfa não deve baixar a guarda nem estando dentro de casa. Sua esposa continuou a olhá-la esperando por uma resposta, e ela sabia bem que a aparência delicada e os bons 30 centímetros que separavam suas alturas não iriam impedir YooA de se irritar e jogar qualquer coisa afiada contra sua pessoa. — Ômegas podem fazer qualquer coisa. — ela mesma contradisse sua frase — Vocês são incríveis. — Então eu vou poder ter aulas de arco e flecha? YooA ainda estava na porta esperando a resposta da alfa. — Se é o que quer, vou arranjar um professor. — afirmou, e com a esposa ainda parada os observando, Mihyun ergueu-se da poltrona — Vou fazer isso agora. Hakyeon sorriu para sua mãe, queria saber como ela fazia aquilo. Mihyun apressou-se com aquela tarefa, ela ainda tinha muitas outras coisas para fazer naquele dia, e não poderia perder a tarde toda resolvendo algo que deveria ser muito simples. Só precisava ir até o quartel, lá encontraria muitos soldados e certamente algum deles poderia dar aulas para Hakyeon. Deveria ser cuidadosa quanto aquilo, não poderia simplesmente colocar um estranho dentro de sua casa, ainda mais quando se tratava de alguém que teria proximidade com seu filho. Como o esperado, haviam muitos ali, concentrados demais no treinamento e já outros afiavam as armas disponíveis no lugar, como as espadas e as pontas das lanças. Mihyun procurou um rosto conhecido por toda parte, até avistar os cabelos vermelhos brilhantes de Jay. — Jay. — o chamou. — Sim. — o ruivo, que afiava a ponta de uma lança, parou o que fazia — Senhora Mihyun. — Preciso de... uma indicação, alguém para dar aulas de arco e flecha para Hakyeon. O Park parou por um segundo para pensar, era notório o quanto estava mais lento, e mesmo Mihyun que não tinha tanta proximidade com ele, conseguia notar que Jay parecia diferente, seu aspecto era o de alguém cansado, e as roupas que vestia não eram as de seu costume, parecia até mais velho, ou mais maduro. — Eu mesmo faria isso se não andasse tão ocupado, a senhora sabe, vou me casar. — chegava a ser mórbido o modo como falava de seu casamento — Mas eu posso indicar o Ravi, ele é bom com arco e flecha e acredito que deve ter tempo para ensinar Hakyeon. Mihyun lembrava-se do mesmo, e lhe parecia confiável, afinal, já salvara a vida de Hakyeon uma vez. A mesma procurou pelo loiro e não foi tão difícil o encontrar, pois também estava no quartel, ajudando com o treinamento dos novos soldados. A Zhang o chamou de canto para fazer a proposta e naquele segundo, vestido em sua simplicidade de órfão que venceu na vida — ou melhor, a de bastardo lutando por seu lugar ao sol —, Ravi estava acima de qualquer suspeita. — Claro, será uma honra dar aulas ao seu filho, Sr. Mihyun.  
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